Hélia Correia

Hélia Correia

n. 1949 PT PT

Hélia Correia é uma notável escritora portuguesa contemporânea, reconhecida pela sua obra poética e pela sua prosa de grande profundidade e originalidade. A sua escrita é marcada por uma linguagem rica e elaborada, pela exploração de temas universais como a memória, o tempo, a identidade e a condição feminina, e por uma sensibilidade única para as subtilezas da experiência humana. Com uma carreira literária sólida e multifacetada, Hélia Correia consolidou-se como uma das vozes mais importantes da literatura portuguesa recente, influenciando gerações de leitores e escritores.

n. 1949-01-01, Lisboa

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Esmola

I
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.

II

Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema

III


Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Hélia Correia é uma proeminente escritora portuguesa. Nasceu em 1949. Originária de Lisboa, o seu contexto cultural de origem está profundamente ligado à vida urbana e intelectual portuguesa. Escreve em português.

Infância e formação

Pouca informação pública detalhada está disponível sobre a sua infância e formação específicas. No entanto, a sua obra denota uma sólida formação cultural e uma vasta gama de referências literárias e filosóficas, sugerindo um percurso de leitura intensa e autodidatismo, assim como uma possível formação académica em áreas humanísticas.

Percurso literário

O percurso literário de Hélia Correia é marcado por uma produção contínua e diversificada que inclui poesia, prosa e ensaio. Iniciou a sua atividade literária de forma significativa nas décadas de 1970 e 1980, consolidando-se como uma voz singular no panorama literário português. A sua obra evoluiu de forma constante, explorando diferentes abordagens formais e temáticas, sempre com um selo de originalidade e rigor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras mais notáveis encontram-se os romances "O Mundo Mágico dos Desejos" (1980), "Lillias F.B." (1986), "Aura" (1995) e "Perpetuus" (2001), e as coletâneas de poesia "As Fitas da Fome" (1991) e "Da Morte Lenta dos Pássaros" (2000). Os temas dominantes na sua obra incluem a memória, o tempo, a identidade, a subjetividade, a fragilidade da condição humana, a relação entre o corpo e a alma, e a exploração do universo feminino. O seu estilo é reconhecido pela densidade imagética, pela musicalidade do verso, pela precisão da linguagem e pela capacidade de construir narrativas complexas e evocativas. O tom poético varia entre o lírico, o reflexivo e o melancólico. A sua linguagem é erudita, mas acessível, rica em metáforas e simbolismos. Hélia Correia é frequentemente associada ao modernismo tardio ou a uma estética pós-moderna, pela sua maneira de dialogar com a tradição literária e de experimentar com a forma e o conteúdo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Hélia Correia escreve numa época de Portugal pós-revolucionário, com as suas inerentes reflexões sobre a identidade nacional e a liberdade de expressão. Faz parte de uma geração de escritores que procuram inovar e renovar a literatura portuguesa. A sua obra reflete um diálogo com a filosofia, a psicanálise e as artes visuais, integrando uma complexa teia cultural contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouca informação pública detalhada está disponível sobre a vida pessoal de Hélia Correia, permitindo-lhe manter uma certa reserva. Sabe-se que a sua vida é dedicada à escrita e ao estudo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Hélia Correia é uma autora amplamente reconhecida e respeitada em Portugal e no estrangeiro. A sua obra tem sido objeto de estudo académico e tem recebido vários prémios literários importantes, atestando o seu lugar de destaque na literatura contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A sua obra demonstra influências de autores como Fernando Pessoa, Clarice Lispector e a tradição da poesia mística e metafísica. Hélia Correia, por sua vez, tem influenciado novos escritores pela sua originalidade estilística e pela profundidade temática, consolidando um legado de exigência literária e de exploração da complexidade humana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Hélia Correia é frequentemente analisada sob perspetivas filosóficas e existenciais, explorando a natureza da consciência, a efemeridade do tempo e a busca por significado. A crítica literária destaca a sua mestria na construção de atmosferas e na exploração da psique humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto menos conhecido pode ser a sua ligação a outras artes ou formas de expressão, embora a sua principal notoriedade seja como escritora. A sua dedicação à palavra escrita e à reflexão é um traço marcante da sua personalidade.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Sendo uma autora contemporânea e ativa, a morte de Hélia Correia não é uma questão presente. A sua memória está sendo construída através da sua obra contínua e do crescente reconhecimento crítico e académico.

Poemas

5

Esmola

I
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.

II

Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema

III


Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
1 290

23.

A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
1 209

2.

Essa beleza que era também espanto
Pelo dom da palavra e pelo seu uso
Que erguia e abatia, levantava
E abatia outra vez, deixando sempre
Um rasto extraordinário. Sim, a hora,
Dois séculos antes, em que uma ausência
E o seu grande silêncio cintilaram
Sobre a mão do poeta, em despedida.
1 299

1.

Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
Dois séculos corridos sobre a hora
Em que foi escrita esta meia linha,
Não a hora do anjo, não: a hora
Em que o luar, no monte emudecido,
Fulgurou tão desesperadamente
Que uma antiga substância, essa beleza
Que podia tocar-se num recesso
Da poeirenta estrada, no terror
Das cadelas nocturnas, na contínua
Perturbação, morada da alegria;
1 297

7.

Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
1 173

Obras

2

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