Lista de Poemas

BALADA DAS MULHERES DE PARIS

Que sejam boas linguareiras
Florentinas e Venezianas,
Para servir de mensageiras,
Também Lombardas e Romanas,
E as Genovesas e as Toscanas.
Aqui vos garante quem diz
(Em que pese às Sicilianas):
Para a boca, só de Paris.

Em bem falar serão vezeiras,
Doutoras, as Napolitanas.
Como boas cacarejeiras
As de Bruges e as Alamanas.
Que sejam Gregas ou Troianas,
E de Hungria ou de outro país,
Aragonezas, Castelhanas;
Para a boca, só de Paris.

Bretãs, Suíças, más palradeiras.
Mais Gascoas e Toulousanas:
Um par das nossas regateiras
Cala-as logo e às Alsacianas,
Às ingresas como às Renanas
(É bastante a lista que eu fiz?),
E às Picardas e às Sabolanas:
Para a boca, só de Paris.
Senhor, às damas mais maganas
O prémio deveis dar, feliz.
Por mais que valham Italianas
- Para a boca, só de Paris.

(Tradução de Jorge de Sena)

1 727

BALADA DOS ENFORCADOS

Homens irmãos, que a nós sobreviveis,
Não tenhais vosso peito calejado,
Porque, se algum pesar por nós haveis,
Cedo, o perdão de Deus tereis ganhado.
Mais de um vedes, na corda, pendurado:
A carne que gozou, em demasia,
Foi devorada, podre, dia a dia,
E as ossadas em pó se mudarão.
De nosso padecer ninguém se ria.
E a Deus rogai nos dê o seu perdão!

Se de irmãos vos chamamos, não deveis
Mostrar desdém, embora justiçados
Com razão. E, no entanto, vós sabeis
Que nem todos são muito ajuizados;
Pedi por nós, agora, trespassados,
A Jesus Cristo, filho de Maria,
De sua graça venha a nós valia
Que nos livre da eterna perdição.
A nós, mortos, poupai outra agonia.
E a Deus rogai nos dê o seu perdão!

Secos, negros, enfim, o sol nos fez,
A chuva nos gastou. Foram cavados
Os olhos pelos corvos, com avidez,
Sendo a barba e os sobrolhos arrancados.
Não podemos jamais ficar parados;
De cá pra lá, ao léu da ventania,
Pelas aves bicados, à porfia,
Como um dedal os corpos ficarão.
Não sejais, pois, de nossa confraria;
E a Deus rogai nos dê o seu perdão!

Senhor Jesus, que sois o nosso guia,
Não permitais do inferno a senhoria,
Nem lhe devamos soldo, sujeição.
Homens, aqui não calha zombaria;
E a Deus rogai nos dê o seu perdão!

4 287

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Identificação e contexto básico

François Villon, cujo nome de batismo era François de Montcorbier, nasceu em Paris, por volta de 1431. É um dos poetas mais importantes da França medieval, conhecido pelo seu estilo único que mescla o lírico, o satírico e o autobiográfico. Viveu no século XV, um período de transição entre a Idade Média e o Renascimento, marcado por conflitos como a Guerra dos Cem Anos e instabilidade social em França.

Infância e formação

Órfão de pai desde cedo, Villon foi criado por Guillaume de Villon, um capelão da igreja de Saint-Benoît-le-Bétourné, de quem o poeta viria a adotar o apelido. Recebeu uma educação formal na Universidade de Paris, onde obteve o grau de mestre em artes em 1452. A sua formação, no entanto, foi frequentemente ofuscada pelo seu envolvimento em atividades ilícitas e pela sua vida boémia.

Percurso literário

O início da escrita de Villon está intrinsecamente ligado à sua vida. A sua obra mais famosa, "Le Lais" (ou "Petit Testament") e "Le Grand Testament", ambas datadas de 1461, são exemplos paradigmáticos do seu estilo, onde o pessoal se mistura com o universal. Ao longo do tempo, o seu estilo evoluiu, mas manteve sempre um tom confessional e crítico. Publicou em círculos que frequentava, e a sua fama, embora póstuma, consolidou-se devido à originalidade e força da sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais importantes de Villon são "Le Lais" (1461) e "Le Grand Testament" (1461), além de poemas avulsos e baladas. Os temas centrais são a morte, a fugacidade do tempo, a decadência, o arrependimento, a pobreza, o amor, a sociedade parisiense e a sua própria vida de marginal. Villon utilizou formas poéticas medievais, como o lai e a balada, mas com uma liberdade e originalidade notáveis. A sua linguagem é coloquial, repleta de gírias e referências ao quotidiano parisiense. O tom poético varia entre a melancolia, a ironia, o humor negro e a confissão sincera. A sua voz poética é intensamente pessoal, mas ressoa universalmente pela sua humanidade crua. Villon é considerado um precursor da poesia moderna pela sua abordagem autobiográfica e pela sua capacidade de retratar a complexidade da condição humana. É associado ao período final da poesia medieval francesa.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Villon viveu num período turbulento em França. O país ainda se recuperava da Guerra dos Cem Anos, e Paris era palco de tensões sociais e políticas. Ele conviveu com um submundo de ladrões, prostitutas e estudantes marginais, o que se reflete na sua obra. A sua geração, marcada pela instabilidade, procurava novas formas de expressão.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Villon foi marcada por escândalos e fugas. Foi preso diversas vezes por roubo e agressão, chegando a ser condenado à morte, pena que foi comutada para exílio. As suas relações pessoais parecem ter sido tão turbulentas quanto a sua vida pública. A poesia de Villon é um espelho da sua existência conturbada, onde o arrependimento e a autopiedade se misturam com um orgulho ferido e uma vivacidade inabalável.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora Villon tenha tido algum reconhecimento em vida, a sua obra só alcançou um estatuto canónico após a sua morte. A sua poesia foi redescoberta no século XIX, com o movimento romântico, que se encantou com o seu génio atormentado e a sua voz autêntica. Hoje, é considerado um dos grandes poetas da língua francesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Villon foi influenciado pela poesia trovadoresca e pela tradição satírica medieval. O seu legado é imenso, pela sua originalidade, a sua profunda humanidade e a sua capacidade de dar voz aos marginalizados. Influenciou inúmeros poetas posteriores, como Charles Baudelaire, que o considerava um "cidadão de Paris". A sua obra é um marco na literatura francesa e mundial.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Villon é um convite à reflexão sobre a mortalidade, a justiça e a condição humana. As suas "baladas das damas de outrora" e "baladas em forma de velho francês" são exemplos de como ele tratava temas universais com uma sensibilidade única. A sua vida e obra continuam a gerar debates sobre a relação entre o artista e a sociedade, e a natureza da genialidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Villon é famoso pela sua "Ballade des Pendus" (Balada dos Enforcados), escrita enquanto aguardava a execução, onde ele se inclui como um dos condenados. A sua vida foi tão lendária quanto a sua poesia, sendo difícil separar o homem do mito.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória As circunstâncias exatas da morte de François Villon são desconhecidas. Sabe-se que foi exilado de Paris em 1463, e a sua existência desaparece após essa data. As publicações póstumas consolidaram a sua importância literária.