Lista de Poemas

Alfabeto do mundo

Em vão me demoro soletrando
o alfabeto do mundo.
Leio nas pedras um escuro pranto,
ecos afogados em torres e edifícios,
indago a terra pelo tato
cheia de rios, paisagens e cores,
mas ao copiá-los sempre me equivoco.
Necessito escrever preso a uma linha
Sobre o fio do horizonte.
Desenhar o milagre desses dias
Que flutuam envoltos na luz
E se desprendem em cantos de pássaros.
Quando na rua os homens que perambulam
Do seu rancor a sua fadiga, cavilando,
Se me revelam mais do que nunca inocentes.
Quando o trapaceiro, o astuto, a adultera ,
Os mártires do ouro ou do amor
São só signos que não li bem,
Que ainda não consigo anotar no meu caderno.
Quanto quisera, ao menos um instante
Que esta plana febril de poesia
Grave na sua transparência cada letra:
O "o" do ladrão, o "t" do santo
o gótico ditongo do corpo e seu desejo,
com a mesma escritura do mar nas areias,
a mesma cósmica piedade
que a vida abre na frente dos meus olhos.

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Meu amor

Em outro corpo vai meu amor por esta rua,
sinto seus passos embaixo da chuva,
caminhando, sonhando, como em mim já faz tempo...
Há ecos de minha voz em seus sussurros
posso reconhecê-los.
Tem agora uma idade que era a minha,
uma lâmpada que se acende ao nos encontrarmos.
Meu amor que se embeleza com o mar das horas,
meu amor no terraço de um café
com um hibisco branco entre as mãos,
vestida à antiga do novo milênio.
Meu amor que seguirá quando me for,
com outro riso e outros olhos,
como uma chama que deu um salto entre duas velas
e ficou iluminando o azul da Terra.

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Volta a teus deuses profundos

Volta a teus deuses profundos;
estão intactos,
estão ao fundo com suas chamas esperando;
nenhum sopro do tempo as apaga.
Os silenciosos deuses práticos
ocultos na porosidade das coisas.
Hás rodado no mundo mais que nenhum calhau;
perdeste teu nome, tua cidade,
assíduo a visões fragmentarias;
de tantas horas que reténs?
A música de ser é destoante
porém a vida continua
e certos acordes prevalecem.
A terra é redonda por desejo
de tanto gravitar;
a terra arredondará todas as coisas
cada uma a seu término.
De tantas viagens pelo mar
de tantas noites ao pé de tua lâmpada,
só estas vozes te circundam;
decifra nelas o eco de teus deuses;
estão intactos,
estão cruzando mudos com seus olhos de peixes
ao fundo de teu sangue.

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Identificação e contexto básico

Eugenio Montejo, nome verdadeiro de Eugenio Sánchez, foi um poeta, ensaísta e diplomata venezuelano. Nasceu em 1938 e faleceu em 2008. A sua nacionalidade era venezuelana e a língua de escrita, o espanhol. O contexto histórico em que viveu foi o da segunda metade do século XX e início do século XXI, um período marcado por instabilidade política na América Latina, mas também por um efervescente panorama cultural e literário.

Infância e formação

Nascido numa família modesta em Venezuela, a sua formação foi marcada por uma forte inclinação para a leitura e a autodidaxia, embora tenha cursado Filosofia e Letras na Universidade Central da Venezuela. As suas leituras iniciais abrangeram desde a poesia clássica até aos autores modernos, absorvendo influências de movimentos literários diversos.

Percurso literário

Montejo começou a publicar os seus poemas em revistas literárias ainda jovem. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, mantendo uma linha de consistência temática e estilística, mas com um aprofundamento crescente da sua visão poética. Foi também editor e colaborador em diversas publicações culturais, e ocupou cargos diplomáticos que lhe permitiram ter um contacto mais amplo com outras culturas e literaturas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras poéticas mais importantes encontram-se "Atril de sombra" (1972), "Serenata a la luz de Luna" (1974), "Tigre de porcelana" (1979) e "Alfabeto del oleaje" (1982). Os temas dominantes na sua poesia incluem o tempo, a memória, a efemeridade da existência, a busca pela identidade, a natureza e o cosmos. O seu estilo caracteriza-se pela precisão vocabular, pela densidade imagética e por um ritmo introspectivo e meditativo. Utiliza frequentemente metáforas originais e uma linguagem que oscila entre o coloquial e o sublime. A sua voz poética é frequentemente confessional e universal, explorando a condição humana. Montejo é frequentemente associado a uma poesia que dialoga com a tradição, mas que inova na sua abordagem filosófica e na subtileza da sua exploração.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Montejo inseriu-se no panorama literário hispano-americano da segunda metade do século XX, partilhando preocupações com outros poetas da sua geração, embora mantendo uma singularidade muito própria. A sua obra reflete, por vezes, as complexidades sociais e políticas da Venezuela e da América Latina, mas a sua perspectiva é frequentemente mais universal e existencial. Foi um intelectual respeitado, com posições ponderadas sobre os rumos culturais e políticos da sua região.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Ocupou diversos cargos diplomáticos, representando a Venezuela em vários países, o que enriqueceu a sua perspetiva cosmopolita. As suas relações pessoais e vivências moldaram uma visão sensível e profunda da existência.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Eugenio Montejo é amplamente reconhecido como um dos poetas fundamentais da literatura venezuelana e hispano-americana do século XX. Recebeu diversos prémios literários importantes e a sua obra tem sido objeto de estudo académico e traduções para várias línguas.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora influenciado por autores da tradição hispânica e universal, Montejo desenvolveu uma voz única. O seu legado reside na capacidade de conciliar a reflexão filosófica com a beleza poética, influenciando gerações posteriores de poetas pela sua mestria técnica e profundidade temática.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A crítica tem salientado a profundidade existencial da sua poesia, a exploração do tempo como uma dimensão central da experiência humana e a sua mestria na construção de imagens poéticas. As suas obras convidam a múltiplas leituras, explorando as interconexões entre o eu, o mundo e o tempo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Montejo era conhecido pela sua discrição e pela sua dedicação à escrita. A sua paixão pela natureza e pela observação do mundo natural refletia-se frequentemente nos seus versos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em 2008, deixando uma obra consolidada que continua a ser lida e admirada. Publicações póstumas continuam a divulgar o seu legado.