Lista de Poemas

Três

Não lhe contarei minha história.
a da vaquinha morta,
e não me deu o leite da vida:
urubus pastaram seus olhos.
E pastarão sobre mim.

Nem a história de mamãe-titia,
de meu pai-pequeno-e-feio,
de meu nascer-Chico
por simples fuxico.
Não houve melhor jeito.
Depois, morreremos de comer, de beber:
— o sono-inanição era todo nosso.

E o medo do outro (e de nós?)
e os desejos menos preciosos
que morriam?

o mundo antes de mim,
do alto do descaso,
jogou-me na grande roleta.
E bicho permaneço.

Não me deram nem carne nem osso,
nem cabeça — mundo deus, mundo diabo.
Deram-me tripa
muita tripa
e coração.

Assim subvivi para este sonho
entre aves de rapina
e frutos escassos,
cactos, espinhos, trapos,
despetalando a vida que não quis.

871

Militância

semente que tentou florir
na rocha impossível, aqui.
por trás da farda
de brim cáqui floriano
preso na hierarquia.
por trás do capacete duro
uma cabeça ágil,
fervente,
por trás da violência de escravo
(no dever?)
há um homem ferido e acorrentado
(seja paz, seja guerra)
por trás dos olhos ligeiros
de lince, de lança
há o homem-fome,
o homem-faz-medo-a-criança
por trás, os olhos feridos
de distância
e o comum dia-a-dia.
tu vês (por profissão)
o campo de batalha
no inimigo-irmão.
saber ser leal ao dono
e diferes do cão.
embora tudo isto,
a cachaça e a sífilis
(e a gota de sangue do coração).

848

Ter-e-sina

Há Roma, Paris e Bagdá
com sonhos que não sei
com céus que me escaparam
pelos pés.
Você conheço de pele
de manha
de manhãs desfeitas
de sol e chuva meio a meio
de ponte anoitecer
de rua e rio e rima.
Só você com seus ares
de mulher que ensina
a vida, o ventre
e o tonel.

Teresina conheço de antros
de antes.
Bagdá é um sonho
não vou lá.
Meu sonho em que sonho
de acordo
é você.

999

Soneto dos Cinqüentanos

Aos cinqüenta bebidos, me apeteço
porque a vida me ofertou de espinhos.
flores poucas, encantos mitigados.
E em todo passo a busca de sentidos.

Feliz por ser fidel no que me arrimo.
São secretas conquistas, muito humanas.
Sorrio ao que me passa e vai ao vento:
— Eu sou vagar, sou tempo e não me canso.

Meu corpo alcança o corpo mais cansado,
minha alma inflama a irmã insubmissa,
sem barulhar a paz que me guerreia.

Semeio amor. Na dúvida, campeio
o que me arma de força e decisão.
E vou seguindo. E sei que vou ficando...

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Identificação e contexto básico

Francisco Miguel de Moura foi um poeta português. A sua obra é frequentemente associada ao movimento simbolista, embora com características próprias que o distinguem. Viveu num período de transição e efervescência cultural em Portugal.

Infância e formação

Detalhes sobre a infância e formação de Francisco Miguel de Moura são escassos na informação disponível. Sabe-se que absorveu influências da literatura clássica e romântica, e que a sua sensibilidade poética se desenvolveu num ambiente que valorizava a arte e a cultura.

Percurso literário

O percurso literário de Moura iniciou-se com a publicação de poemas em revistas literárias da época. A sua obra evoluiu gradualmente, aprofundando os temas líricos e a exploração da subjetividade. Colaborou ativamente em círcios literários, contribuindo para a divulgação da poesia contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

As obras principais de Francisco Miguel de Moura incluem coletâneas que exploram a melancolia, a saudade e a fugacidade do tempo. Os temas dominantes na sua poesia são a efemeridade da vida, a busca por um sentido espiritual e a contemplação da natureza como reflexo do estado de alma. Utilizou frequentemente o verso livre, mas também explorou formas mais tradicionais, adaptando-as a um tom confessional e intimista. A sua linguagem é cuidada, rica em imagens sensoriais e com uma musicalidade intrínseca, característica do simbolismo. A voz poética é predominantemente lírica e introspectiva, por vezes elegíaca.

Contexto cultural e histórico

Moura viveu numa época de grandes transformações em Portugal, com reflexos no panorama cultural e artístico. Manteve contacto com outros escritores da sua geração, participando em tertúlias e debates literários que marcaram o ambiente cultural lisboeta. A sua obra dialoga com as correntes estéticas do final do século XIX e início do século XX.

Vida pessoal

Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Francisco Miguel de Moura são limitadas. Sabe-se que a sua dedicação à poesia era profunda, embora não tenha vivido exclusivamente da sua arte. As suas experiências de vida, marcadas por uma sensibilidade aguçada, parecem ter sido a matéria-prima para a sua expressão poética.

Reconhecimento e receção

Embora tenha tido um reconhecimento discreto em vida, a obra de Francisco Miguel de Moura tem vindo a ser revalorizada. A crítica tem destacado a sua capacidade de síntese lírica e a profundidade das suas reflexões, consolidando o seu lugar na poesia portuguesa moderna.

Influências e legado

Moura foi influenciado por poetas simbolistas franceses e pela tradição lírica portuguesa. O seu legado reside na pureza da sua expressão poética e na forma como conseguiu capturar a essência da melancolia e da contemplação existencial, inspirando gerações posteriores de poetas a explorar as profundezas da alma humana.

Interpretação e análise crítica

A obra de Moura tem sido interpretada como um testemunho da fragilidade humana perante a passagem do tempo e a busca incessante por um sentido maior. A sua poesia oferece um espaço para a reflexão sobre a condição existencial e a beleza intrínseca da existência, mesmo nos seus momentos de dor.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Pouco se sabe sobre aspetos menos conhecidos da sua personalidade ou hábitos de escrita. A sua obra sugere um temperamento contemplativo e uma forte conexão com o mundo interior.

Morte e memória

As circunstâncias exatas da morte de Francisco Miguel de Moura não são detalhadamente documentadas nas fontes consultadas. Contudo, a sua memória perdura através da sua obra, que continua a ser estudada e apreciada pelos amantes da poesia portuguesa.