Lista de Poemas

LÁGRIMAS

As minhas lágrimas eram o esplendor de Orionte com sêxtuplos sóis e o milhão
De flores nas campinas do céu, onde os sistemas solares se põem -
As rochas de imenso diamante a meio da clara vaga
Pelo orvalho de Maio e a matutina luz erguida, mais diamantes gerando,
Eu chorava pelas glórias do ar, pelos milhões de auroras
E os esplendores no coração do Homem com treva lutando,
Chorava pelas belas rainhas do mundo, como um canteiro de flores brilhando,
Agora colhidas, às seis, às sete, mas todas as manhãs da Eternidade.
Mas agora as lágrimas refluem e como horas tombam:
Choro por Vénus cujo corpo se mudou em cidade metafísica,
Cujo pulsar do coração é ora o som das revoluções - pelo amor mudado
Em caridade de hospital, em esperança dos sábios no futuro,
E pelo Homem ensombrado, essa complexa multiplicidade
De ar e de água, planta e animal,
Diamante duro, infinito sol.

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TU, JOVEM ARCO-ÍRIS

Tu, jovem Arco-Íris de minhas lágrimas, Alcião gentil
Por sobre as torvas águas do meu seio:
Conduz-me como outrora a minha dor, teu gado, pelas côncavas
Encostas aos distantes pastos do perdido céu.
Mas ai, murcharam já os prados e o horizonte
Do gentil Alcião, sol de jacinto;
Frios são os ramos, as constelações caindo
Dos galhos primaveris, e o teu coração está longe
E frio como Arcturo, a distâncias de todos os anos de luz
Da terra florescente e da treva em meu peito.

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GREEN FLOWS THE RIVER OF LETHE - O

Verde flui o rio Lete - Oh
O longo rio Lete
Lá onde o fogo era nas veias - erva cresce
Sobre a febre -
Erva verde crescendo...

Perto eu estava das Cidades da Planície;
E as meninas perseguiam seus corações como as alegres borboletas
Pelos campos do Estio -
Oh veludo evanescente batendo as vossas asas
Como veludo e borboletas no Caminho de Nada a Parte Alguma!

Mas na sede estival
Fugi, porque eu era um Pilar de Fogo, eu era Destruição
Insaciável, encarnada e cor de carne.

Eu era Aniquilamento;
Alva, porém, como o mar Morto, alva como as Cidades da Planície.
Porque eu escutava o meio-dia e minhas veias
Que ameaçavam trovões, e o coração das rosas.

Segui o meu caminho -
Mas longa é a terrífica Rua do Sangue
Que parecera outrora apenas parte do vermelho Estio:
Desdobra-se para sempre e não há desvio,
Mas só fogo, aniquilamento, ardência.

Pensei que o caminho do Sangue nunca se cansava.
Mas agora só o trevo flamante
Pousa no bafejar do leão e na boca do amante -

E verde flui o rio Lete - Oh
O longo rio Lete
Sobre Gomorra e o fogo...

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CÂNTICO DE DIDO

O meu Sol da Morte é ao invés para as profundas
O que o Grande Sol Celeste é para as alturas
Em calor violento
Quando Sirius se vem deitar aos pés do Sol.
O meu Sol da Morte é só profundidade, o sol celeste
Altura só, e os ares do mundo inteiro jazem entre
Esses sóis
Agora apenas o Cão se senta ao pé do meu esquife
Em que jazo ardendo por meu coração. Os cinco cães dos sentidos
Já não mais caçam.
Após a conflagração do Estio
Da juventude, e seus violentos sóis,
As minhas veias da vida, que tão altas iam que os rios portentosos
de África e de Ásia só regatos pareciam,
Secaram, e o Tempo qual fogo
Aos ossos mudou em nódulos de rubis como os horizontes da luz;

Para lá dos Verões está a peónia em botão
Nas veias, e os grandes péans do sangue
O empório da rosa!
E todavia julguei meu leito de amor meu esquife o mais alto
Sol dos céus, a altura aonde Sirius arde,
E julguei-o depois Sol da Morte, e que nada havia de fundo
Abaixo... Mas agora sei
Que mesmo os cães de caça no coração e nos céus
Acabam por dormir.

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Identificação e contexto básico

Edith Louisa Sitwell foi uma poeta, ensaísta, crítica e dramaturga inglesa. Nasceu numa família aristocrática, sendo a filha mais velha de Sir George Reresby Sitwell, 4º Baronete, e Lady Ida Emily Augusta, filha do 3º Conde de Castlestewart. Foi conhecida pela sua personalidade vibrante e pelo seu estilo visualmente impressionante e excêntrico, que muitas vezes desafiava as convenções sociais e literárias da sua época.

Infância e formação

Sitwell teve uma infância marcada por uma educação privilegiada, mas também por relações familiares complexas e por problemas de visão que a acompanharam desde cedo. A sua formação foi uma mistura de educação formal e autodidatismo, com grande ênfase na leitura e nas artes. Foi influenciada pela poesia de autores como John Donne e Gerard Manley Hopkins, e pelo movimento simbolista francês.

Percurso literário

O seu percurso literário começou a ganhar destaque nos anos 1910. Publicou o seu primeiro livro de poesia, "The Mother of God", em 1915. Ao longo das décadas seguintes, tornou-se uma figura central na cena literária britânica, especialmente associada ao Modernismo. Colaborou ativamente com revistas literárias e foi uma voz ativa na crítica, defendendo poetas emergentes e promovendo novas formas de expressão poética.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Sitwell é caracterizada por uma forte musicalidade, imagens vívidas e, por vezes, bizarras, e uma exploração de temas como a beleza, a decadência, a religião, a natureza e a condição humana. Utilizou uma variedade de formas poéticas, incluindo o verso livre e formas mais tradicionais, demonstrando uma mestria notável na linguagem. O seu estilo é frequentemente descrito como sensorial e expressivo, com uma predileção por cores, sons e texturas. As suas coleções incluem "Façades" (1923), "Gold Coast Customs" (1929) e "Collected Poems" (1957).

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sitwell viveu e trabalhou num período de grandes transformações sociais e culturais na Grã-Bretanha, incluindo as duas Guerras Mundiais, o declínio do Império Britânico e a ascensão de novos movimentos artísticos. Foi contemporânea de figuras como T.S. Eliot, W.B. Yeats e Virginia Woolf, e o seu trabalho reflete, de alguma forma, as ansiedades e as inovações do Modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A sua vida pessoal foi marcada pelas suas relações complexas com os irmãos, os também escritores Osbert e Sacheverell Sitwell, e pela sua forte individualidade. Teve uma série de relações amorosas, mas nunca casou. Foi uma figura conhecida pela sua excentricidade, que incluía o uso de roupas extravagantes e um comportamento teatral.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Sitwell alcançou um reconhecimento considerável durante a sua vida, tanto no Reino Unido como internacionalmente. Recebeu vários prémios literários e foi celebrada pela sua contribuição para a poesia inglesa. No entanto, a sua obra também foi alvo de críticas, com alguns a considerarem o seu estilo demasiado ornamentado ou esotérico.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sitwell influenciou uma geração de poetas com a sua abordagem inovadora à linguagem e à imagem poética. O seu legado reside na sua capacidade de criar um universo poético único, que desafiou as expectativas e expandiu os limites da expressão lírica.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Sitwell tem sido interpretada de diversas formas, desde leituras que enfatizam a sua exploração da beleza e da espiritualidade, a outras que focam na sua crítica social implícita e na sua exploração da identidade e da alienação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sitwell era conhecida por usar um tipo de óculos com lentes espessas e por ter um fascínio por objetos exóticos e raros. A sua forte personalidade e o seu estilo de vida pouco convencional contribuíram para a sua imagem de figura pública enigmática e fascinante.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Edith Sitwell faleceu em 1964. A sua obra continua a ser estudada e apreciada, mantendo o seu lugar como uma das vozes poéticas mais distintivas do século XX.