Lista de Poemas

Camarada Drácula junta-se à Revolução: uma união de mentes

Para ter o que fazer, vamos andar para sempre neste
Círculo chamado casamento (para sempre presume
Nem fim nem começo). Foi-se a lengalenga dos votos.
Lembre-se que deus permite-se a liberdade de ser o centro
De um círculo cuja circunferência está em toda parte (Que
Cinismo!) Com cuidado e sorte nós também podemos ser
Sua imagem. O amor e a História são bestas. Dessarte
deixe suas atrações pastarem
Livres – Nem chego a ter tais planos com humanos.
Você há por gula de vadiar nesse mundo
Enquanto eu e mortos cujas covas são meus prostíbulos
Lufrificaremos da paixão as juntas duras. Não se alarme:
Já que eles dizem THE FIGHT GOES ON até do além
das covas abarrotadas.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Comrade Dracula joins the Revolution: a wedding of minds
Dambudzo Marechera
For something to do let’s forever walk this
Circle they call marriage (forever presumes neither
Beginning nor end) The rigmarole of vows is over.
Remember god allows himself the freedom to be the
centre
Of a circle whose circumference is everywhere (What
Cynicism!) With caution & luck we too can be the image
Of him. Love like history is bunk. Hence let your
attractions range
Free – I have no such intentions with humans at least.
You in this world will dally to surfeit
While I with the dead whose tombs are my brothels
Will oil passion’s stiff joints. Do not be alarmed:
As they say A LUTA CONTINUA even beyond the
serried graves.
598

Costumava gostar de tomates

Eu me canso do sangue
E da tosse
e mais sangue
Saio bem rápido daquele apê
para algum bar fresco de arruaceiros
e banco o macho com camaradas mais machos
lavando o sangue goela abaixo com Caninha 51
apertando mãos sobre Tsitsi que foi aos ares aos céus
tentando esquecer que não gosto de cozinhar nas panelas
dos mortos
Não gosto de vestir e ficar com cara de idiota metido
em calças e camisas dos mortos
(Eles disseram aí tua mãe e mano passaram aí
disseram que esta é tua herança)
Dali a pouco duro feito pandeiro nem beber consigo
De volta pro apê estirado de costas
engolindo tudo vermelho goela abaixo de volta
Acordei cansado demais pra estourar bolha tão rubra

:

I used to like tomatoes

I get tired of the blood
And the coughing
and more blood
I get out of that flat real fast
to some cool quarrelling bar
and talk big to bigger comrades
washing down the blood with Castle an’ Label
shaking hands about Tsitsi bombed to heaven
trying to forget I don’t like cooking in dead people’s
pots and pans
I don’t like wearing and looking smart-arse in dead
people’s shirts an’ pants
(They said yoh mama an’ bra been for you
said these are your inheritance)
I’m soon tight as a drum can’t drink no more
It’s back at the flat on my back
swallowing it all red back hard down
I woke up too tired to break out so bright red a bubble.

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Você perguntou o que há de errado com a guerra?

Não há palavras erradas, certo?
Não há árvores erradas, certo?
Não há areia errada, certo?
Eu dormi o mundo de cuecas livres
Sonhei que trepava com todos os menininhos
que são futuros líderes
Fodi todas as menininhas engraçadas feitas
de palha e algodão
Meu rabo anarquista cagou na sociedade
E OLHEM como milhões de moscas
ora voam rumo a seus lábios arreganhados.


* Nota do tradutor: não consegui encontrar referências para a palavra "ghandy". Pensei na possibilidade de ser uma referência ao tecido indiano khadi, e optei pela tradução como "algodão". Sugestões são bem-vindas.

:

Did you ask what´s wrong with war?

There are no wrong words, right?
There are no wrong trees, right?
There is no wrong sand, right?
I’ve slept the world in freely
underwear
Dreamed I buggered all the little boys
who are future leaders
Fucked all the funny little girls made of
thatch and ghandy
My anarchist arse has shat on society
And LOOK millions of open flies
are homing in on your wide-open lips.

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Há um dissidente na sopa eleitoral!

Não tenho ouvidos para slogans
É melhor que você cale a matraca
Eu corro quando é hora do EU TE AMO
Não venha com essa Eu vou ficar dessa vez
Eu corro quando é hora de THE FIGHT
Eu corro quando é hora do AVANTE
Não venha com essa Vamos trepar toda a noite
A lua não vai baixar
Primeiro desajeitada, lancinante de constrangedora
Mas com Vênus ascendendo, grito e pulo de alegria

Quando os lençóis estão finalmente em silêncio
Não pergunte "O que você está pensando?"
Não pergunte "Foi gostoso?"
Não se sinta mal porque estou fumando
Os inseguros é que perguntam e se sentem mal
Que dizem depois do ato "Me conte uma história"
E você já deve saber bem
Não fale em "CASAMENTO" se quiser que essa reconciliação
Venha a durar

:

There ´s a dissident in the election soup!

I have no ear for slogans
You may as well shut up your arse
I run when it"s I LOVE YOU time
Don"t say it I"ll stick around
I run when it"s A LUTA time
I run when it"s FORWARD time
Don"t say it we"ll fuck the whole night
The moon won"t come down
At first awkwardly, excruciatingly embarrassing
But with Venus ascending, a shout and leap of joy

When the sheets are at last silent
Don"t ask "What are you thinking?"
Don"t ask "Was it good?"
Don"t feel bad because I"m smoking
They ask and feel bad who are insecure
Who say after the act "Tell me a story"
And you may as well know
Don"t talk of "MARRIAGE" if this reconciliation
is to last.


Quem usou minha mochila nova!?

Tive esse pesadelo
Pegava meu irmão estourava seu cérebro
Ao acordar encontrava atrasado o aluguel

Tive esse sonho
Pegava minha irmã pruma foda
Ao acordar lá estavam os B.O.´s

Tentei dar um jeito na noite de sol
Ladrão cafetão tudo só na lábia
Ao voltar a PM já metia o pé na porta do barraco

E eu que achei que até um filho-da-puta
Diziam que tinha FAMÍLIA
Suas desculpas esfarrapadas me devolveram
Aos chutes noite adentro.

Agora não há o que fazer só não pensar
Sim não pensar é o único tabu
Mochila de Pandora dentro do anarquista
E sua mentícula

:

Who´s used my new rucksack!?

Had this nightmare
Bashed out my brother"s brains
Woke to find I owed rent

Had this dream
Fucking my sister
Woke to find final demands

Tried to sort out the sunlit night
Thieving pimping talk it outright
Got back bailiffs were breaking down the door

And I thought even a son-of-a-bitch"s
Supposed to have FAMILY
Their scraps of excuses kicked me back
Into the night

Now there"s nothing but not to think
Yes not-to-think is the only taboo
The Pandora"s rucksack inside the anarchist"s
Tiny mind
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Identificação e contexto básico

Dambudzo Marechera, nascido Charles Lovemore Chikowero, foi um escritor zimbabuano, conhecido principalmente pela sua poesia e ficção. Viveu numa época de grandes turbulências políticas e sociais na Rodésia do Sul (atual Zimbabué) e posteriormente na África do Sul e Inglaterra. A sua obra é escrita em inglês.

Infância e formação

Marechera nasceu em Rhodesville, Salisbury (atual Harare), Rodésia do Sul. A sua infância foi marcada pela violência racial e pelas tensões do regime colonial. Frequentou a St. Ignatius College, onde começou a desenvolver o seu interesse pela escrita. Mais tarde, estudou na Universidade de Salisbury, mas foi expulso devido ao seu comportamento rebelde e envolvimento em protestos contra o racismo institucional. Após a sua expulsão, viveu em condições precárias, o que influenciou significativamente a sua visão de mundo e a sua escrita.

Percurso literário

O percurso literário de Marechera começou com a publicação de poemas e contos em revistas académicas e literárias. Ganhou reconhecimento internacional com a publicação da sua primeira obra, "The House of Hunger", em 1978, um livro que combina contos e um romance curto e que lhe valeu o prestigiado Guardian Fiction Prize. Esta obra consolidou a sua reputação como um escritor inovador e controverso. Mais tarde, publicou "Black Sunlight" (1980) e "The Coming of the Dry Season" (1980). A sua obra póstuma inclui coleções de poemas e contos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Marechera é caracterizada por uma linguagem poderosa, experimental e frequentemente lírica, que desafia as convenções literárias. Os seus temas centrais incluem a alienação, o colonialismo, a identidade cultural, a pobreza, a violência e a busca por significado num mundo caótico. O estilo de Marechera é frequentemente descrito como surrealista, com elementos de realismo mágico e uma forte influência do existencialismo. Ele emprega metáforas vívidas, ritmo intenso e uma voz poética que reflete a sua angústia pessoal e a sua crítica social. As suas obras exploram a condição humana num contexto pós-colonial, questionando as estruturas de poder e a busca por autenticidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Marechera escreveu durante e após o período da Guerra da Independência do Zimbabué. A sua obra reflete as complexidades e os traumas de uma sociedade em transição do colonialismo para a independência, abordando o impacto psicológico e social desta mudança. Ele era um crítico vocal do regime e das suas consequências. A sua obra dialogou com outros escritores africanos da diáspora e do continente, mas manteve uma voz distintamente individual e desafiadora.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Marechera foi marcada por instabilidade, pobreza e luta contra o alcoolismo. Após a publicação de "The House of Hunger", viveu em Londres, onde enfrentou dificuldades para se adaptar e encontrar apoio. A sua personalidade era frequentemente descrita como intensa, rebelde e carismática, mas também atormentada. As suas experiências pessoais de marginalização e sofrimento permearam a sua escrita, conferindo-lhe uma autenticidade crua.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção "The House of Hunger" recebeu aclamação internacional e o Guardian Fiction Prize, catapultando Marechera para a fama literária. No entanto, a sua reputação foi complexa, dividida entre o reconhecimento do seu génio literário e a controvérsia em torno do seu estilo de vida e da intensidade da sua obra. Embora a sua carreira tenha sido curta, o seu legado como um dos mais importantes escritores zimbabueanos é inegável.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Marechera foi influenciado por autores como Frantz Fanon, Aimé Césaire e Oswald Mtshali. A sua escrita, por sua vez, influenciou gerações de escritores africanos, especialmente aqueles que exploram as consequências do colonialismo e a complexidade da identidade pós-colonial. Ele é considerado um pioneiro na literatura zimbabuana e africana, abrindo caminho para novas formas de expressão literária.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Marechera é frequentemente analisada sob a ótica do trauma pós-colonial, da alienação existencial e da crítica social. A sua abordagem fragmentada e surrealista da realidade tem sido objeto de extensos estudos críticos, que destacam a sua capacidade de capturar a desordem psíquica e social de um país em transformação. A dualidade entre o seu brilhantismo literário e as suas lutas pessoais continua a ser um ponto central de debate.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Marechera era conhecido por fazer leituras públicas das suas obras de forma imprevisível e enérgica, por vezes confrontando o público. Ele acreditava na poesia como uma força de libertação e transformação. As suas anotações e cadernos revelam um processo criativo intenso e uma profunda reflexão sobre a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Dambudzo Marechera morreu de pneumonia em 1987, aos 35 anos, no Hospital Parirenyatwa, em Salisbury. A sua morte prematura foi uma grande perda para a literatura africana. Publicações póstumas continuaram a revelar a profundidade e a amplitude do seu talento, solidificando a sua memória como um dos mais originais e impactantes escritores do Zimbabué.