Os Invernos de Minha Infância
Os invernos de minha infância
eram copiosos, generosos, abundantes.
Banhos de bica sensacionais!
Crianças corriam livres ao longo das calçadas.
Barquinhos de papel deslizavam pelas coxias,
deslumbrando meus olhos de menina vadia.
Aparar água da chuva para saciar a sede
representava maná dos deuses!
Havia feijão verde , canjica.
Pamonha, milho cozido.
Gostava de ficar agasalhada,
ouvindo a chuva bater no telhado!
Mensagem
Não sei se o vento te levou o recado;
o sol te envolveu com o calor do meu abraço
ou a lua falou do amor,
daquele amor que ainda que ainda guardo...
Reclamo-te nos horizontes em que, em vão, te busco.
Caminhos falam de desencontro.
O mar chora o argonauta que se afastou do cais...
Muitas pontes. Rios.
Nenhuma travessia...
Triste paisagem.
Apelos transcendentais não são ouvidos...
Telepatia não responde.
Como mandar-te uma mensagem? Em verso?
E o reverso?
Penso em out door ... Classificados dos jornais...
Como falar-te? Difícil encontrar-te...
... e fico assim, sem saber-te,
a sonhar-te...
Rememorando
Revejo saudosa
um ontem bonito,
repleto de sonhos, quimeras, fantasias.
Revejo as manhãs primaveris
em que o sol me despertava
e da cama saltava cheia de viço.
Revejo as tardes crepusculares
em que o coração disparava
ao vislumbrar a lua que surgia;
em que meus olhos acendiam
ante o olhar das estrelas...
Revejo aquelas noites tumultuosas
em que rompia as amarras
e corria, ofegante, ao teu encalço.
Ah! Sentia-me um pássaro!
Rememorando um doce passado,
diluído, transformado,
revejo retalhos bonitos
dos quais não posso olvidar
e chego mesmo a suspirar...
Voz do Olhar
Quando teus olhos feriram o silêncio,
ouviram os meus...
( in, LUZES DO SILÊNCIO)
Fortaleza - Ce, 1 Fortaleza - Ce, 1988
Eu e Brisa
Eis que o ciciar da brisa matinal
acariciou-me o ouvido
- acordou em mim uma melodia.
Ecos vibrantes eclodiram,
plenetraram-me,
invadiram-me...
Ah! Essa brisa matinal
me trouxe um viço,
uma inquietação,
um rebuliço!...
Dor
Não sei de onde vem esta dor pungente
dilacerando a alma.
Dói.
Sangra o coração.
—Será que sofro assim por querer-te
e me encontrar na solidão?...
Das Escadarias do Templo
Um dia fincarei,
qual astronauta, em altos píncaros
o marco do mais puro,
do mais sublime do mais...,
o ideal acalentado.
Assim,
lanço-me nos degraus do templo...!
(Inédito)
O Plantador de Sonhos
O lavrador prepara a terra, lentamente.
Cultiva o solo com amor.
Alimenta o chão com carinho e devoção.
Cuidadoso, escolhe a semente.
E faz a plantação.
Semeia o trigo e nasce o joio.
Paciente, reinicia.
Planta roseira e brota baobá.
Cauteloso, extirpa-o.
E recomeça.
A vegetação viça.
Súbito, vem o estio.
As plantas secam.
E continua...
A flor renasce.
E vem a inundação.
Não desiste.
Rega a poesia.
Na certeza de um dia,
colher a flor tardia.
(in, A ROSA - FÊNIX)
Fortaleza - Ce, 1997
Encontro com a Solidão
Eis que me deparo com a solidão
de estar só comigo.
Ninguém ao redor.
Apenas a noite, escassas estrelas
e o mar a murmurar...
A música envolve o ar,
ocupa o espaço,
preenche a lacuna
- lacuna?
Neste momento basto-me.
Solitária e distante,
brindando o estar sozinha,
canto a alegria
de nada ter a lamentar,
assim sorrindo
Por não ter o que chorar.
Luzes do Silêncio
Tateava na escuridão do silêncio,
quando esbarrei em alguém.
Ah, és tu?!
As luzes ascenderam...