Luís Quintais

Luís Quintais

n. 1968 PT PT

Luís Quintais é um poeta e ensaísta português contemporâneo, cuja obra se destaca pela rigorosa exploração da linguagem e pela reflexão sobre a condição humana e a arte. Sua poesia é marcada por uma densidade intelectual e uma musicalidade peculiar. Com uma trajetória literária consolidada, Quintais transita entre a criação poética e a crítica literária, oferecendo um olhar aguçado sobre a literatura e a cultura. Seu trabalho é reconhecido pela originalidade e pela profundidade de suas investigações estéticas e filosóficas.

n. 1968-08-19, Angola

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O estrépito

I
O estrépito que o passado faz.
As palavras gritadas.
A terrível máquina de dizer
e calar.
Tudo gira no nada
e no nada se compraz.
Uma fúria ergue-se
no plasma.
Uma cidade é destruída.
Escuta os muros
que se abatem.
Desenha árvores,
o rápido deslizar de nuvens,
o desenho que a mão faz
quando teme agarrar o sentido,
e o sentido é escuro, escuro.

II
O dia acaba, e com ele
a incerta medida dos teus erros.
Uma lâmina de vento
inicia-se no escuro.
A noite apaga o teu zelo.
O vestígio do ontem
cruza o sítio da memória,
somente atenuado
por outras presenças.

III
O rio escurecia
e depois aclarava e depois escurecia.
As árvores gravitavam nas margens
da tua memória,
faziam correr estilos de morte e promessa.
As personagens do inscrevível
seriam afinal mais monstruosas
do que se suspeitara,
e os insectos emudeciam
enquanto o outono regurgitava as suas vítimas.

E tu, tu? E tu fazias abolir
o sentido para fazer eclodir de novo
o novo sentido. E tu procuravas entre despojos
um aro de bicicleta partido,
um casaco com bolsos que dessem para o improvável,
um qualquer outro achado preso à cega geometria
e à circunstância do procurar.

IV
Atravessas a ponte, lês o jornal, alheias-te
do rio, mas o rio sitia-te
com a sua música de eleição,
a que julgaste escutar,
apesar dos sinais de morte
te encadearem
com a sua luz extrema.
Terás tu ainda a certeza do começo
movendo-se no écran
do primitivo medo
de que não há limite,
fuga, consolo.

V
Animal afeiçoado à metamorfose e à fuga,
o rio muda de cor
e tu anotas o denso espelho
e imaginas a métrica
que o levará à foz.

O rio é o teu deserto
e a palavra
apenas palavra
com que o descreves
a tenda onde o provisório
vem habitar.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Luís Quintais é um poeta, ensaísta e crítico literário português. Sua obra se caracteriza pela profunda reflexão sobre a linguagem, a arte e a existência, inserindo-se no panorama da literatura portuguesa contemporânea.

Infância e formação

As informações detalhadas sobre a infância e formação de Luís Quintais não são amplamente divulgadas, mas é certo que sua trajetória intelectual o levou a um profundo estudo da literatura e da filosofia, elementos que marcam sua obra.

Percurso literário

Luís Quintais iniciou sua carreira literária como poeta, publicando obras que rapidamente chamaram a atenção pela originalidade e pela densidade. Paralelamente à sua atividade poética, desenvolveu uma carreira como ensaísta e crítico literário, escrevendo sobre diversos autores e movimentos literários. Sua participação em publicações literárias e sua atuação no meio acadêmico solidificaram sua presença no cenário cultural português.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Luís Quintais é marcada por uma exploração profunda da linguagem, buscando as potencialidades expressivas do verbo. Temas como a memória, o tempo, a arte, a identidade e a condição humana são recorrentes em sua obra. Seu estilo é intelectualizado, mas sem perder a sensibilidade lírica, com um rigor formal que pode variar do verso livre a estruturas mais elaboradas. Utiliza recursos poéticos que exploram a sonoridade e o ritmo das palavras, criando uma musicalidade única. A voz poética em sua obra é frequentemente reflexiva e introspectiva, convidando o leitor a uma profunda meditação. Luís Quintais é associado a uma vertente da poesia contemporânea que valoriza a experimentação linguística e a reflexão metapoética.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Luís Quintais insere-se no contexto da literatura portuguesa pós-geração de 70, dialogando com as tendências e debates da época. Sua obra reflete sobre os rumos da arte e da cultura em um mundo em constante transformação, mantendo um diálogo crítico com a tradição e a contemporaneidade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Luís Quintais são limitados, mas sua atividade intelectual e literária sugere uma dedicação intensa à pesquisa e à criação.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Luís Quintais tem sido reconhecida pela crítica especializada pela sua qualidade estética e intelectual. Sua poesia é admirada pela originalidade e pela profundidade, conquistando um público leitor atento e interessado.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado É provável que Luís Quintais tenha sido influenciado por poetas que exploraram a linguagem de forma inovadora, como Fernando Pessoa e os poetas da Geração de 50. Seu legado reside na sua contribuição para a poesia contemporânea portuguesa, enriquecendo o panorama com uma obra densa e reflexiva.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Luís Quintais oferece um vasto campo para análise crítica, abordando questões filosóficas sobre a existência, a arte e a linguagem. Suas poesias convidam à desconstrução de significados e à exploração de novas possibilidades de sentido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por ser um autor que prioriza a discrição, aspectos menos conhecidos de sua personalidade ou de seus hábitos de escrita não são facilmente acessíveis ao público em geral.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Luís Quintais está vivo e continua sua produção literária, sendo sua memória construída em vida pela sua obra e seu impacto no meio literário.

Poemas

10

O estrépito

I
O estrépito que o passado faz.
As palavras gritadas.
A terrível máquina de dizer
e calar.
Tudo gira no nada
e no nada se compraz.
Uma fúria ergue-se
no plasma.
Uma cidade é destruída.
Escuta os muros
que se abatem.
Desenha árvores,
o rápido deslizar de nuvens,
o desenho que a mão faz
quando teme agarrar o sentido,
e o sentido é escuro, escuro.

II
O dia acaba, e com ele
a incerta medida dos teus erros.
Uma lâmina de vento
inicia-se no escuro.
A noite apaga o teu zelo.
O vestígio do ontem
cruza o sítio da memória,
somente atenuado
por outras presenças.

III
O rio escurecia
e depois aclarava e depois escurecia.
As árvores gravitavam nas margens
da tua memória,
faziam correr estilos de morte e promessa.
As personagens do inscrevível
seriam afinal mais monstruosas
do que se suspeitara,
e os insectos emudeciam
enquanto o outono regurgitava as suas vítimas.

E tu, tu? E tu fazias abolir
o sentido para fazer eclodir de novo
o novo sentido. E tu procuravas entre despojos
um aro de bicicleta partido,
um casaco com bolsos que dessem para o improvável,
um qualquer outro achado preso à cega geometria
e à circunstância do procurar.

IV
Atravessas a ponte, lês o jornal, alheias-te
do rio, mas o rio sitia-te
com a sua música de eleição,
a que julgaste escutar,
apesar dos sinais de morte
te encadearem
com a sua luz extrema.
Terás tu ainda a certeza do começo
movendo-se no écran
do primitivo medo
de que não há limite,
fuga, consolo.

V
Animal afeiçoado à metamorfose e à fuga,
o rio muda de cor
e tu anotas o denso espelho
e imaginas a métrica
que o levará à foz.

O rio é o teu deserto
e a palavra
apenas palavra
com que o descreves
a tenda onde o provisório
vem habitar.
783

Fome

A fome desata os nós da consciente
vontade que a escrita denuncia.

Literacias são perfeitas rituais
entregas do acaso,

e tu recensearás acasos,
porque a fome te acomete

sem reservas, sem interlúdios.
O que és transbordará

em longos signos negros.
A luz virá como um sortilégio

de Verão em pleno Inverno.
Um bicho gritará a sem harmonia

que te desenha, a tão real ficção
dessa fome.
743

Passos

Escutaste os passos
no quarto
semi-escurecido
pela tua derrota?

Não eram teus,
mas do que amaste:

os passos
do que esqueces.
799

Subjectivas mesas

(sobre Wallace Stevens)

É com uma estranha malícia
que distorço o mundo.
Assim se revigora o opaco
e a possibilidade de invenção, ainda.

O cimento é o tonal modo
de nos agarrar às significativas paisagens
a ocidente.

Dobram-se como árvores, as frases,
sob o vento que veio do nada.
Asas destroem a insaciada ordem
que nos governa, a polis de anátema
que se instala no texto.

Vejamos: a cidade começa aqui
nas ásperas figuras do entardecer.
Descrevo o que flutua
neste espaço, a infigurável

destreza moderna trucidando
com dedos de morte
os acantos e as cicutas
que só existem em reais palavras
como subjectivas mesas
sobre as quais me desloco,
velozmente.
693

Do gelo

Para J G Ballard

À psicologia profunda tudo devemos.
Acima de todas as coisas, devemos-lhe
o que não comunica, o que a inocência
e o esquecimento traem.
É à ímpia hipótese que tudo devemos:
que no cérebro espelha abominações
e que nos faz balbuciar o seu fogo
e o seu reino.

As lições do gelo são a melhor explicação
da arte das cesuras e dos caprichos:
o que não fará certamente a cidade,
o que não compõe um segredo
que não seja a plena paixão do ilegível.
742

MÁQUINA

Nem sombra de fantasma dentro da máquina.
Ser apenas máquina.
Uma máquina de ler.
Uma máquina de dar de comer aos filhos.
Uma máquina de escrever sem qwerty ou azerty,
irreconhecível, mas uma máquina em todo o caso.
Uma máquina de foder.
Uma máquina de beber.
Uma máquina ser erro maquínico.
Uma máquina sem improvável intenção,
melancolia, elegia, meta-representação mortal
e desabrida.
Uma máquina que se finasse depois, sem dor,
de pura obsolescência.
Uma máquina sem dor nem tédio.
Uma máquina sem estados de alma.
Uma máquina sem alma.
1 225

Psicogeografia

Como nos salvámos, ainda que só por instantes?
Recusando mapas, designando ocasos,
espreitando
a intransparência do vidro das casas
após a entropia que devora famílias.

Salvámo-nos por inquietação móvel,
por solidão contrafeita
e vigilante.
791

Borges

O cão chama-se agora Borges.
Num sítio de espelhos onde os nomes se encontram
o cão responde ao nome recente
no seu modo-gume de responder.
Assim é todo o reconhecimento.

Antes de chegar à nossa porta
o cão teria outro nome,
e antes dessa porta,
outro nome haveria de ter o cão.
A infinita regressão dos seus nomes
e das portas que o receberam
traz-nos o eco das infatigáveis decifrações.
O cão adormece na sala.
Os sonhos do cão contêm o colapso dos nomes
na sua carne.
Aí escrever-se-á
o que não saberemos ler.
692

Homenagem à adjectivação

Turbulento e caótico é o mundo, dear.
Meteorologias são bichos
de irrmediável fulgurante rápida incivilidade.
726

Ave

Uma ave agonizante
entrou-te no quarto,

apenas uma sombra
que se enlaça
noutra:

assim definiste
a memória,

a cidade
que se mineraliza
quando
rodeias
essa sombra-ave

com os dedos
apavorados.
838

Obras

1

Videos

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