Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

1884–1914 · viveu 30 anos BR BR

Augusto dos Anjos foi um poeta brasileiro, considerado um dos maiores vultos da poesia em língua portuguesa. Sua obra é marcada por um profundo pessimismo, temas como a morte, a decomposição e o materialismo científico. Utilizou uma linguagem rigorosa e um vocabulário erudito, muitas vezes associado à ciência de sua época, o que lhe conferiu um estilo singular e inovador para o seu tempo. Apesar de ter publicado um único livro em vida, "Eu", sua influência na poesia brasileira é inegável, antecipando muitas das preocupações e experimentações que marcariam o modernismo.

n. 1884-04-20, Sapé · m. 1914-11-12, Leopoldina

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Versos Íntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Pau d'Arco, 1906


Publicado no livro Eu (1912).

In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.129-130. (Ensaios, 32
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Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo: Augusto César de Oliveira dos Anjos. Pseudónimo: Augusto dos Anjos. Data e local de nascimento: 20 de abril de 1884, em Sapé, Paraíba, Brasil. Data e local de morte: 28 de novembro de 1914, em Resende, Rio de Janeiro, Brasil. Origem familiar, classe social e contexto cultural de origem: Filho de um professor primário, teve acesso a uma formação cultural e intelectual sólida. A família pertencia à pequena burguesia intelectual paraibana. Nacionalidade e língua(s) de escrita: Brasileiro, escreveu em português. Contexto histórico em que viveu: Viveu o final do século XIX e o início do século XX, um período de transição no Brasil, marcado pelo fim da República Velha e pela consolidação de um pensamento científico que se contrapunha às visões religiosas e filosóficas tradicionais. A Belle Époque brasileira e as influências europeias também faziam parte do cenário cultural.

Infância e formação

Desde cedo demonstrou grande inteligência e aptidão para os estudos. Fez o curso secundário no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, onde se destacou em disciplinas como latim e filosofia. Graduou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro em 1903. Influências iniciais (leituras, cultura, religião, política): Foi profundamente influenciado pelo positivismo de Auguste Comte, pelo materialismo científico de autores como Darwin e Haeckel, e pela filosofia de Schopenhauer e Nietzsche. A leitura de poetas parnasianos, como Olavo Bilac, também marcou seu estilo inicial, embora tenha desenvolvido um caminho próprio. Movimentos literários, filosóficos ou artísticos que absorveu: Absorveu as ideias do cientificismo e do materialismo que permeavam o pensamento da época, bem como as tendências do Parnasianismo em sua forma e rigor, mas subverteu o conteúdo otimista e esteticista desse movimento com uma visão sombria e pessimista. Eventos marcantes na juventude: A morte prematura de alguns de seus filhos e a própria fragilidade de sua saúde marcaram profundamente sua visão de mundo e sua obra.

Percurso literário

Início da escrita (quando e como começou): Começou a escrever poesia desde a adolescência, influenciado pelo ambiente literário e acadêmico que frequentava. Sua formação em Direito e seu interesse pela ciência refletiram-se na poesia. Evolução ao longo do tempo (fases, mudanças de estilo): Sua obra é relativamente homogênea em termos temáticos e estilísticos, concentrando-se na exploração do pessimismo, da morte e da ciência. O que se percebe é uma consolidação de seu estilo único, que não sofreu grandes alterações drásticas. Evolução cronológica da obra: Publicou seu principal e único livro em vida, "Eu", em 1912. A maior parte de sua produção poética conhecida foi reunida postumamente. Colaborações em revistas, jornais e antologias: Colaborou em diversos jornais e revistas literárias de sua época, como "A Imprensa", "A Gazeta de Notícias", "O Malho", "Fon-Fon", entre outros. Participou de algumas antologias, mas seu destaque veio com a publicação de seu livro. Atividade como crítico, tradutor ou editor: Não se tem registro de atividade significativa como crítico, tradutor ou editor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais com datas e contexto de produção: "Eu" (1912). O livro foi publicado em edição própria e teve pouca repercussão inicial, mas consolidou seu estilo intransigente e inovador. Temas dominantes — amor, morte, tempo, natureza, identidade, espiritualidade, etc.: A morte, a decomposição da matéria, o tédio, o pessimismo existencial, a fragilidade humana, o determinismo científico, o cosmos como um lugar de sofrimento e indiferença. Forma e estrutura — uso do soneto, verso livre, forma fixa, experimentação métrica: Utilizou preferencialmente o soneto, mas com uma métrica e rima rigorosas, que conferiam uma estrutura clássica à sua poesia. No entanto, o conteúdo subvertia essa forma com sua temática sombria e científica. Recursos poéticos (metáfora, ritmo, musicalidade): Empregou metáforas de cunho científico e biológico, com um ritmo grave e cadenciado. A musicalidade é mais cerebral do que sensorial, refletindo a natureza de sua poesia. Tom e voz poética — lírico, satírico, elegíaco, épico, irónico, confessional: O tom predominante é o elegíaco e o confessional, mas tingido por um pessimismo radical e uma objetividade científica. Há uma ironia amarga na constatação da insignificância humana. Voz poética (pessoal, universal, fragmentada, etc.): A voz poética é intensamente pessoal em seu sofrimento, mas almeja uma universalidade ao tratar de questões existenciais profundas. Linguagem e estilo — vocabulário, densidade imagética, recursos retóricos preferidos: Linguagem precisa, erudita, com vocabulário científico e técnico (física, química, biologia, medicina). Utilizou recursos retóricos como a hipérbole e a antítese para expressar a dualidade entre o espírito e a matéria, a vida e a morte. A densidade imagética é marcada pela crueza e pelo grotesco da decomposição. Inovações formais ou temáticas introduzidas na literatura: Introduziu na poesia brasileira uma temática científica e materialista com um rigor e uma originalidade sem precedentes. A fusão do vocabulário científico com a forma poética foi uma inovação marcante. Relação com a tradição e com a modernidade: Rompeu com o sentimentalismo romântico e com o esteticismo parnasiano, antecipando a busca por uma poesia mais cerebral e engajada com as descobertas científicas, o que o alinha a algumas preocupações do Modernismo. Movimentos literários associados (ex: simbolismo, modernismo): Embora não se filie estritamente a um movimento, é frequentemente associado a uma transição entre o Parnasianismo e o Modernismo, sendo considerado um precursor de ambos. Obras menos conhecidas ou inéditas: "Psicologia de um Vencido" e "A Viagem", poemas que fazem parte de "Eu", mas que frequentemente são destacados individualmente.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Relação com acontecimentos históricos (guerras, revoluções, regimes): Viveu num período de grandes transformações sociais e científicas, mas sua obra parece mais voltada para as questões existenciais e filosóficas do que para o engajamento direto com eventos históricos específicos. Relação com outros escritores ou círculos literários: Manteve contato com diversos intelectuais e escritores da época, mas seu estilo e temática o isolaram um pouco dos círculos mais convencionais. Era admirado por alguns, incompreendido por outros. Geração ou movimento a que pertence (ex.: Romantismo, Modernismo, Surrealismo): É difícil enquadrá-lo em uma única geração ou movimento. Sua obra dialoga com o Parnasianismo, mas é mais sombria e científica, antecipando elementos do Modernismo. Posição política ou filosófica: Sua filosofia é marcadamente materialista e pessimista, influenciada pelo cientificismo e pelo determinismo. Não há registro de um engajamento político explícito. Influência da sociedade e cultura na obra: A disseminação das teorias científicas e a crise dos valores tradicionais na virada do século XIX para o XX influenciaram diretamente sua visão de mundo e, consequentemente, sua obra. Diálogos e tensões com contemporâneos: Seus contemporâneos reagiram de forma dividida. Alguns o admiravam pela originalidade e rigor; outros o criticavam pelo pessimismo e pela linguagem considerada pouco lírica. Receção crítica em vida vs. reconhecimento póstumo: Em vida, sua obra teve pouca repercussão. O reconhecimento de sua importância como poeta se deu principalmente após sua morte, com a redescoberta e valorização de seu estilo único e de sua visão de mundo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Relações afetivas e familiares significativas e como moldaram a obra: Casou-se com Cecília de Meireles (homônima da poeta) e teve filhos. A perda de alguns deles em tenra idade contribuiu para o aprofundamento de sua visão pessimista e para a exploração do tema da morte em sua obra. Amizades e rivalidades literárias: Manteve amizade com alguns intelectuais, mas não há registro de grandes rivalidades literárias documentadas. Experiências e crises pessoais, doenças ou conflitos: Sofreu de tuberculose, doença que o acompanhou em seus últimos anos e que, provavelmente, intensificou seu pessimismo e sua obsessão com a morte e a fragilidade do corpo. Profissões paralelas (se não viveu só da poesia): Foi professor de literatura no Ginásio Nilo Peçanha e, posteriormente, professor de português no Colégio Pedro II. Não viveu exclusivamente da poesia. Crenças religiosas, espirituais ou filosóficas: Sua filosofia era estritamente materialista e científica, o que o afastava de crenças religiosas tradicionais. Posições políticas e envolvimento cívico: Não há registro de envolvimento cívico ou posições políticas explícitas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lugar na literatura nacional e internacional: É considerado um dos poetas mais originais e importantes da literatura brasileira, com um lugar de destaque na poesia do século XX. Sua obra também é estudada e reconhecida internacionalmente. Prémios, distinções e reconhecimento institucional: Não recebeu prêmios ou distinções significativas em vida. O reconhecimento se deu postumamente. Receção crítica na época e ao longo do tempo: Em vida, a recepção foi tímida. A partir da segunda metade do século XX, sua obra passou a ser amplamente estudada e admirada pela crítica, que reconheceu sua genialidade e sua vanguarda temática e estilística. Popularidade vs reconhecimento académico: Sua popularidade junto ao público geral pode não ser tão expressiva quanto a de outros poetas, mas seu reconhecimento no meio académico e entre os estudiosos de literatura é imenso.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Autores que o influenciaram: Auguste Comte, Charles Darwin, Ernst Haeckel, Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche, Olavo Bilac. Poetas e movimentos que influenciou: Influenciou poetas modernos e contemporâneos com sua abordagem científica da poesia, seu pessimismo e sua linguagem rigorosa. Foi um precursor na exploração de temas existenciais sob uma ótica materialista. Impacto na literatura nacional e mundial e gerações posteriores de poetas: Seu impacto na literatura brasileira é profundo, abrindo caminhos para a experimentação e para a poesia que dialoga com o conhecimento científico. Sua obra continua a ser uma referência para a poesia que busca confrontar o ser humano com suas angústias existenciais. Entrada no cânone literário: É figura consolidada no cânone da literatura brasileira, presente em antologias e estudos sobre a poesia nacional. Traduções e difusão internacional: Sua obra tem sido traduzida para diversas línguas, ampliando seu alcance internacional e permitindo que leitores de outras culturas entrem em contato com sua poesia única. Adaptações (música, teatro, cinema): Há poucas adaptações diretas de sua obra para outras mídias, mas sua influência pode ser percebida em diversas criações artísticas. Estudos académicos dedicados à obra: A obra de Augusto dos Anjos é objeto de inúmeros estudos acadêmicos, teses de mestrado e doutorado, e artigos críticos que analisam sua poesia sob diversas perspectivas.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica Leituras possíveis da obra: A obra pode ser lida como um manifesto do desespero humano diante da finitude, da dor e da indiferença cósmica. Também como uma tentativa de reconciliar a poesia com a ciência, explorando os limites do conhecimento e da existência. Temas filosóficos e existenciais: Pessimismo radical, niilismo, a natureza da consciência, a relação entre corpo e espírito, a insignificância do ser humano no universo, a inevitabilidade da morte e da decomposição. Controvérsias ou debates críticos: Um dos debates centrais gira em torno de sua classificação: seria um poeta parnasiano com temática sombria, um precursor do simbolismo ou do modernismo, ou uma figura isolada e única? Sua linguagem científica também gerou discussões sobre a poesia ser ou não um veículo adequado para tais termos.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da personalidade: Apesar da aparente frieza e do rigor científico em sua obra, há relatos de que possuía um senso de humor ácido e uma sensibilidade para com as mazelas sociais. Contradições entre vida e obra: A aparente contradição reside em um poeta tão obcecado com a morte e a decomposição ter sido um professor dedicado e um homem com uma vida familiar relativamente estável, embora marcada pela tragédia. Episódios marcantes ou anedóticos que iluminam o perfil do autor: Sua insistência em publicar o livro "Eu" por conta própria, diante da pouca receptividade inicial, demonstra sua convicção em sua própria obra. Objetos, lugares ou rituais associados à criação poética: Não há registros de objetos ou rituais específicos, mas seu ambiente de estudo e sua vasta biblioteca pessoal eram fundamentais para sua pesquisa e criação. Hábitos de escrita: Dedicava-se com afinco aos estudos científicos e filosóficos, que embasavam sua poesia. A escrita era um processo rigoroso, quase laboratorial. Episódios curiosos: A coincidência de seu nome com o de Cecília Meireles, a grande poeta modernista, é uma curiosidade que por vezes causa confusão. Manuscritos, diários ou correspondência: Conservam-se alguns manuscritos de seus poemas e parte de sua correspondência, que ajudam a traçar seu percurso intelectual e pessoal.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Circunstâncias da morte: Morreu de tuberculose em 1914, aos 30 anos, em Resende, Rio de Janeiro, onde se encontrava para tratamento. Publicações póstumas: Após sua morte, foram reunidos e publicados outros poemas, como "Os Novos Poemas" (1920), "Poesias Completas" (1948), e edições que expandiram o corpus de sua obra, consolidando sua reputação literária.

Poemas

65

Versos Íntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Pau d'Arco, 1906


Publicado no livro Eu (1912).

In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.129-130. (Ensaios, 32
58 177

Psicologia de um Vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigénesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia,
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário de ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida, em geral, declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Paraíba, 1909


Publicado no livro Eu (1912).

In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.64. (Ensaios, 32
96 022

A árvore da serra

As árvores, meu filho, não tem alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma!...

- Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa:
"Não mate a árvore, pai, para que eu viva!"
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra.
18 222

O deus-verme

Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme - é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

36 339

Eterna Mágoa

O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
E que essa mágoa infinda assim não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

14 064

Idealismo

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?!

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
-- Alavanca desviada do seu fulcro --

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

14 464

Debaixo do Tamarindo

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei biliões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!

Paraíba, 1909


Publicado no livro Eu (1912).

In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.69. (Ensaios, 32
16 733

Último credo

Como ama o homem adúltero o adultério
E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
Amo o coveiro - este ladrão comum
Que arrasta a gente para o cemitério!

É o trancendentalíssimo mistério!
É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,
É a morte, é esse danado número Um
Que matou Cristo e que matou Tibério!

Creio, como o filósofo mais crente,
Na generalidade decrescente
Com que a substância cósmica evolui ...

Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular que eu ontem fui!

5 140

O Lamento das Coisas

Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada!

É a dor da Força desaproveitada,
— O cantochão dos dínamos profundos.
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!

É o soluço da forma ainda imprecisa...
Da transcendência que se não realiza...
Da luz que não chegou a ser lampejo...

E é, em suma, o subconsciente aí formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!

Rio, 1914


Publicado no livro Eu: poesias completas (1920). Poema integrante da série Outras Poesias.

In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.159. (Ensaios, 32
9 997

Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas,
Cintilações de lâmpadas suspensas,
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais,
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a Imagem dos meus próprios sonhos!

Pau d'Arco, 1904

Publicado no livro Eu (1912).

In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.129. (Ensaios, 32
19 285

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Comentários (8)

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Creepy

Um das maiores mentes, criatividade e melancolia. Está ótica sempre me agrada.

robertinho de roberto
robertinho de roberto

Augusto dos Anjos, precisei usar dicionário; na busca de auxilio para entender a quarta palavra cansei! Fechei o livro e o dicionário! Guardei " A ÁRVORE DA SERRA " !

rainha (litle popcorn)
rainha (litle popcorn)

esta obra de arte ira fazer parte de uma das minhas musicas

paulin  jr da regulagem
paulin jr da regulagem

increviel

paulão da regulagem
paulão da regulagem

legal