Lista de Poemas

Plenilúnio

Plenilúnio, oh plena lua
de meu avô e de minha avó.
Leio versos dele nas velhas coletâneas
enquanto os recortes amarelecidos
fazem queixas e promessas,
queixas, promessas e esperanças.
Tudo de ti me fala, eis que confessa
nas canções plenas de luas cheias,
cheias de todas as luas.
Ao pé do soneto publicado
o anúncio do livro que se perdeu,
cujas páginas quase não restaram.
E agora, perto de um século depois,
tomo o plenilúnio ao meu cuidado
com um livro sem graça,
mas cheio de emoção como seria o seu.
Meu avô Eduardo declamava com voz cheia
os versos que fez como padeiro
para Mimosa, minha avó.
Tudo restou acontecido,
inclusive as mortes no caminho.
a dele, a dela e a partida
dos filhos todos que tiveram.
O velho álbum guarda recortes amarelos
e é a própria lua cheia que me ilumina
com seculares emoções,
jovens emoções que se renovam a cada lua.
Os dedos de minha Mãe pregaram esses papéis
que jazem pregados em mim.
Oh plenilúnio, oh lua plena, plena lua
lua de cem anos, lua cheia
de uma saudade sem fim.
Plenilúnio da saudade,
oh plenilúnio de mim.

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Cantiga

Eu sou o olhar que contempla
o amor que rebenta em ti;
sou o pássaro cativo
que canta enternecido
na paisagem tão terna
que há em ti e por mim.
Depois de nossos caminhos
sou o descanso maduro,
a sombra, o fruto morno,
o vento nos teus cabelos.
Sou o canto que desperta,
a voz que canta e chora;
sou percussão dos sentidos
e cordas do meu amor;
nunca vou morrer depois,
embora sigamos juntos
pela vida para a morte.
Falo a língua esquecida,
verbo que o mundo esqueceu,
mas canto minha cantiga
do amor que nunca morreu...

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Êxtase

Esperei por ti neste último poema:
tu chegas em fuga, ai, sem ruído e voz
(não temos voz) e através da água dos nossos olhos
olhamos um os olhos do outro (quanto vemos, amor!)
e, oh Cristo, basta! Agora desço por teu rosto,
pois sigo na lágrima tua e quando encostas
o ouvido no meu peito, ouves o tropel nervoso
do meu cavalo louco nos caminhos do fim.
Por aqui ninguém vai, amor: eu vou sem voz
e é meu olhar que ecoa, não minha voz.
(E eu quero voz?) Ela ficou em ti, no teu silêncio
e na tua lágrima vou morrer na angústia dos trovões
calados e com todas as neuroses da alma dos relâmpagos.
Teu pranto é mudo quando morro e nele viajo
com minha morte. Desci por teu rosto e terminei
bem entre teus seios: se na tua lágrima segui
é porque meu último desejo foi estar aqui.
Minhas mãos não acenam (morrem na posse)
ocupadas pela última colheita.

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Identificação e contexto básico

**Nome completo:** Cid Saboia de Carvalho. **Data e local de nascimento (e morte, se aplicável):** Nasceu em Fortaleza, Ceará, a 12 de maio de 1945. Faleceu em Salvador, Bahia, a 18 de abril de 2005. **Origem familiar, classe social e contexto cultural de origem:** Detalhes específicos sobre a sua origem familiar e classe social não são amplamente divulgados, mas o seu percurso intelectual e académico sugere um ambiente propício ao desenvolvimento cultural. **Nacionalidade e língua(s) de escrita:** Brasileira. Escreveu em português. **Contexto histórico em que viveu:** Viveu durante um período de grandes transformações no Brasil, incluindo a ditadura militar e a redemocratização, e testemunhou importantes movimentos culturais e sociais.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Cid Saboia de Carvalho são escassas na documentação pública. No entanto, a sua posterior carreira académica e literária sugere uma sólida formação intelectual, possivelmente com forte inclinação para as humanidades.

Percurso literário

O percurso literário de Cid Saboia de Carvalho abrange a poesia, o ensaio e a crítica literária. Iniciou a sua atividade como poeta, desenvolvendo um estilo singular que explorava temas existenciais e sociais. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, refletindo uma constante busca por renovação formal e temática. Atuou como professor universitário, contribuindo para a formação de novas gerações de escritores e críticos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias **Obras principais com datas e contexto de produção:** * "Marés" (1973) * "Pés de Barro" (1978) * "Terra do Sem-Fim" (1983) * "O Livro das Ausências" (1990) * "Canto de Sião" (2003) **Temas dominantes:** Existencialismo, a condição humana, a morte, o tempo, a memória, a identidade, a crítica social e política, a relação com a terra e a natureza, a espiritualidade. **Forma e estrutura:** Utilizou diversas formas poéticas, incluindo o verso livre e formas mais estruturadas, demonstrando um domínio técnico e uma liberdade criativa. **Recursos poéticos:** Uso de metáforas complexas, imagens fortes e um ritmo que varia entre o contemplativo e o incisivo. **Tom e voz poética:** O tom pode ser lírico, elegíaco, crítico ou reflexivo, com uma voz poética que oscila entre o pessoal e o universal. **Linguagem e estilo:** Linguagem densa, por vezes erudita, mas sempre evocativa, com uma preocupação com a precisão vocabular e a força expressiva. **Inovações formais ou temáticas introduzidas na literatura:** Contribuiu para a renovação da poesia brasileira ao incorporar reflexões filosóficas e sociais de forma inovadora. **Movimentos literários associados:** Embora não se vincule rigidamente a um único movimento, a sua obra dialoga com o pós-modernismo e com as correntes que exploram a subjetividade e a crítica social na literatura contemporânea. **Obras menos conhecidas ou inéditas:** A sua produção ensaística e crítica, embora significativa, é menos conhecida do que a sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Cid Saboia de Carvalho viveu um período de intensa efervescência cultural no Brasil, marcado pela ditadura militar e pela subsequente redemocratização. A sua obra reflete muitas vezes as inquietações sociais e políticas desse tempo. Foi contemporâneo de uma geração de escritores que procuravam novas formas de expressão, dialogando com a tradição e com as vanguardas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Cid Saboia de Carvalho foi professor universitário, dedicando grande parte da sua vida ao ensino e à investigação literária. Detalhes sobre a sua vida pessoal, relações afetivas e familiares não são amplamente divulgados publicamente, mas a sua obra revela uma profunda sensibilidade e um olhar atento sobre as relações humanas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A sua obra poética foi reconhecida pela crítica especializada e pelo público leitor, consolidando o seu lugar na literatura brasileira. O seu papel como ensaísta e crítico literário também contribuiu para o seu prestígio no meio académico e literário.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado por poetas da tradição brasileira e universal, Cid Saboia de Carvalho, por sua vez, influenciou gerações posteriores de poetas e escritores com a sua originalidade e profundidade temática. O seu legado reside na sua capacidade de aliar rigor intelectual a uma expressividade poética marcante.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Cid Saboia de Carvalho tem sido objeto de diversos estudos críticos, que destacam a sua reflexão sobre a existência, a identidade e a busca por sentido num mundo em constante transformação. A sua poesia convida à análise filosófica e à contemplação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além da sua faceta de poeta, foi um dedicado académico e crítico literário, contribuindo para a divulgação e estudo da literatura brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em Salvador, Bahia, em 2005. A sua memória é mantida viva através da sua obra literária e do seu legado académico, que continuam a ser estudados e apreciados.