Eduardo Valente da Fonseca

Eduardo Valente da Fonseca

1928–2003 · viveu 75 anos PT PT

No ano de 1928, nasceu na cidade de Aveiro Eduardo Valente da Fonseca que se viria a distinguir como o jornalista que “fintou” a censura ao publicar horóscopos com críticas ao regime do Estado Novo. Como escritor, Eduardo Valente da Fonseca (Aveiro – 1928 / 2003) colaborou nos suplementos literários de diversos jornais e revistas, nomeadamente “O Comércio do Porto”, “Jornal de Notícias”, “Vértice” e “Jornal de Letras”.

n. 1928-01-01, Aveiro · m. 2003-01-01, Coimbra

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Ter razão às quintas-feiras

Se vossas excelências não se importam
excelentíssimas entidades superiores
eu hoje
que é quinta-feira
gostava de ter razão.
Sei perfeitamente que morrerei um dia
e que só na minha rua o vão saber.
Por isso se vossas excelências realmente não se importam
eu hoje, que é quinta-feira
precisava muito de ter razão.
De sete dias na semana pedir um para viver
não é muito, convenhamos.
A não ser.....
Ah! É verdade, a não ser ....

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Biografia

Depois de uma fase inicial de colaboração com os jornais da cidade do Porto, com destaque para “O Comércio do Porto” e para o “Jornal de Notícias”, Eduardo Valente da Fonseca rumou a Lisboa. Na capital, foi jornalista e repórter do jornal “Republica”, para o qual entrou no ano de 1965 e onde se manteve até ao seu encerramento, ocorrido em 1976, após um conflito entre socialistas e comunistas pelo domínio do jornal no período que se seguiu à revolução de 25 de Abril de 1974.

Foi precisamente no “República” que Eduardo Valente da Fonseca criou, no ano de 1973, a rúbrica “Horóscopos de Delfos”, com a qual conseguiu “fintar” a censura, publicando críticas contundentes ao regime do Estado Novo.

Nesse período final do antigo regime eram muito poucos os textos que não tinham de receber o visto prévio da censura. Nesse nicho incluíam-se os signos, o tempo, as palavras cruzadas e os textos do então presidente da República, Américo Thomás.

Tal como outros jornalistas, então conotados com a oposição, também Eduardo Valente da Fonseca tentou encontrar uma forma de contornar o “lápis azul” da censura, descobrindo que poderia publicar crítica política e social numa rúbrica de astrologia, inserida no suplemento dominical do jornal. E assim surgiram os “Horóscopos de Delfos” que conseguiram enganar a censura até poucas semanas antes do 25 de Abril de 1974.

O autor da rubrica “Horóscopos de Delfos” teve o apoio de Raúl Rego, que então dirigia o “República”, e de outros jornalistas e colaboradores do jornal, entre os quais, José Magalhães Godinho, Álvaro Guerra, Álvaro Belo Marques, Victor Direito, Mário Mesquita, Jaime Gama, Afonso Praça, Fernando Cascais, Fernando Assis Pacheco, Figueiredo Filipe, Carlos Albino, José Alcambar, Miguel Serrano, José Manuel Barroso, Antónia de Sousa, Helena Marques, Gonçalves André, Pedro Foyos, entre outros.

Poemas

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Ter razão às quintas-feiras

Se vossas excelências não se importam
excelentíssimas entidades superiores
eu hoje
que é quinta-feira
gostava de ter razão.
Sei perfeitamente que morrerei um dia
e que só na minha rua o vão saber.
Por isso se vossas excelências realmente não se importam
eu hoje, que é quinta-feira
precisava muito de ter razão.
De sete dias na semana pedir um para viver
não é muito, convenhamos.
A não ser.....
Ah! É verdade, a não ser ....

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As mulheres admiráveis da cidade

Colho as nêsperas de outono e dou-vos as nêsperas de outono
mulheres admiráveis da cidade.
As avenidas são primaveris
e vós sabeis que a vida é apenas isto,
este tempo de viver entre as flores,
os pássaros, as horas e as palavras dos companheiros, lábios amorosos
descendo amaciantes sobre a pele dos vossos corpos frescos.
Colho por isso as nêsperas de outono açucaradas
entre guindastes, transito e cimento
e as disponho em vossas férteis mãos
de gestos admiráveis sobre os homens.

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Deve-se amar o perto

O homem
chegou à lua, e ao sol
e ao fundo do mar,
e só Londres tem a população do meu país,
e nisso nem há mal...
mas quando eu vou a Barroselas do Minho
e a D. Felisbina me recebe contente
na Primavera da sua quinta,
eu só penso na D. Felisbina
e amo a sua cabeça branca.
depois vou passear pelos sítios do ano passado,
e cada folha é um universo.
Então o sol esconde-se
e é a vez dos pinheiros serem divinos sob as estrelas.

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De onde vem a cidade

quando passeio á noite pela cidade recolhida em íntimo silencio,
olho admirado as ruas e as árvores
e interrogo enigmático sobre os olhos cerrados dos homens citadinos
o serem eles o sentido disto tudo.
E penso nas formosas flores públicas plantadas para todos,
penso na janela clara aberta sobre o mar,
nas avenidas livres fechando junto ao céu....
então maciamente vou,
espantado de estar na vida a ser um homem
e a cumprir o tempo de ser grande,
descerrar as pálpebras descidas dos humanos irmãos emparedadas
e mostrar-lhes porque existem avenidas,
de onde vêm as casas e as fábricas
e porquê quando rente á madrugada
um pássaro cantando entre o cimento e as flores
na tenra primavera da cidade
pode encher de frescura e de sentido e vida.

1 000

Poeta citadino

Talvez vocês não saibam quem foi o Alberto Caeiro,
mas eu vou dizer-vos o que se passa.
Ele era um grande poeta que não tem nada a ver comigo
porque guardava rebanhos e fazia os possíveis para ser simples,
enquanto eu sou um sindicalizado
e faço os possíveis para não morrer atropelado na cidade.

1 212

Onde nem tudo o que luz é oiro

Somos talvez até um país rico,
e tivemos Camões, e tivemos pessoa e o infante,
mas a beleza está nos escombros,
e atola-se na areia e morre sem nos ver.
porque se eu abro a minha mão à noite
e nela só vejo as linhas do destino,
de que me vale a história do meu povo?
Sim, é possível que a profética rosa do oriente
ainda venha pelo rio da primavera
ancorar na solidão imensa deste cais.

1 034

Ó vagarosa noite

Ó vagarosa noite a vir de manso
profunda e densa pela cidade toda.
A estas horas onde em outros lados
floresce amoroso o sol por sobre terras?
Ó alegria de me ser em tudo.
ó humildes irmãos do grande mundo
deitados sobre o sonho como quem
aguarda o belo tempo de haver tudo!

1 023

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