Lista de Poemas

Oh, o homem é um deus quando sonha, mas um mendigo quando reflete; e, quando o entusiasmo acaba, ele fica ali parado, como um filho desgarrado, expulso da casa paterna, observando o miserável centavo que a compaixão jogou em seu caminho.

 

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O Arquipélago

(estrofes iniciais)

Tornam os grous de volta a ti, e buscam curso
Para tuas margens, de volta, os navios? respiram desejados
Ares em torno da maré pacificada, e ensolara o golfinho,
Atraído da profundeza, à nova luz, seu dorso?
Floresce a Jônia? é tempo? pois sempre que é primavera,
Quando aos viventes o coração renova-se e o primeiro
Amor desperta aos humanos e de tempos áureos a lembrança,
Venho a ti e te saúdo em tua quietude, Ancião!

Sempre, Poderoso, vives ainda e repousas à sombra
De tuas montanhas, como vivias; com braços de moço abraças
Ainda tua terra amável, e a de tuas filhas, Pai!
De tuas ilhas, ainda, as floridas - nenhuma está perdida.
Creta está aí, e verdeja Salamina, crepusculada de louros,
Circunflorida de raios; à hora do nascente eleva
Delos sua cabeça inspirada, e Tenos e Quios
Têm de frutos purpúreos quanto basta; de colinas bêbadas
Jorra a bebida de Chipre, e de Caláuria tombam
Ribeirões de prata, como outrora, nas velhas águas do Pai.

Vivem ainda todas elas, as mães de heróis, as ilhas,
Florindo de ano para ano, e se por vezes, do abismo
Desvencilhada, a flama da noite, a tempestade dos ínferos
Empolgou uma das belas, e essa moribunda se afundou em útero -
Oh Divino! tu aturaste - pois à flor das escuras
Profundezas, muita coisa já te nasceu e sucumbiu.
 

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Pôr do sol

Onde estás? A alma anoitece-me bêbeda
De todas as tuas delícias; um momento
Escutei o sol, amorável adolescente,
Tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite.

Ecoavam ao redor os bosques e as colinas;
Ele no entanto já ia longe, levando a luz
A gentes mais devotas
Que o honram ainda.

 

1 129

Lembrança

Sopra o nordeste,
O mais grato dos ventos:
Grato a mim porque é cálido, e aos marujos
Porque promete fácil travessia.
Eia, saúda agora
O formoso Garona
E os jardins de Bordéus
Lá coleia na íngreme ribeira
A vereda, e no rio
Se despenha o regato; mas acima
Olha o par generoso
De álamos e carvalhos.

Ainda me lembro bem e como
As largas copas curva
O olmedo sobre o moinho.
No pátio há uma figueira.
E nos dias feriados,
Pisando o chão sedoso
Passeiam mulheres morenas
No mês de março
Quanto o dia é igual à noite
E nos lentos caminhos
De áureos sonhos pejados
Sopram brisas embaladoras.

Mas estenda-me alguém,
Da escura luz repleto
O aromado copo
Para que eu possa descansar; pois doce
Seria o sono à sombra.
Também não fora bem
Privar-se de mortais
Pensamentos, que bom
É conversar; dizer
O que se sente, ouvir falar de amores,
De coisas passadas.

Porém que é dos amigos? Belarmino
E o companheiro? Muitos
Têm medo de ir à fonte.
É que a riqueza principia
No mar. Ora, eles
Reúnem como pintores
As belezas da terra e não desprezam
A alada guerra não,
Nem desdenham morar anos a fio
Sob o mastro sem folhas, onde à noite
Não há as luminárias da cidade,
Nem dança e música nativa.

Mas hoje aos Índios
Foram-se os homens,
Ali, na extremidade

Das montanhas cobertas de vinhas
Donde baixa o Dordonha,
Acaba o rio no Garona
Largo como o Oceano. Todavia
O mar toma e devolve a lembrança.
O amor também demora a olhar debalde.
O que perdura porém, fundam-no os poetas.

(Tradução de Manuel Bandeira)

 

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Identificação e contexto básico

Friedrich Hölderlin (nome completo: Johann Christian Friedrich Hölderlin) foi um poeta e filósofo alemão, considerado uma das figuras centrais do Romantismo e um precursor da poesia moderna. Nasceu em Lauffen am Neckar, no Ducado de Württemberg, e faleceu em Tübingen. A sua obra poética, embora reconhecida tardiamente, exerceu uma influência profunda na literatura alemã e ocidental, explorando temas como a beleza, a natureza, a divindade, o destino humano e a busca pela harmonia em tempos de fragmentação.

Infância e formação

Nascido numa família de classe média alta, Hölderlin teve uma infância marcada pela perda precoce do pai. Recebeu uma educação esmerada, primeiro na escola latina de Denkendorf e depois no seminário protestante de Maulbronn, onde estudou teologia e filosofia. Foi nesse período que desenvolveu um profundo interesse pela Antiguidade Clássica, especialmente pela poesia grega, e pelas ideias filosóficas de Kant e Fichte. A amizade com os futuros pensadores Hegel e Schelling foi fundamental para a sua formação intelectual, com quem partilhou ideais sobre a razão, a arte e a busca por uma nova ordem espiritual.

Percurso literário

O início da sua atividade literária deu-se ainda durante os seus estudos, com a composição de poemas líricos e a tradução de obras clássicas. A sua obra evoluiu de formas mais tradicionais, inspiradas nos modelos gregos e latinos, para uma maior liberdade formal e expressiva, especialmente nas suas odes e hinos. Publicou as suas primeiras obras importantes, como "Hyperions Schicksalslied" e o romance "Hyperion", que refletem as suas inquietudes existenciais e políticas. Tentou, sem sucesso, encontrar uma carreira académica, trabalhando brevemente como tutor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Hölderlin incluem "Páginas de Hiperión", "O Canto do Destino de Hiperión", e uma vasta coleção de poemas, odes e hinos, como "O Rio", "O Velho Tempo" e "Metanoeite". Os temas dominantes são a beleza idealizada da Grécia Antiga, a natureza como manifestação do divino, a dualidade entre o sagrado e o profano, a busca por uma harmonia perdida e a meditação sobre o destino da Alemanha e da Europa. Em termos de forma, Hölderlin experimentou com o verso livre, mas também utilizou formas mais clássicas, como o soneto, com grande mestria. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem elevada, musicalidade intensa, imagens ricas e uma profunda carga simbólica. A sua voz poética é frequentemente elegíaca, melancólica e, por vezes, profética, expressando a dor da fragmentação e a ânsia pela totalidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Hölderlin viveu num período de intensas transformações na Europa, marcado pela Revolução Francesa e pelas guerras napoleónicas, que tiveram um impacto significativo nas suas reflexões sobre a liberdade, a política e o destino dos povos. Pertenceu à "geração de Jena" do Romantismo alemão, um movimento que buscava conciliar a razão com a emoção, a ciência com a arte, e a tradição com a modernidade. Manteve relações com importantes figuras intelectuais da época, como Goethe, Schiller e os seus amigos Hegel e Schelling. A sua obra reflete as tensões entre o idealismo filosófico e a dura realidade histórica.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Hölderlin foi marcada por uma sensibilidade exacerbada e por relacionamentos afetivos intensos, mas também por dificuldades financeiras e pela instabilidade emocional. A sua paixão por Susette Gontard, a esposa do seu empregador em Frankfurt, inspirou muitos dos seus poemas de amor e é considerada uma influência importante na sua obra. A sua saúde mental deteriorou-se progressivamente, culminando num colapso nervoso que o levou a viver os últimos trinta e seis anos da sua vida numa torre em Tübingen, sob os cuidados de uma família.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de Hölderlin foi, em grande parte, póstumo. Durante a sua vida, a sua poesia, considerada por muitos como excessivamente abstrata e hermética, teve uma receção limitada. Foi apenas no final do século XIX e início do século XX que a sua obra foi redescoberta e valorizada, influenciando gerações posteriores de poetas e pensadores, como Rilke, Heidegger e os poetas do Grupo de Tübingen. Hoje, é universalmente reconhecido como um dos maiores poetas da língua alemã.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Hölderlin foi profundamente influenciado pela poesia grega antiga, pelos filósofos Platão e Kant, e pela literatura clássica. O seu legado é imenso, tendo influenciado poetas de diversas nacionalidades e movimentos literários. A sua exploração da relação entre o homem, a natureza e o divino, a sua busca pela beleza e pela harmonia, e a sua capacidade de expressar a angústia existencial com uma linguagem sublime, continuam a ressoar na poesia contemporânea. O seu pensamento filosófico, especialmente a sua reflexão sobre a linguagem e a experiência do sagrado, também foi objeto de estudo por parte de filósofos como Martin Heidegger.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Hölderlin tem sido objeto de inúmeras interpretações críticas, que vão desde leituras profundamente filosóficas, focadas na sua metafísica da beleza e do ser, até análises sobre a sua relação com a política e a história. A sua "visão da Grécia" é frequentemente analisada como um ideal perdido e uma fonte de inspiração para a busca de uma unidade perdida no mundo moderno. A tensão entre o ideal e o real, o sagrado e o profano, o céu e a terra, são temas centrais na análise crítica da sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Apesar de ter vivido os seus últimos anos numa condição de demência, Hölderlin continuou a escrever versos e a recitar poemas até ao fim. Os seus guardiões permitiam-lhe ter papel e pena, e ele continuou a escrever com uma caligrafia peculiar, muitas vezes ilegível. Um aspeto curioso é a sua fixação com a palavra "heil" (sagrado, santo, curado), que aparece repetidamente nos seus últimos escritos, sugerindo uma persistente busca espiritual.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Friedrich Hölderlin faleceu em Tübingen, em 7 de junho de 1843, aos 73 anos de idade. As suas obras completas foram publicadas em várias edições, tanto em vida como postumamente, contribuindo para a sua crescente influência e reconhecimento. A sua casa em Lauffen am Neckar e o seu quarto na torre em Tübingen tornaram-se locais de peregrinação para amantes da sua obra e estudantes de literatura.