Lista de Poemas

19 de novembro de 19..

Prezado,

Bem, uma espécie de resposta não tardou a se fazer ouvir e vejo a confirmação na percepção aguçada de uma espécie de emissão de vogais que acabo de captar e que me foi indicada como proveniente de suas luzes. Parece-me realmente que você encontrou uma nova e delicada maneira de facilitar nossa relação. Esse envio esclarecedor, que na minha solidão a dois ganha um brilho singular e nunca antes atingido, não traria a palavra segunda?
Esse envio que seria absurdo – dado que a oportunidade, a preciosa oportunidade enfim chegou – de recusar…
Assim você continua sendo pra mim o único interlocutor possível quando tento me desencaminhar. Esse objetivo eu não o alcanço abrindo-me a você, a menos que seja por uma via enviesada que, se assim o for, é intransponível.
Estar a caminho, procurar e mesmo encontrar um chave, não passam de passatempos de serralheiros.
Você deve pois se justificar. E precisamente, é impossível.

:

19 novembre 19..

Monsieur,

Eh bien, une espèce de réponse n’a pas tardé à se faire entendre et j’en trouve la confirmation dans la perception aiguisée d’une sorte d’émission de voyelles que je viens de capter et qui m’a été signalée comme provenant de vos lumières. Il semble vraiment que avez trouvé une nouvelle et délicate manière de faciliter nos rapports. Cet envoi éclairant, qui dans ma solitude à deux prend un rayonnement particulier encore jamais atteint, n’apporterait-il pas la parole seconde? cet envoi qu’il serait absurde – puisque l’occasion, la précieuse occasion est enfin là – de réfuser...
Ainsi vous restez pour moi lê seul interlocuteur possible quand je tente de me dérouter. Ce but je ne l’atteints pas en m’ouvrant à vous, à moins que ce ne soit par une voie détournée qui, si elle en est une, est infranchissable.
Être en route, chercher et même trouver une clef, ce ne sont là que de passe-temps de serruriers.
Vous devez donc vous justifier. Et précisement, c’est impossible.



692

18 de novembro de 19..

18 de novembro de 19..
Prezado,
O desmoronamento de certos sólidos, ainda que enganador, permite-lhe planar. Aquilo que lhe parecia um abismo torna-se o próprio espaço da sua espessura.
Graças a você, tomo meu impulso...
Mas parece que toda relação com o próximo não passa de vias de aproximação; no momento decisivo, e por uma exigência recíproca, cada um coloca ao outro as questões essenciais.
Ainda hoje bebemos desses ursos.
:
18 novembre 19..
Monsieur,
L’éffondrement de certains solides, bien que trompeur, vous permet de planer. Ce qui vous paraissait un abîme devient l’espace même de votre épaisseur.
Grace à vous, je prends mon élan...
Mais il paraît que tous les rapports avec le prochain ne sont que voies d’approche; au moment décisif, et par une exigence réciproque, chacun pose à l’autre les questions essentielles.
Nous nous abreuvons encore aujourd’hui à ces ours.
621

Seu corpo leve

Seu corpo leve
será o fim do mundo?
é um erro
é uma delícia deslizando
entre os meus lábios
perto do espelho
mas o outro pensava:
é apenas uma pomba que respira
seja o que for
onde estou
algo acontece
numa posição delimitada pelo temporal
Perto do espelho é um erro
onde estou é apenas uma pomba
mas o outro pensava:
algo acontece
numa posição delimitada
deslizando entre os meus lábios
será o fim do mundo?
é uma delícia seja o que for
seu corpo leve respira pelo temporal
Numa posição delimitada
perto do gelo que respira
seu corpo leve deslizando entre os meus lábios
será o fim do mundo?
mas o outro pensava: é uma delícia
algo acontece seja o que for
pelo temporal é apenas uma pomba
onde estou é um erro
Será o fim do mundo que respira
seu corpo leve? Mas o outro pensava:
onde estou perto do espelho
é uma delícia numa posição delimitada
seja o que for é um erro
algo acontece pelo temporal
é apenas uma pomba
deslizando entre os meus lábios
É apenas uma pomba
numa posição delimitada
onde estou pelo temporal
mas o outro pensava:
quem respira perto do espelho
será o fim do mundo?
seja o que for é uma delícia
algo acontece
deslizando entre os meus lábios
seu corpo leve
(tradução de Laura Erber)
:
Son corps léger
est-il la fin du monde?
c’est une erreur
c’est une délice glissant
entre mes lèvres
près de la glace
mais l’autre pensait:
ce n’est qu’une colombe qui respire
quoi qu’il en soit
là où je suis
il se passe quelque chose
dans une position délimitée par l’orage
Près de la glace c’est une erreur
là où je suis ce n’est qu’une colombe
mais l’autre pensait:
il se passe quelque chose
dans une position délimitée
glissant entre mes lèvres
est-ce la fin du monde?
c’est une délice quoi qu’il en soit
sons corps léger respire par l’orage
Dans une position délimitée
près de la glace qui respire
sons corps léger glissant entre mes lèvres
est-ce la fin du monde?
mais l’autre pensait: c’est une délice
il se passe quelque chose quoi qu’il en soit
par l’orage ce n’est qu’une colombe
là où je suis c’est une erreur
Est-ce la fin du monde qui respire
son corps léger? mais l’autre pensait:
là où je suis près de la glace
c’est une délice dans une position délimitée
quoi qu’il en soit c’est une erreur
il se passe quelque chose par l’orage
ce n’est qu’une colombe
glissant entre mes lèvres
Ce n’est qu’une colombe
dans une position délimitée
là où je suis par l’orage
mais l’autre pensait:
qui respire près de la glace
est-ce la fin du monde?
Quoi qu’il en soit c’est une délice
Il se passe quelque chose
c’est une erreur
glissant entre mes lèvres
son corps léger
Os editores da Modo de Usar & Co. agradecem à poeta carioca Laura Erber por ter gentilmente permitido a publicação destas traduções.
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1 316

20 de novembro de 19..

Prezado,
E no entanto no momento em que pronuncio o seu nome, faço de você quase uma orquestra e eis-nos de volta ao ponto em que éramos ainda surdos senão separados. Com efeito, uma cisão é uma relação que serve para explicar aquilo que não pode ser senão catanrolado, murmurado, cochichado...
Você se abandonou ao erro de me considerar como uma realidade objetiva definida pelo horizonte de seu mundo.
Eu não sei o que você quer dizer. Eu não vejo ninguém, eu não vejo nada, eu nunca vi nada. Quanto mais eu reflito, menos eu vejo coisas, e menos eu vejo coisas, mais elas me arrepiam. Eu não posso dizer aquilo que não vejo.
Nós o sabemos bem, nós, não é, meu amigo. Tudo isso, é um erro, é tormento e zombaria, e vamos cessar o mais depressa possível.
:
20 novembre 19..
Monsieur,
Et pourtant au moment où je prononce votre nom, je fais de vous presque un orchestre et nous voilà ramenés au point où nous étions encore sourds sinon separes. En effet, ine scission c’est une relation servant à expliquer ce quin e peut qu’être fredonné, murmuré, chuchoté...
Vous vous êtes laissé aller à l’erreur de me considérer comme une réalité objective définie par l’horizon de votre monde.
Je ne sais pas ce que vous voulez dire. Je ne vois personne, je ne vois rien, je n’ai jamais rien vu. Plus j’y réfléchis, moins je vois de choses, et moins je vois de choses, plus elles me font fremir. Je ne puis dire ce que je ne vois pas.
Nous le savons bien, nous, n’est-ce pas, mona mi. Tout ça, c’est une erreur, c’est du tourment et des plaisanteries, et nous allons cesser le plus vite possible.
715

24 de novembro de 19..

Prezado,
Evidentemente, estou sob o encanto, e o maravilhoso da situação é que sei perfeitamente, mesmo nesse momento, que o estou: mas eu me abandono, é um antídoto, e dele tenho mais de um tipo. Recebo atualmente novidades bastante inquietantes sobre a linguagem. Mas diante da alegria de lhe escrever, que outra coisa no mundo me importa? É a pergunta que me faço todos os dias: estou deslumbrado, embriagado por meu anonimato.


24 novembre 19..

Monsieur,
Évidemment, je suis sous le charme, et le merveilleux de l’affaire est que je sais parfaitement, même en ce moment, que je le suis: mais je m’y abandonne, c’est un antidote, et j’en ai de plus d’une sorte. Je reçois actuellement des nouvelles assez inquietantes sur le langage. Mãos auprès de la joie de vous écrire, quelle chose m’importe au monde? C’est la question que je me pose tous les jours: je suis ébloui, enivré de mon anonymat.

(Traduções de Laura Erber)
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Identificação e contexto básico

Ghérasim Luca, nascido a 26 de julho de 1913 em Bucareste, Roménia, e falecido a 10 de dezembro de 1994 em Paris, França, foi um poeta, ensaísta e artista plástico de origem romena, que se naturalizou francês. Utilizou o seu próprio nome ao longo da sua carreira literária. A sua origem familiar era de classe média e o contexto cultural de Bucareste na época era vibrante e efervescente, com forte influência europeia. A sua língua de escrita principal foi o francês, embora tenha escrito inicialmente em romeno. Viveu um período de grande instabilidade política e social na Europa, marcado pelas duas Guerras Mundiais e pela Guerra Fria.

Infância e formação

Luca cresceu em Bucareste numa família de classe média. A sua formação educacional envolveu estudos em Bucareste, onde teve contacto com uma atmosfera intelectualmente estimulante. Desde cedo, mostrou interesse pela literatura e pela experimentação, absorvendo influências de movimentos artísticos e filosóficos que começavam a despontar na Europa. A sua juventude foi marcada pela efervescência cultural da capital romena e pelas transformações sociais e políticas do período entre guerras.

Percurso literário

O início da escrita de Ghérasim Luca deu-se em língua romena, mas foi em Paris, a partir de 1945, que a sua obra ganhou uma nova dimensão, predominantemente em francês. A sua escrita evoluiu de forma contínua, sempre marcada pela experimentação e pela rutura com as formas tradicionais. Colaborou com diversas revistas literárias e artísticas, nomeadamente ligadas ao surrealismo. Para além da poesia, dedicou-se à escrita de ensaios e à exploração de outras linguagens artísticas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Ghérasim Luca é vasta e heterogénea, incluindo livros de poesia como "Un-serviteur" (1961), "Sens-débords" (1970), "Le vampire passif" (1971), entre outros. Os temas centrais da sua obra giram em torno da identidade, do corpo, da sexualidade, do absurdo da existência, da linguagem e da sua capacidade de subversão. Luca explorou o verso livre e a prosa poética, com um estilo caracterizado pela fragmentação, pela sonoridade, pelo jogo de palavras e pela criação de neologismos. A sua voz poética é muitas vezes visceral, interrogativa e provocadora, desafiando o leitor a questionar a realidade e a linguagem. Introduziu inovações na forma como a linguagem era explorada, desconstruindo a sintaxe e a semântica. O seu trabalho está fortemente associado ao surrealismo, movimento que absorveu e revitalizou com a sua originalidade. Obras menos conhecidas incluem as suas incursões na arte plástica e no cinema.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ghérasim Luca viveu numa época de profundas convulsões históricas, incluindo a Segunda Guerra Mundial e o regime comunista na Roménia, que o levaram ao exílio. A sua ligação ao surrealismo, em especial com André Breton, foi um marco importante. Manteve relações com diversos artistas e intelectuais do seu tempo, participando ativamente na cena artística parisiense. A sua obra reflete a angústia existencial e a busca por liberdade criativa num mundo em constante mudança.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Luca teve uma vida marcada pela instabilidade e pela procura de refúgio e liberdade. As suas relações pessoais e a sua experiência de exílio e de marginalidade no meio literário influenciaram profundamente a sua visão de mundo e a sua obra. A sua dedicação à arte foi total, tendo sido um artista multifacetado.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora Ghérasim Luca não tenha alcançado um reconhecimento massivo em vida, a sua obra foi admirada por círculos restritos de artistas e intelectuais, especialmente os ligados ao surrealismo. A sua importância tem vindo a ser cada vez mais reconhecida, com estudos académicos e reedições da sua obra, consolidando o seu lugar como um dos poetas experimentais mais relevantes do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Luca foi influenciado por autores surrealistas e por uma abordagem experimental da linguagem. O seu legado reside na forma como expandiu os limites da poesia, na sua exploração radical da palavra e na sua capacidade de criar uma obra transgressora e profundamente original. Influenciou gerações posteriores de poetas que procuram novas formas de expressão e subversão linguística. A sua obra continua a ser objeto de estudo e admiração pela sua audácia e originalidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ghérasim Luca tem sido objeto de diversas interpretações, focando-se na sua exploração da linguagem como meio de desconstrução da realidade e na sua abordagem das questões existenciais e da condição humana. A sua poesia é frequentemente analisada sob a ótica do surrealismo, mas também como uma voz única que transcende movimentos.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Luca experimentou com diversas técnicas de escrita, incluindo o uso de sons e fonemas de forma inovadora. Foi também um praticante de artes visuais, com incursões no cinema e na pintura, demonstrando uma amplitude criativa notável.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ghérasim Luca faleceu em Paris, deixando um corpo de obra que continua a desafiar e a inspirar. As suas publicações póstumas e a contínua reavaliação crítica da sua obra asseguram a sua persistência na memória literária e artística.