Dalton Trevisan

Dalton Trevisan

1925–2024 · viveu 99 anos BR BR

Dalton Trevisan é um escritor brasileiro conhecido por sua obra contista e sua escrita crua e direta. Sua narrativa frequentemente explora a marginalidade urbana, a miséria humana e as complexidades das relações interpessoais, utilizando uma linguagem concisa e um estilo cortante que lhe rendeu o apelido de "Vampiro de Curitiba". Sua obra é marcada pela observação atenta do cotidiano e pela capacidade de desvelar o grotesco e o trágico na simplicidade da vida.

n. 1925-06-14, Curitiba · m. 2024-12-09, Curitiba

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Cantar 2

Oh não amado meu
moça honesta já não sou
e como poderia
se você me corrompeu até os ossos
ao deslizar a mão sob a minha calcinha
acariciou a secreta penugem arrepiada?

como seria honesta
se você me deitou nos teus braços
abriu cada botão da blusa
sussurrando putinha no ouvido esquerdo?

se pousou delicadamente sem pressa
a ponta dos dedos nos meus mamilos
até que ficassem duros altaneiros
apontando em riste só pra você?

maneira não há de ser moça direita
depois de ter as bochechas da nalga
mordidas por teu canino afiado
que gravou em brasa para sempre
com este sinal sou tua

não nenhum resto de pureza
assim que descerrou os meus lábios
dardejando a tua língua poderosa
na minha enroscada em nó cego
minha enroscada em nó cego

como ser mocinha séria
depois de beijar todinho o teu corpo
com medo com gosto com vontade
de joelho descabelada mão posta
à sombra do cedro colosso do Líbano
mil escudos e troféus pendurados

é possível ser moça de família
se me sinto a rosa de Sarom
orvalhada da manhã
com um só toque do teu terceiro quirodáctilo?

Ai precioso amado querido
meu corpo tem memória e febre
meu puto me abrace me beije
sirva-se tire sangue me rasgue inteira
satisfaça a tua e a minha fome
finca o teu pendão estrelado
onde ele deve estar

oh não meu príncipe senhor da guerra
mocinha séria já não sou
me boline devagarinho
no uniforme de gala da normalista
atenção às luvas brancas de renda
me derrube na tua cama
de lado supina de bruços
me desnude diante do espelho
me arrume de pé dentro do armário
me ponha de quatro

me faça de carneirinha viciosa do bruto pastor
me violente sem dó com firmeza
só isso mais nada

sim bem-querido meu
sou putinha feita pra ter servir
me abuse desfrute se refocile

quero sim apanhar de chicotinho
obedecer as ordens safadas
submissa a todos os teus caprichos
taras perversões fantasias
quais são? como são? onde são?

me diga como posso ir à igreja
de véu no rosto Bíblia na mão
se você afastou com dois dedos firmes e doces
o mar vermelho entre as minhas pernas
expondo à vista ao ataque frontal
meu corpinho ansioso e assustado
me estuprou me currou me crucificou?

quando separou os joelhos
abrindo as minhas coxas
um querubim fogoso
de delícias me cobriu
com sua terceira asa de sarça ardente

como ser moça ingênua
se antes sou uma grande vadia
o teu exército com fanfarras desfilando
na minha cidadela arrombada?

ai quero te dar até o que não tenho
amado meu santuário meu
quero ser a tua cadelinha mais gostosa
como nunca terá igual
serei vagabunda eu juro
todas as posições diferentes
todos os gemidos gritos palavrões
todas as preces atendidas

desfaleço de desejo por você só você
montar o teu corpo cândido e rubicundo
é galopar no céu
entre corcéis empinados relinchantes

vem ó princesa minha
depressa vem ó doce putinha
aos gritos fortes do rei que batem à porta
o meu coração se move
salta de um a outro lado do peito
já se derretem as minhas entranhas
o rosto do amor floresce neste copo dágua

eu sou tua você é meu
por você inteirinha me perco
quem fez de mim o que sou
sim amado meu
sou virgem princesa concubina
égua troteadora no carro do Faraó
vento norte água-viva
sou rameira tua rampeira Sulamita

lírio-do-vale pomba branca
morrendinha de tanto bem-querer
até que sejamos um só corpo
um só amor
um só
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Dalton Trevisan é um escritor brasileiro, nascido em Curitiba.

Infância e formação

A infância de Dalton Trevisan foi marcada por dificuldades financeiras e pela doença (tuberculose), que o acompanhou por grande parte da vida. Sua formação foi em grande parte autodidata, alimentada por uma leitura voraz. A precariedade de sua saúde e as condições de vida na periferia de Curitiba influenciaram profundamente sua visão de mundo e sua escrita.

Percurso literário

Dalton Trevisan iniciou sua carreira literária com a publicação de contos em jornais e revistas. Sua obra se desenvolveu de forma consistente, focando no gênero conto, onde adquiriu reconhecimento nacional e internacional. Colaborou em diversas publicações literárias ao longo de sua carreira.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Dalton Trevisan, como "O Vampiro de Curitiba" e "Sargento Getúlio", são conhecidas por seus contos curtos, incisivos e pela exploração de temas como a miséria, a violência, a solidão e a sexualidade. Seu estilo é caracterizado pela concisão, pelo uso de uma linguagem coloquial e pela objetividade narrativa, que muitas vezes beira o minimalismo. A voz poética é frequentemente crua e sem rodeios, expondo as mazelas da condição humana. A denúncia social e a crítica à hipocrisia das relações humanas são constantes em sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Dalton Trevisan surge em um cenário literário brasileiro que buscava novas formas de expressão, em paralelo a movimentos como o Modernismo tardio e a Geração de 60. Sua obra dialoga com a realidade social e política do Brasil, especialmente no que diz respeito às desigualdades e à vida nas periferias urbanas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Dalton Trevisan viveu de forma reclusa em Curitiba, onde era conhecido por seu temperamento reservado e sua dedicação à escrita. Sua saúde frágil foi uma constante em sua vida. Pouco se sabe sobre sua vida pessoal detalhada, pois ele sempre manteve uma postura discreta.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Dalton Trevisan é amplamente reconhecido como um dos maiores contistas da literatura brasileira. Sua obra recebeu diversos prémios literários e é objeto de estudo em universidades no Brasil e no exterior. É um autor respeitado tanto pelo público quanto pela crítica, com um lugar consolidado no cânone literário brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra influenciou gerações de escritores pela sua maestria no conto, pela sua linguagem direta e pela sua capacidade de retratar a realidade de forma nua e crua. Autores como Clarice Lispector e Graciliano Ramos são frequentemente citados como influências em seu universo literário, embora Trevisan tenha desenvolvido um estilo muito próprio e singular. Seu legado reside na consolidação do conto como gênero literário de grande força expressiva no Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Trevisan é frequentemente analisada sob a ótica da marginalidade social, da psicanálise e da crítica existencial. A violência implícita e explícita em seus contos levanta debates sobre a natureza humana e as estruturas sociais que a moldam.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Dalton Trevisan era conhecido por sua timidez e reclusão, o que contribuiu para a aura de mistério em torno de sua figura. Sua dedicação à escrita era quase obsessiva, e ele era conhecido por revisar incansavelmente seus textos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Dalton Trevisan faleceu em Curitiba. Sua memória é celebrada através da contínua leitura e estudo de sua obra, que permanece relevante e impactante.

Poemas

3

Cantar 2

Oh não amado meu
moça honesta já não sou
e como poderia
se você me corrompeu até os ossos
ao deslizar a mão sob a minha calcinha
acariciou a secreta penugem arrepiada?

como seria honesta
se você me deitou nos teus braços
abriu cada botão da blusa
sussurrando putinha no ouvido esquerdo?

se pousou delicadamente sem pressa
a ponta dos dedos nos meus mamilos
até que ficassem duros altaneiros
apontando em riste só pra você?

maneira não há de ser moça direita
depois de ter as bochechas da nalga
mordidas por teu canino afiado
que gravou em brasa para sempre
com este sinal sou tua

não nenhum resto de pureza
assim que descerrou os meus lábios
dardejando a tua língua poderosa
na minha enroscada em nó cego
minha enroscada em nó cego

como ser mocinha séria
depois de beijar todinho o teu corpo
com medo com gosto com vontade
de joelho descabelada mão posta
à sombra do cedro colosso do Líbano
mil escudos e troféus pendurados

é possível ser moça de família
se me sinto a rosa de Sarom
orvalhada da manhã
com um só toque do teu terceiro quirodáctilo?

Ai precioso amado querido
meu corpo tem memória e febre
meu puto me abrace me beije
sirva-se tire sangue me rasgue inteira
satisfaça a tua e a minha fome
finca o teu pendão estrelado
onde ele deve estar

oh não meu príncipe senhor da guerra
mocinha séria já não sou
me boline devagarinho
no uniforme de gala da normalista
atenção às luvas brancas de renda
me derrube na tua cama
de lado supina de bruços
me desnude diante do espelho
me arrume de pé dentro do armário
me ponha de quatro

me faça de carneirinha viciosa do bruto pastor
me violente sem dó com firmeza
só isso mais nada

sim bem-querido meu
sou putinha feita pra ter servir
me abuse desfrute se refocile

quero sim apanhar de chicotinho
obedecer as ordens safadas
submissa a todos os teus caprichos
taras perversões fantasias
quais são? como são? onde são?

me diga como posso ir à igreja
de véu no rosto Bíblia na mão
se você afastou com dois dedos firmes e doces
o mar vermelho entre as minhas pernas
expondo à vista ao ataque frontal
meu corpinho ansioso e assustado
me estuprou me currou me crucificou?

quando separou os joelhos
abrindo as minhas coxas
um querubim fogoso
de delícias me cobriu
com sua terceira asa de sarça ardente

como ser moça ingênua
se antes sou uma grande vadia
o teu exército com fanfarras desfilando
na minha cidadela arrombada?

ai quero te dar até o que não tenho
amado meu santuário meu
quero ser a tua cadelinha mais gostosa
como nunca terá igual
serei vagabunda eu juro
todas as posições diferentes
todos os gemidos gritos palavrões
todas as preces atendidas

desfaleço de desejo por você só você
montar o teu corpo cândido e rubicundo
é galopar no céu
entre corcéis empinados relinchantes

vem ó princesa minha
depressa vem ó doce putinha
aos gritos fortes do rei que batem à porta
o meu coração se move
salta de um a outro lado do peito
já se derretem as minhas entranhas
o rosto do amor floresce neste copo dágua

eu sou tua você é meu
por você inteirinha me perco
quem fez de mim o que sou
sim amado meu
sou virgem princesa concubina
égua troteadora no carro do Faraó
vento norte água-viva
sou rameira tua rampeira Sulamita

lírio-do-vale pomba branca
morrendinha de tanto bem-querer
até que sejamos um só corpo
um só amor
um só
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Minha vida meu amor

Olha minha vida meu amor
Há muito não és mais meu
Toda a loucura que fiz
Foi por você
Que nunca me deu valor
Por isso perdeu tua mulher
E teus filhos
Não posso com esta cruz
Acho muito pesada João
Você vem me desgostando
A ponto de me por no hospício
Uma vez conseguiu
Mas duas não
Aqui ô babaca
De tuas negras
Que nem os filhos se interessou
De batizar na igreja
Você só vai no bar do Luís
Outro boteco não achou
Mais perto da tua família
Só me operei que você obrigou
Agora não presto
Já não sirvo na cama?
Quis fazer de mim
A última mulher da rua
Mas não deixei
Por tua causa amor
Eu morro pelada
Abraçada com os dois anjinhos
No fundo do poço
Amor desculpe algum erro
E a falta de vírgula
1 226

Cantar 1

Se você não me agarrar todinha
aqui agora mesmo
só me resta morrer

se não abrir minha blusa
violento e carinhoso
me sugar o biquinho dos seios
por certo hei de morrer

estou certa perdidamente certa
se não me der uns bofetões estalados
não morder meus lábios
não me xingar de puta
já hei de morrer

bata morda xingue por favor
morrerei querido morrerei
se você não deslizar a mão direita
sob a minha calcinha
murmurando gentilmente palavras porcas

sem dúvida hei de morrer
também certa a minha morte
se você não acariciar o meu púbis de Vênus
com o terceiro quirodáctilo
já caio morta de costas
defuntinha
toda morta de morte matada

morrerei gemendo chorando se você titilar
a pérola na concha bivalve
morrerei na fogueira aos gritos
se não o fizer

amado meu escuta
se você não me ninar com cafuné
me fungar no cangote
mordiscar as bochechas da nalga
me lamber o mindinho do pé esquerdo
juro que hei de morrer
certo é o meu fim

te peço te suplico
meu macho meu rei meu cafetão
eu faço tudo o que você mandar
até o que a putinha de rua tem vergonha

eu fico toda nua
de joelho descabelada na tua cama
eu fico bem rampeira
ao gazeio da tua flauta de mel

eu fico toda louca
aos golpes certeiros do teu ferrão de fogo
ereto duro mortal

oh meu santinho meu puto meu bem-querido
se você não me estuprar
agora agorinha mesmo
sem falta hei de morrer

se não me currar
em todas as posições indecentes
desde o cabelo até a unha do pé
taradão como só você
é certo que faleci me finei
todinha morta

se não me crucificar
entre beijos orgasmos tabefes
só me cabe morrer
minha morte é fatal
de sete mortes morrida
morrinha de amor é Sulamita
1 199

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