Fernando Assis Pacheco

Fernando Assis Pacheco

1937–1995 · viveu 58 anos PT PT

Fernando Assis Pacheco foi um poeta, jornalista e crítico literário português, figura marcante da poesia contemporânea. A sua obra, caracterizada pela ironia, pela melancolia e por uma profunda reflexão sobre o tempo e a condição humana, revela um diálogo constante com a tradição literária e uma originalidade inconfundível. Como jornalista e crítico, desempenhou um papel importante na divulgação e no debate sobre a literatura portuguesa. A sua poesia é um convite à introspeção, explorando as complexidades do sentir e do pensar.

n. 1937-02-01, Coimbra · m. 1995-11-30, Lisboa

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Biografia

Identificação e contexto básico

Fernando Assis Pacheco foi um poeta, jornalista, crítico literário e tradutor português. Nasceu em Lisboa e faleceu na mesma cidade. A sua obra é escrita em língua portuguesa. Integrou a chamada "Geração de 50" ou "Geração de Orpheu", embora a sua obra tenha um carácter distintivo.

Infância e formação

Passou a infância e a adolescência num ambiente familiar de classe média em Lisboa. A sua formação intelectual foi marcada por uma vasta cultura literária, adquirida em grande parte de forma autodidata, através de leituras intensas e diversificadas. Absorveu influências de autores clássicos e contemporâneos, tanto portugueses como estrangeiros, o que se reflete na sua escrita.

Percurso literário

O início da sua atividade literária remonta à juventude, com a publicação de poemas em diversas publicações. A sua obra poética desenvolveu-se ao longo de várias décadas, com uma evolução notável no seu estilo e temática. Assis Pacheco foi um colaborador assíduo de jornais e revistas literárias, onde publicou poesia, crítica e ensaios. Desempenhou também um papel como tradutor de autores estrangeiros, enriquecendo o panorama literário português.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras poéticas mais significativas incluem "O Gosto Amargo da Terra" (1951), "O Caminho e o Cheiro" (1955), "Os Amantes" (1957), "Tanta Dela" (1967) e "O Pão e as Pedras" (1976). Os temas dominantes na sua poesia são a efemeridade do tempo, a melancolia, o amor, a solidão, a morte, a fragilidade da existência e a relação do homem com o seu percurso de vida. O seu estilo caracteriza-se pela ironia fina, pela contenção lírica, pela reflexão filosófica e por um tom por vezes elegíaco. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com uma musicalidade e um ritmo internos muito próprios. A linguagem é cuidada, mas acessível, com uma densidade imagética que evoca sensações e estados de alma. A sua obra insere-se no modernismo português, dialogando com a tradição, mas procurando uma voz autêntica e inovadora.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Fernando Assis Pacheco viveu e produziu a sua obra num período de grande efervescência cultural em Portugal, marcado pela ditadura do Estado Novo e pela guerra colonial. Foi contemporâneo de muitos dos grandes nomes da literatura portuguesa da segunda metade do século XX. A sua posição crítica e irónica, muitas vezes subtil, reflete a sua relação complexa com o regime e com a sociedade da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Assis Pacheco teve uma vida marcada pela dedicação à escrita e ao jornalismo. As suas relações pessoais e experiências de vida moldaram a sua visão do mundo e influenciaram a sua obra, transmitindo uma sensibilidade aguçada para as complexidades das relações humanas e para a fragilidade da condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Apesar de não ter alcançado a mesma projeção mediática de outros poetas da sua geração, Fernando Assis Pacheco é amplamente reconhecido pela crítica e pelos leitores como um dos grandes poetas portugueses da segunda metade do século XX. A sua obra tem vindo a ser redescoberta e valorizada, consolidando o seu lugar no cânone literário português.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Fernando Assis Pacheco foi influenciado por poetas como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Miguel Torga. A sua obra, pela originalidade do seu tom e pela profundidade das suas reflexões, influenciou poetas posteriores que encontraram nele um modelo de escrita lírica e intelectualmente rigorosa. O seu legado reside na capacidade de traduzir a melancolia e a ironia da existência humana numa poesia de grande rigor formal e expressivo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Assis Pacheco convida a uma reflexão sobre o sentido da vida, o impacto do tempo e a busca por um lugar no mundo. As análises críticas destacam a sua mestria na construção de imagens e na exploração de estados de alma complexos, bem como a sua capacidade de conciliar a ironia com uma profunda ternura pela condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Era conhecido pela sua discrição e pela sua dedicação exclusiva à arte. Muitos dos seus poemas foram escritos em cadernos ou em pequenas notas, refletindo um processo criativo muitas vezes intimista e solitário.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Fernando Assis Pacheco faleceu em 2002. A sua memória é mantida viva através da leitura e do estudo da sua obra, que continua a encantar e a provocar reflexão nos leitores.

Poemas

6

Com a tua letra

Porque eu amo-te, isto é, dou caboda escuridão
do mundo.

1 749

Mas agora que vai descer a noite na minha vida

Mas agora que vai descer a noite na minha vida

Triste de mim mais triste que a tristeza

triste como a mão que segura o copo

como a luz do farol esgaçando a névoa

triste como o cão manco

deixado na estrada pelos caçadores

triste como a sopa entretanto azeda

mais triste que a idiotia congénita

ou que a palavra ampola

triste de mim triste e perdido

entre duas ruas

uma que vai para o Norte outra para o Sul

e ambas cortadas aos peões

que não cooperam devidamente

(com este governo de merda é claro)

triste como uma puta alentejana

num bar de Ourense

que me viu à cerveja e lesta

me chamou compadre

vozes que a gente colecciona

a tarde triste os anos tristes

a grande costura da tristeza

do esterno ao baixo ventre

triste e já sem nenhum reparo

a fazer à metafísica

senão que é um défice

porventura do córtex cerebral

1 397

Fecit

Este livro é teu que me aturaste
desvairos saüdades amorios
desde o primeiro mal cozinhado verso
ó cúmplice
um que me lê com respeito e vagar
a quem devo chamar prestante amigo
neste mundo de tanta cabronada
o livro é o que é nenhum enleio
nenhuma assinatura a baixo preço
não estou nessa tal lista e tem também
a confissão banal dos mil cagaços
de morrer (dores intercostais músculos
caindo na barriga da perna)
como se eu fosse à noite um filho terno
e teu, leitor, que o não desamparaste
*
Peçam grandiloqüência a outros
Acho-a pulha no estado actual da economia
*
E não sublinhem o que não escrevi
*
A ti compadre irmão saúdo e já termino
com só o fósforo duma estrela
na lixa do fim da tarde
(todos os poemas inVariações em Sousa, 1987)
1 118

O cu de Maruxa

Um cu que se desvela em Agosto em Ourense
redondo para olhar um cu magnificente
um cu como um bisonte
o teu cu Maruxa adivinhado num restaurante
eu rimo tanto cu que trago na memória
o teu fará por certo mais história
é um cu para a glória ó nena impante
rodando na cadeira el’ deixa-nos suspensos
quase presos Maruxa pelos beiços
lembra-me nédio raxo assim forte de febra
lêveda e alva nas Burgas cozinhando
se de soslaio agora se requebra
é como canta Maruxa! igual que um pássaro
ao qual neste mesón péssoro vénia
teu ouriflâmio cu me faz insónia
1 859

A namoradinha de organdi

Como na dança ritual dos patos colhereiros se te amei
foi a cem por cento da minha capacidade metafórica
mas copiado de livros onde o herói sempre enviuvava
cruzei imensas vezes sob a tua varanda com glicínias
pensando numa cena infeliz à moda do Harold
eu sonhava contigo?
eu assoava-me ao pijama!
1 038

Chula das fogueiras

Amor amor meu big amor
eu dizia shazam e tu não me ligavas
pus Mandrake a seguir-te hábil nos truques
e tu não me ligavas
em qualquer planeta verde e avançadíssimo
tu não me ligavas
estendi o meu braço Homem de Borracha até S. Martinho do Bispo
e tu não me ligavas ponta nenhuma
tu querias era casar na Sé Nova
branquingénua abusar do meu livre alvedrio
fiz-te pois um manguito do tamanho dum choupo
e cá estou pai de filhos um bocado estragado
mas não por tua causa que já não existes
ó sombra de sombra à esquina da farmácia
1 384

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