Dora Ferreira da Silva

Dora Ferreira da Silva

1918–2006 · viveu 87 anos BR BR

Dora Ferreira da Silva foi uma poetisa brasileira, conhecida por sua obra lírica e reflexiva. Sua poesia explora temas como o amor, a efemeridade do tempo e a busca por sentido, frequentemente permeada por uma melancolia suave e uma profunda sensibilidade. Com uma linguagem refinada e um estilo marcado pela musicalidade e pela precisão vocabular, a autora deixou um legado de poemas que continuam a tocar pela sua autenticidade e profundidade emocional. Sua contribuição para a poesia brasileira é reconhecida pela originalidade e pela força de sua expressão lírica.

n. 1918-07-01, Conchas · m. 2006-04-06, São Paulo

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Elegia dos Golfinhos

Viu (porque só ver podia)
sem interferir: eles feriam
o cardume denso dos golfinhos, armadura azulada
protegendo atuns. Eram estes o alvo cobiçado
para as latarias de consumo. Tudo servia
aos velhacos: matemática, um navio branco
— noivo da Morte —, redes atiradas
em círculo perfeito e nefasto perto do cardume.
Tiros ecoavam no ar, encapelando
a ordem bela dos golfinhos no caos turbilhonante.
Aprisionados, eles se contorciam em desespero.

Lamentem-se os coros sagrados de Netuno
acorram Nereidas, Anfitrite em lágrimas com
seus cavalos marinhos em torno das malévolas mandalas
de redes sobre o mar. Ó Nova Idade, não vês tantas
formas desfeitas, não vês que o rei Midas
tudo transforma agora no ouro do negócio?
Os golfinhos tranqüilos começam a morder.
Ah, cascata iridiscente no limiar da morte
em dança fúnebre! É o anti-Cristo no coração dos homens,
o usurpador, o peixe voltado para a esquerda, involutivo.

Mercância vil contaminando cabeças
e corações! Vociferem as pitonisas
de cabelos soltos, pálpebras emaciadas!
São os golfinhos os novos educadores
com sua graça natural, com sua dança
que a morte não detém. Eles propõem música.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Dora Ferreira da Silva foi uma poeta brasileira, cujo nome completo era Dora Ferreira da Silva. O contexto histórico em que viveu foi marcado por significativas transformações sociais e culturais no Brasil, especialmente durante a segunda metade do século XX.

Infância e formação

As informações detalhadas sobre a infância e a formação de Dora Ferreira da Silva são escassas na documentação pública disponível. No entanto, é presumível que sua educação tenha sido influenciada pelo ambiente cultural e literário do Brasil em sua época, absorvendo leituras que moldaram sua sensibilidade.

Percurso literário

O percurso literário de Dora Ferreira da Silva é marcado por uma produção poética consistente, embora menos divulgada que a de alguns contemporâneos. Sua obra se insere em um contexto de busca por expressão lírica e introspectiva.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Dora Ferreira da Silva é caracterizada por um lirismo profundo e reflexivo. Seus poemas frequentemente abordam temas como o amor, a solidão, a passagem do tempo e a espiritualidade, com uma abordagem introspectiva e delicada. A forma poética utilizada varia, mas há uma inclinação para a musicalidade e a densidade imagética. Sua linguagem é cuidada, buscando a precisão vocabular e a expressividade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Dora Ferreira da Silva viveu em um período de efervescência cultural no Brasil, com o Modernismo consolidado e o surgimento de novas tendências literárias. Sua obra dialoga com a poesia brasileira de sua época, mas mantém uma voz própria, focada na exploração do eu lírico e das questões existenciais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Dora Ferreira da Silva, como relações afetivas, crenças ou envolvimento cívico, não são amplamente documentados em fontes públicas, o que dificulta uma análise aprofundada deste aspeto.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Dora Ferreira da Silva na crítica literária e no meio acadêmico, embora não tão proeminente quanto o de outros poetas de sua geração, tem crescido com o tempo. Sua obra é valorizada pela sua qualidade estética e pela profundidade temática, sendo redescoberta por novos leitores e pesquisadores.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado É provável que Dora Ferreira da Silva tenha sido influenciada por poetas líricos anteriores e contemporâneos. Seu legado reside na sua contribuição para a poesia brasileira através de uma voz autêntica e de uma sensibilidade apurada, que continua a ressoar em quem a lê.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Dora Ferreira da Silva convida a uma imersão no universo interior do eu lírico, explorando os paradoxos da existência humana. Suas reflexões sobre o amor e a mortalidade oferecem material para análise crítica sobre a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por ser uma figura cuja vida privada é menos documentada, muitos aspetos curiosos ou menos conhecidos sobre Dora Ferreira da Silva permanecem no domínio do pessoal ou do anedótico, inacessíveis à pesquisa pública.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória As circunstâncias exatas da morte de Dora Ferreira da Silva e a existência de publicações póstumas necessitam de verificação em fontes mais específicas. Sua memória é mantida viva através da sua obra poética.

Poemas

13

Elegia dos Golfinhos

Viu (porque só ver podia)
sem interferir: eles feriam
o cardume denso dos golfinhos, armadura azulada
protegendo atuns. Eram estes o alvo cobiçado
para as latarias de consumo. Tudo servia
aos velhacos: matemática, um navio branco
— noivo da Morte —, redes atiradas
em círculo perfeito e nefasto perto do cardume.
Tiros ecoavam no ar, encapelando
a ordem bela dos golfinhos no caos turbilhonante.
Aprisionados, eles se contorciam em desespero.

Lamentem-se os coros sagrados de Netuno
acorram Nereidas, Anfitrite em lágrimas com
seus cavalos marinhos em torno das malévolas mandalas
de redes sobre o mar. Ó Nova Idade, não vês tantas
formas desfeitas, não vês que o rei Midas
tudo transforma agora no ouro do negócio?
Os golfinhos tranqüilos começam a morder.
Ah, cascata iridiscente no limiar da morte
em dança fúnebre! É o anti-Cristo no coração dos homens,
o usurpador, o peixe voltado para a esquerda, involutivo.

Mercância vil contaminando cabeças
e corações! Vociferem as pitonisas
de cabelos soltos, pálpebras emaciadas!
São os golfinhos os novos educadores
com sua graça natural, com sua dança
que a morte não detém. Eles propõem música.

1 791

Agora

Agora que no vagar dos pensamentos
chamo-te - pai - da estação da infancia
como se pudesses voltar no rápido só para me embalar,
fecho os olhos dentro de tuas pálpebras.
És minha invenção de amor. Olhos melancólicos
os teus. Eu contigo em degredo.

Difícil tocar a face desse segredo cada vez mais longe
e partir e também ficar, embora encontrada a chave
[da porta mais secreta.
Se eu pudesse dizer: seja a paisagem de seda azul
e o último sol fortíssimo do ocaso
- eu liberta enfim de tuas pupilas.
Um rio passaria desenhado pela mão mais fina. Passa uma
[pluma apenas uma
no rio acordado.

1 555

Murmúrios

Pousa num ramo um sopro de agonia
dos que morrem (sem saber)
em nosso coração.
Suspira a noite no vento vadio.
Amados mortos: tentais dizer
o quanto amais ainda?

1 812

Utopia

Deus é dia - noite
inverno - verão
guerra - paz
penúria - saciedade:
era este o credo da Montanha
Dormindo velávamos.

Quantas vezes a ti voltei
regaço
e a ti voltarei
horizonte da meta?
Não do preciso ou impreciso desejo
mas doar pleno
sendo Deus oferenda e altar.
Quem desperta do gesto litúrgico
de si mesmo feito
sente o peito pulsar
silêncio
e dança.

1 658

Alguém

Alguém desfecha a flecha do vôo:
reflexo no vidro onde a chuva
penteia os cabelos.
Cantiva de muitas lágrimas
dos suspiros do vento
nesta casa pousada na montanha
aguardo criança flor anjo ou passaro.
Pensamentos alígeros - andorinhas
nos aguaceiros de verão
traçam oblíquas, desaparecem
no céu que escurece.
Abraçada à minha alma
não sinto o tempo latejar por perto.
O incerto longe é a minha vocação.
O longe do longe onde talvez
estás sempre em despedida
do invólucro que não te retém. E eu
sempre atrás do aceno teu
do aroma que te esquece e se esvai.
Se um lenço de fino linho
se desprendesse de teus dedos (sonho meu)
o caçaria como a um pássaro
que longe vivia
e me pertencia.

1 458

Boneca

A boneca de feltro
parece assustada com o próximo milênio.
Quem a aninhará nos braços
com seus olhos de medo e retrós?

O signo da boneca é frágil
mais frágil que o de pássaro.
Confia. Assim passiva
o vento brincará contigo
franzirá teu avental
dirá coisas que entendes
desde a aurora das coisas:
foste um caroço de manga
uma forma de nuvem
ou um galho com braços
de ameixeira no quintal.

Não temas. Solta o
corpo de feltro. Assim.
Para ser embalada nos braços
da menina que houver.

2 018

Mulher e Pássaro

Linha invisível
liga-me àquela andorinha:
tato percorrendo
um trajeto
de comunhão. O pássaro
debate-se em meu peito.
Ou coração? A andorinha
se esvai na tarde. Leva consigo
o que não sei de mim.

2 166

Habitas meu coração:

Habitas meu coração: barbas de rei assírio
olhar de extensões alheias
a tempo e medida.
Tua voz tem asas de falcão e pousa
nas torres mais altas do meu ser
onde jamais me aventurei. É minha a tua solidão.
Sirvo-te em silêncio e às vezes
como a uma criança me apertas em teu peito:
acaricio então tua face estranho rei.
Outras vezes ouço passos ecoando
no enlace das colunas em seteiras escadas. Se grito
teu nome - és mil ressonâncias e seu eco em mim.

1 663

Valsas de Esquina de Mignone

Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.

Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.

1 525

Rude-suave amigo

Henry Miller planando no espaço em rudes soluços:
"Sofro como um animal. Sou como um animal. Ninguém pode ajudar-me,
que a força é questão de ritmo. Quem não precisa
ser socorrido alguma vez? Mas é preciso humanamente
aproximar-se dos outros. "Mas tu - Henry - pareces incapaz
de ficar próximo de alguém". O mesmo diálogo se repete
entre eles em outras latitudes, tempos diferentes.
Trabalham juntos à beira da loucura, odiados e louvados
em dias consecutivos por sucessivas pessoas ou pelas mesmas.
Gêmeos divinos que a insanidade transforma em pactuários.
Sempre ficam à margem ou no centro instável de uma
compreensão equivocada. Entre céu e terra os ecos
inumeráveis desse diálogo. Comunhão e dist6ancia - coisas tão diversas!
Próximos apenas da solidão comungam na missa
de todos os dias e de todos os santos.

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