Giuseppe Ungaretti

Giuseppe Ungaretti

1888–1970 · viveu 82 anos IT IT

Giuseppe Ungaretti foi um poeta italiano, considerado um dos mais importantes representantes do hermetismo e uma figura central na poesia italiana do século XX. A sua obra é marcada pela busca da palavra essencial, pela intensidade lírica e pela reflexão sobre a fragilidade da existência humana, especialmente em tempos de guerra. A sua poesia, concisa e profunda, explora temas como a solidão, a morte, a memória e a busca pela redenção. Com uma linguagem depurada e um ritmo fragmentado, Ungaretti inovou na forma poética, utilizando versos curtos e o verso livre para expressar a intensidade das suas emoções e a universalidade da condição humana. A sua experiência na Primeira Guerra Mundial teve um impacto profundo na sua escrita, conferindo-lhe um tom de urgência e de procura por um sentido maior na vida.

n. 1888-02-08, Alexandria · m. 1970-06-01, Milão

19 410 Visualizações

Vigília

Uma noite inteira
atirado ao lado
de um camarada
massacrado
com a sua boca
desgrenhada
voltada à lua-cheia

com a congestão
das suas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas plenas de amor

Nunca me senti
tão
preso à vida.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Giuseppe Ungaretti nasceu em Alexandria, no Egito, em 8 de fevereiro de 1888, e faleceu em Milão, Itália, em 1 de junho de 1970. Foi um dos mais proeminentes poetas italianos do século XX, figura chave do movimento hermético. Escreveu em italiano.

Infância e formação

Ungaretti passou a infância e a juventude em Alexandria, onde teve contacto com diversas culturas. A sua formação foi marcada por estudos literários e filosóficos, absorvendo influências da poesia francesa simbolista, de pensadores como Nietzsche e de filósofos existencialistas. A experiência do cosmopolitismo egípcio contribuiu para a sua visão de mundo.

Percurso literário

O início da sua atividade literária deu-se com a publicação de poemas em revistas parisienses. A sua grande obra, 'Il porto sepolto' (O porto sepulto), publicada em 1916, marcou o início da sua estética hermética. Ao longo da sua carreira, a sua poesia evoluiu, mantendo a procura pela palavra essencial, mas integrando reflexões mais amplas sobre a vida e a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Ungaretti incluem 'Il porto sepolto' (1916), 'Allegria di naufragi' (Alegria de naufrágios, 1919, posteriormente reeditada como 'L'Allegria'), 'Sentimento del Tempo' (Sentimento do Tempo, 1933) e 'Il Dolore' (A Dor, 1947). Os temas centrais da sua obra são a solidão, a morte, a memória, a fragilidade da vida, a dor e a busca por uma redenção ou um sentido transcendente. O seu estilo é caracterizado pela concisão, pela busca da 'palavra pura' ou 'essencial', pelo uso do verso livre, pela fragmentação e pela musicalidade. Ungaretti inovou na poesia italiana ao depurar a linguagem e ao dar uma nova intensidade ao verso, rompendo com a retórica tradicional. É frequentemente associado ao Hermetismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ungaretti viveu os turbulentos eventos do século XX, incluindo a Primeira Guerra Mundial, na qual participou como soldado, e a ascensão do fascismo. A sua experiência de guerra, vivida nas trincheiras, marcou profundamente a sua poesia, conferindo-lhe um tom de desolação e de profunda humanidade. Foi contemporâneo de outros grandes poetas italianos como Eugenio Montale e Salvatore Quasimodo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Ungaretti teve uma vida marcada por perdas pessoais, incluindo a morte de um filho, que o afetaram profundamente e se refletiram na sua obra, como em 'Il Dolore'. A sua experiência como soldado na Primeira Guerra Mundial foi um marco decisivo. Exerceu também a docência universitária em literatura italiana.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Giuseppe Ungaretti é amplamente reconhecido como um dos maiores poetas italianos do século XX. Recebeu vários prémios literários e a sua obra é estudada em universidades de todo o mundo. A sua poesia é valorizada pela sua profundidade existencial e pela sua inovação formal.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Ungaretti foi influenciado pelo simbolismo francês e por poetas como Leopardi. Por sua vez, influenciou gerações posteriores de poetas italianos e europeus, com a sua busca pela palavra essencial e a sua abordagem a temas existenciais. A sua obra é fundamental para a compreensão da poesia moderna.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ungaretti é frequentemente analisada sob a perspetiva existencialista, explorando a condição humana face à finitude e ao sofrimento. A sua poesia é vista como uma tentativa de encontrar luz e sentido em meio à escuridão da existência.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Ungaretti passou grande parte da sua juventude no Egito, uma experiência que moldou a sua visão cosmopolita e a sua sensibilidade para com o 'outro'. A sua técnica de 'poesia-fragmento', com versos isolados e curtos, foi uma inovação radical.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Giuseppe Ungaretti faleceu em 1970, deixando um legado poético imenso. Após a sua morte, continuaram a surgir estudos e edições críticas da sua obra, consolidando a sua memória como um dos pilares da literatura italiana.

Poemas

8

Vigília

Uma noite inteira
atirado ao lado
de um camarada
massacrado
com a sua boca
desgrenhada
voltada à lua-cheia

com a congestão
das suas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas plenas de amor

Nunca me senti
tão
preso à vida.
2 346

PORTO SEPULTO

Aí chega o poeta
e depois volta à luz com seus cantos
e os dispersa.

Desta poesia
resta-me um
nada
de inexaurível segredo.

1 757

Manhã

Manhã

Ilumino-me
de imenso




Tradução de Sérgio Wax

Mattina

M'illumino
d'immenso

3 769

Campo

Villa di Garda, abril de 1918


A terra
se cobriu
de tenra
leveza

Como uma esposa
nova
oferece
atônita
ao filho
o pudor
sorridente
de mãe

(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)


:


Prato
Villa di Garda aprile 1918

La terra
s'è velata
di tenera
leggerezza

Come una sposa
novella
offre
allibita
alla sua creatura
il pudore
sorridente
di madre



1 152

Hino à morte

Amor, meu emblema de jovem,
Que volta a dourar a terra,
Difuso no dia rupestre,
É a última vez que contemplo
(Ao pé deste barranco, de impetuosas
águas, suntuoso, funesto
De antros) o rastro de luz
Que, como a lastimosa rolinha
Inquieta, meandra no gramado.
Amor, salvação fulgurosa,
Pesam-me os anos do porvir.
Largado o bastão fiel,
Resvalarei para a água sombria
Sem um queixume.
Morte, árido rio ...
Imêmore irmã, morte,
Igual ao sonho me farás
Beijando-me.
Terei teu mesmo passo,
Irei sem deixar traço.
Tu me darás o coração indiferente
De um deus, serei inocente,
Sem pensamentos, nem cuidados.
Com a mente murada,
Com os olhos caídos em esquecimento,
Far-me-ei guia da felicidade.
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Inno alla morte
Giuseppe Ungaretti
Amore, mio giovine emblema,
Tornato a dorare la terra,
Diffuso entro il giorno rupestre,
É l'ultima volta che miro
(Appiè del botro, d'irruenti
Acque sontuoso, d'antri
Funesto) la scia di luce
Che pari alla tortora lamentosa
Sull'erba svagata si turba.
Amore, salute lucente,
Mi pesano gli anni venturi.
Abbandonata la mazza fedele,
Scivolerò nell'acqua buia
Senza rimpianto.
Morte, arido fiume...
Immemore sorella, morte,
L'uguale mi farai del sogno
Baciandomi.
Avrò il tuo passo,
Andrò senza lasciare impronta.
Mi darai il cuore immobile
D'un iddio, sarò innocente,
Non avrò più pensieri nè bontà.
Colla mente murata,
Cogli occhi caduti in oblio,
Farò da guida alla felicità.
(1925)
1 521

San Martino del Carso

Valloncello dell'Albero Isolato, 27 de agosto de 1916


Destas casas
nada sobrou
senão alguns
pedaços de muro

De quantos
me foram próximos
nada sobrou
nem tanto

No coração porém
nenhuma cruz me falta

É o meu coração
a região mais destroçada

(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)


:



Valloncello dell'Albero Isolato il 27 agosto 1916

Di queste case
non è rimasto
che qualche
brandello di muro

Di tanti
che mi corrispondevano
non è rimasto
neppure tanto

Ma nel cuore
nessuna croce manca

È il mio cuore
il paese più straziato



1 647

QUIETUDE

A uva é madura, o campo lavrado,

destaca-se o monte das nuvens

Nos empoeirados espelhos do estio
caída é a sombra.

Entre os dedos incertos
a luz deles é clara
e longínqua.

Com andorinhas foge
o último tormento.

1 790

À MEMÓRIA DE

Chamava-se
Maomé Cheabe
Descendente
dos emires dos nómadas
suicida
porque não tinha já
pátria

Amou a França
e mudou de nome

Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café

E não sabia soltar
o canto
do seu abandono

Acompanhei-o
junto com a patroa do hotel
onde habitávamos
em Paris
no nº 5 da Rue des Carmes
murcha viela em descida

Repousa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre em dia
de uma
feira levantada.

E talvez eu só
ainda saiba
que viveu.

1 622

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