Harry Martinson

Harry Martinson

1904–1978 · viveu 73 anos SE SE

Harry Martinson foi um poeta, escritor e ensaísta sueco, laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1974. A sua obra, profundamente marcada pela natureza e pela reflexão sobre o destino humano e o cosmos, caracteriza-se por uma linguagem rica em imagens e uma profunda sensibilidade ecológica e existencial. Explorou temas como a relação do homem com o meio ambiente, a busca por sentido num universo em constante mudança e a crítica à sociedade industrial e bélica.

n. 1904-05-06, Blekinge · m. 1978-02-11, Estocolmo

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Ajuste de contas

A folhagem vespertina do final do verão se 
     escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
     Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
     em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
     às tardes de tranquilizantes.


Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
     homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias 
     rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
     anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
     tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo 
     jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
      que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
     que desejas sem sombra.


Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há 
     verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até 
     o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
     vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
     apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
      a consomes,
depois nada mais.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo: Harry Edmund Martinson Data e local de nascimento: 6 de maio de 1904, em Jämshög, Blekinge, Suécia. Data e local de morte: 11 de junho de 1978, em Estocolmo, Suécia. Origem familiar, classe social e contexto cultural de origem: Nasceu numa família de camponeses pobres. O pai faleceu quando Harry era muito jovem, e a mãe emigrou para os Estados Unidos, deixando os filhos aos cuidados de tutores. Esta origem humilde e a ausência parental marcaram profundamente a sua visão do mundo e a sua obra. Nacionalidade e língua(s) de escrita: Sueco. Contexto histórico em que viveu: Viveu grande parte do século XX, um período marcado por profundas transformações sociais, tecnológicas e políticas, incluindo as duas Guerras Mundiais, o avanço da industrialização, o desenvolvimento da energia nuclear e a Guerra Fria. Estes eventos e tendências são frequentemente refletidos na sua obra, com uma preocupação crescente com o futuro da humanidade e do planeta.

Infância e formação

Origem familiar e ambiente social: A sua infância foi marcada pela pobreza e pela ausência dos pais, tendo crescido numa sociedade rural. Foi acolhido por famílias de acolhimento e viveu em lares por vezes instáveis. Educação formal e autodidatismo: Frequentou a escola primária, mas a sua formação foi em grande parte autodidata. Trabalhou precocemente em diversas ocupações, incluindo como marinheiro, o que lhe proporcionou um vasto contacto com o mundo e as suas realidades. Influências iniciais (leituras, cultura, religião, política): As suas leituras foram vastas e ecléticas, incluindo poesia, filosofia e ciência. A experiência de vida como trabalhador e viajante moldou a sua perspetiva. A natureza sempre foi uma fonte primordial de inspiração e conhecimento. Não há registos de uma forte influência religiosa formal, mas a sua obra demonstra uma profunda espiritualidade e uma busca por significado. Movimentos literários, filosóficos ou artísticos que absorveu: Embora não se filie estritamente a um movimento específico, a sua obra dialoga com a tradição lírica sueca e, ao mesmo tempo, antecipa preocupações ecológicas e cósmicas que se tornariam mais proeminentes no século XX. A sua exploração de temas existencialistas e a sua preocupação com a condição humana ressoam com correntes filosóficas da época. Eventos marcantes na juventude: A saída de casa muito jovem, as experiências como marinheiro em longas viagens e a precocidade da sua consciência sobre a fragilidade da vida e a beleza da natureza foram eventos cruciais na sua formação.

Percurso literário

Início da escrita (quando e como começou): Começou a escrever poesia na juventude, como forma de expressar as suas experiências e a sua profunda ligação com a natureza. Publicou os seus primeiros poemas em revistas literárias. Evolução ao longo do tempo (fases, mudanças de estilo): A sua obra evoluiu de uma poesia mais ligada à natureza e às paisagens do sul da Suécia para uma reflexão mais abstrata e cósmica. As suas fases podem ser caracterizadas pela crescente preocupação com os temas da tecnologia, da guerra e do destino da civilização, culminando em obras de grande fôlego como "Aniara". Evolução cronológica da obra: Começou com coleções de poemas líricos e paisagísticos, evoluiu para poemas épicos e filosóficos que abordam questões universais e existenciais. Colaborações em revistas, jornais e antologias: Colaborou ativamente com diversas publicações literárias suecas ao longo da sua carreira. Atividade como crítico, tradutor ou editor: Foi também ensaísta e crítico literário, contribuindo para o debate cultural da sua época. Não há registos significativos de atividade como tradutor ou editor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais com datas e contexto de produção: - *Spökstaderna* (As Cidades Fantasma, 1929): Poesia, uma das suas primeiras obras. - *Landstorm* (A Tempestade da Terra, 1930): Poesia. - *Världsliga skälvningar* (Tremores Mundanos, 1931): Poesia. - *Se xefar sig* (Cegueira, 1934): Poesia. - *Han som fick leva om sitt liv* (Aquele que Teve a Vida Reencenada, 1934): Poesia. - *Nätterna* (As Noites, 1938): Poesia. - *Passad tuil* (Ventos Alísios, 1941): Poesia. - *Den blomstertid nu kommer* (Agora Vem o Tempo das Flores, 1941): Poesia. - *Kärlek i vindens land* (Amor na Terra do Vento, 1942): Poesia. - *Dikt om liv* (Poema sobre a Vida, 1945): Poesia. - *Tjuvarnas land* (A Terra dos Ladrões, 1948): Poesia. - *Aniara: En revy om människan i tiden* (Aniara: Uma Revista sobre o Homem no Tempo, 1956): Poema épico, a sua obra mais célebre, uma epopeia espacial que narra a viagem de uma nave de exílio da Terra devastada, explorando o desespero, a busca por sentido e a solidão humana. - *Vägen till Köknes* (O Caminho para Köknes, 1957): Poesia. - *Dikter om kärlek och död* (Poemas sobre Amor e Morte, 1960): Poesia. - *Kärl till en ö* (Vasos para uma Ilha, 1964): Poesia. - *Tekniken och människan* (A Tecnologia e o Homem, 1968): Ensaio. - *Vildmarkens frihet* (A Liberdade da Selva, 1969): Poesia. - *Klockor vid en annan strand* (Sinos Numa Outra Praia, 1970): Poesia. Temas dominantes — amor, morte, tempo, natureza, identidade, pátria, espiritualidade, etc.: Natureza (particularmente o mar e a paisagem sueca), a relação do homem com o cosmos e a tecnologia, o destino da humanidade, a solidão, a busca por sentido, a fragilidade da existência, a crítica à sociedade moderna e industrial, a espiritualidade e a transcendência. Forma e estrutura — uso do soneto, verso livre, forma fixa, experimentação métrica: Utilizou predominantemente o verso livre, com uma grande flexibilidade métrica e rítmica. Em "Aniara", a estrutura épica permite uma narrativa complexa e fragmentada, refletindo a fragmentação da experiência humana. Recursos poéticos (metáfora, ritmo, musicalidade): Rico em metáforas poderosas, imagens vívidas e uma forte musicalidade. A linguagem é densa, evocativa e muitas vezes onomatopaica, capturando os sons da natureza e a melancolia existencial. Tom e voz poética — lírico, satírico, elegíaco, épico, irónico, confessional: O tom varia entre o lírico contemplativo, o elegíaco melancólico, o épico grandioso em "Aniara" e, por vezes, o irónico ou profético. A voz poética é frequentemente pessoal e confessional, mas eleva-se a uma universalidade que reflete a condição humana. Voz poética (pessoal, universal, fragmentada, etc.): Combina a voz pessoal e íntima com uma dimensão universal e cósmica. Em "Aniara", a voz fragmentada reflete a angústia e a desorientação dos passageiros. Linguagem e estilo — vocabulário, densidade imagética, recursos retóricos preferidos: Linguagem precisa, por vezes árida, mas carregada de imagens sensoriais e intelectuais. Uso de aliterações, assonâncias e um vocabulário que transita entre o científico e o poético. O estilo é marcado pela concisão, pela força evocativa e pela capacidade de criar atmosferas densas. Inovações formais ou temáticas introduzidas na literatura: "Aniara" é considerada uma obra inovadora pela sua temática de ficção científica e pela sua abordagem existencial e ecológica numa forma épica poética. Introduziu uma sensibilidade cósmica na poesia sueca. Relação com a tradição e com a modernidade: Dialoga com a tradição lírica sueca, mas abraça as preocupações da modernidade, questionando o progresso tecnológico e a direção da sociedade. Movimentos literários associados (ex: simbolismo, modernismo): Embora não se vincule a um movimento único, a sua obra partilha afinidades com o modernismo pela sua experimentação formal e temática, e com o existencialismo pela sua profundidade filosófica. Obras menos conhecidas ou inéditas: A sua vasta obra poética, para além de "Aniara", inclui muitos outros poemas que exploram a natureza, a vida rural e a meditação sobre a existência. Algumas correspondências e escritos menos conhecidos foram publicados postumamente.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Relação com acontecimentos históricos (guerras, revoluções, regimes): As duas Guerras Mundiais, o desenvolvimento da bomba atómica e a Guerra Fria criaram um pano de fundo de apreensão e questionamento sobre o futuro da humanidade, temas centrais em "Aniara". Relação com outros escritores ou círculos literários: Foi uma figura importante na literatura sueca, com ligações a outros escritores e intelectuais da sua geração. Foi membro da Academia Sueca. Geração ou movimento a que pertence (ex.: Romantismo, Modernismo, Surrealismo): Considerado um dos grandes nomes da poesia sueca do século XX, partilhando com a geração modernista a preocupação com a renovação formal e temática. Posição política ou filosófica: As suas obras refletem uma postura crítica em relação à sociedade industrial, ao militarismo e à exploração desenfreada dos recursos naturais. Filosóficamente, a sua obra é marcada por uma profunda meditação sobre a condição humana, a solidão e a busca por significado. Influência da sociedade e cultura na obra: A sociedade sueca pós-guerra, com o seu progresso material mas também com as suas ansiedades existenciais, é um pano de fundo constante. A cultura da natureza, tão presente na Suécia, é um elemento fundamental. Diálogos e tensões com contemporâneos: Participou ativamente no debate cultural sueco, as suas obras dialogavam com as de outros escritores e artistas da época. Receção crítica em vida vs. reconhecimento póstumo: Recebeu reconhecimento em vida, mas o Prémio Nobel solidificou o seu lugar como um dos grandes poetas mundiais. Após a sua morte, a sua obra continuou a ser estudada e valorizada, especialmente pela sua relevância ecológica e existencial.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Relações afetivas e familiares significativas e como moldaram a obra: A ausência de uma estrutura familiar estável na infância e a perda precoce do pai deixaram uma marca profunda. A sua ligação com a natureza tornou-se um refúgio e uma fonte de consolo. Amizades e rivalidades literárias: Manteve relações com outros escritores suecos. Foi membro da Academia Sueca, o que implica reconhecimento e um certo círculo literário. Experiências e crises pessoais, doenças ou conflitos: Sofreu de tuberculose em jovem, o que o levou a abandonar a vida no mar e a dedicar-se mais intensamente à escrita. A sua vida foi marcada por uma introspeção profunda e, por vezes, por crises existenciais. Profissões paralelas (se não viveu só da poesia): Trabalhou como marinheiro, trabalhador agrícola, e ensaísta. A escrita tornou-se a sua principal atividade e fonte de sustento, embora com dificuldades em certas fases. Crenças religiosas, espirituais ou filosóficas: Embora não vinculado a uma religião institucionalizada, a sua obra revela uma profunda busca espiritual e uma admiração pelo mistério do universo e da vida. Posições políticas e envolvimento cívico: Não foi um ativista político no sentido convencional, mas as suas obras manifestam uma forte crítica social e uma preocupação com o futuro da humanidade e do planeta.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lugar na literatura nacional e internacional: Um dos poetas mais importantes da literatura sueca do século XX, com reconhecimento internacional significativo, especialmente após o Prémio Nobel. Prémios, distinções e reconhecimento institucional: Foi laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1974 (partilhado com Eyvind Johnson), para além de outros prémios suecos importantes. Foi membro da Academia Sueca. Receção crítica na época e ao longo do tempo: A sua obra foi amplamente elogiada pela crítica, que destacou a sua originalidade, a profundidade filosófica e a beleza da sua linguagem. A sua relevância ecológica tem sido cada vez mais reconhecida. Popularidade vs reconhecimento académico: Goza de um forte reconhecimento académico e crítico, e a sua obra "Aniara" atingiu um estatuto de culto, sendo popularizada através de adaptações.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Autores que o influenciaram: A tradição lírica sueca, mas também influências da poesia russa e francesa. A sua experiência pessoal e a observação da natureza foram as suas maiores fontes de inspiração. Poetas e movimentos que influenciou: Influenciou gerações posteriores de poetas suecos, particularmente aqueles interessados em temas ecológicos, cósmicos e existenciais. A sua abordagem à ficção científica poética abriu novos caminhos. Impacto na literatura nacional e mundial e gerações posteriores de poetas: Um marco na poesia sueca. A sua obra, especialmente "Aniara", continua a ressoar com preocupações contemporâneas sobre o ambiente e o futuro da humanidade. Entrada no cânone literário: Firmemente estabelecido no cânone literário sueco e amplamente reconhecido na literatura mundial. Traduções e difusão internacional: Traduzido para várias línguas, sendo "Aniara" a obra mais amplamente divulgada internacionalmente. Adaptações (música, teatro, cinema): "Aniara" foi adaptada para ópera, filme (2018) e peças de teatro, demonstrando a sua duradoura relevância cultural. Estudos académicos dedicados à obra: Vasta bibliografia académica e crítica em diversas línguas, analisando os seus temas, estilo e impacto.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica Leituras possíveis da obra: A obra pode ser lida como uma profunda meditação sobre a condição humana, a relação do homem com o universo, a fragilidade da civilização e a importância da natureza. "Aniara" é frequentemente interpretada como uma alegoria da viagem da humanidade através do tempo e do espaço, confrontada com o seu próprio destino. Temas filosóficos e existenciais: Aborda temas como o existencialismo, a busca por sentido numa existência aparentemente absurda, a solidão cósmica e a questão da liberdade e do determinismo. Controvérsias ou debates críticos: A concessão do Prémio Nobel em 1974 foi um tanto controversa na Suécia, tendo sido partilhada com Eyvind Johnson, mas o seu valor literário é hoje amplamente consensual.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da personalidade: Apesar da sua introspeção, era conhecido por ser um observador atento da vida e da natureza. As suas experiências de vida como marinheiro moldaram a sua perspetiva. Contradições entre vida e obra: Não há contradições marcantes, mas a sua profunda sensibilidade ecológica contrasta com a época em que a industrialização era vista predominantemente de forma positiva. Episódios marcantes ou anedóticos que iluminam o perfil do autor: A sua capacidade de capturar a essência da paisagem sueca e do mar em poucas palavras. Objetos, lugares ou rituais associados à criação poética: A natureza era o seu principal santuário. As paisagens do sul da Suécia e o mar Báltico foram fontes constantes de inspiração. Hábitos de escrita: Dedicou-se intensamente à escrita, explorando diferentes formas e temas ao longo da sua vida. Episódios curiosos: A sua longa e bem-sucedida carreira como poeta, aliada a uma vida marcada por provações, demonstra uma resiliência notável. Manuscritos, diários ou correspondência: Existem manuscritos e correspondência que ajudam a compreender o seu processo criativo e a sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Circunstâncias da morte: Morreu em Estocolmo em 11 de junho de 1978, vítima de cancro. Publicações póstumas: Várias coleções de poemas e escritos foram publicados postumamente, compilando material inédito ou menos conhecido.

Poemas

3

Aviso

Pelo Atlântico Norte viajou  dezessete anos
ondulando uma garrafa
com uma mensagem como passageira.
Frequentemente se assemelhava, em silêncio,
a um gigantesco vapor de Southampton.
Encalhou sem que a houvessem lido e ficou
     congelada
entre as geleiras da Costa do Labrador.
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Ajuste de contas

A folhagem vespertina do final do verão se 
     escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
     Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
     em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
     às tardes de tranquilizantes.


Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
     homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias 
     rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
     anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
     tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo 
     jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
      que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
     que desejas sem sombra.


Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há 
     verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até 
     o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
     vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
     apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
      a consomes,
depois nada mais.
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CAVALO E CAVALEIRO

Centenas de gerações
tornaram nobre o cavalo árabe
ao serviço de muitos príncipes degenerescentes.
Por vezes também as caudas que se agitaram por esses déspotas
acabaram por lançá-los no precipício,
enquanto o árabe que carregava o tirano
retesava os cascos no solo e estacava
à borda do abismo.

Assim são os cavalos e outros animais nobres.
Por isso Goya e outros grandes artistas
nos seus retratos de cavaleiros, maior atenção
consagraram ao cavalo
que ao pouco importante ocasional cavalgador,

fosse ele um grosseirão, ou um refinado,
um principiante da sela
ou um veterano dela.

O sonho de reunir com segurança cavaleiro e cavalo
acabou por tornar-se centauro,
cavaleiro que é sua própria montada.

Esse do cavaleiro o desejo sonhado
de não ser nunca derrubado.
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