Horácio Costa

Horácio Costa

n. 1954 BR BR

Horácio Costa é um poeta e ensaísta português, conhecido pela sua poesia que mescla erudição e sensibilidade, explorando temas como a memória, o tempo, a linguagem e a própria condição humana. A sua obra, marcada por uma rigorosa construção formal e um vocabulário rico, dialoga com a tradição literária, ao mesmo tempo que se insere nas inquietações da contemporaneidade. Costa é também reconhecido pela sua atividade ensaística, onde aprofunda reflexões sobre literatura, arte e cultura.

n. 1954, São Paulo · m. , São Paulo

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A rã

Sim, naquele volet gauche
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.

Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.

A Rã não me quer
E nem a ti
                   Nem a si
Nem ninguém.
                   Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
                   E desisto
Da água.
                   Creio que
Isto lhe faz gosto:


Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo: Horácio Costa. Nacionalidade: Portuguesa. Língua de escrita: Português.

Infância e formação

Informação não disponível.

Percurso literário

Início da escrita: A sua atividade literária manifesta-se tanto na poesia quanto no ensaio. Evolução ao longo do tempo: A sua obra poética é caracterizada por uma continuidade estilística e temática, marcada pela erudição e pela reflexão sobre a linguagem e a memória. Atividade como crítico, tradutor ou editor: Reconhecido pela sua atividade ensaística e crítica.

Obra, estilo e características literárias

Obras principais com datas e contexto de produção: A sua poesia, que inclui títulos como "O Vento Suave" e "A Trama do Tempo", é marcada por uma profunda reflexão sobre a memória, a linguagem e a condição existencial. Temas dominantes: Memória, tempo, linguagem, identidade, a arte da poesia. Forma e estrutura: Rigor na construção formal, exploração de formas poéticas clássicas e experimentação métrica. Recursos poéticos: Uso de metáforas complexas, alusões literárias e filosóficas, musicalidade subtil. Tom e voz poética: Erudito, reflexivo, por vezes melancólico, mas sempre com um sentido de profundidade. Voz poética: Universalizante, que procura apreender as grandes questões da existência humana através da linguagem. Linguagem e estilo: Vocabulário erudito e preciso, densidade imagética, alusões intertextuais. Inovações formais ou temáticas introduzidas na literatura: A sua poesia insere-se numa linha de continuidade da poesia culta portuguesa, mas com uma abordagem contemporânea aos temas da memória e da linguagem. Relação com a tradição e com a modernidade: Diálogo constante com a tradição literária portuguesa e universal, mas com uma sensibilidade moderna. Movimentos literários associados: Pode ser associado a uma linha de poesia culta e reflexiva. Obras menos conhecidas ou inéditas: Informação não disponível.

Contexto cultural e histórico

O seu trabalho reflete um diálogo com a tradição literária portuguesa e europeia, inserindo-se num contexto de reflexão sobre a modernidade e a condição humana no século XX e XXI.

Vida pessoal

Informação não disponível.

Reconhecimento e receção

Reconhecido pela sua contribuição para a poesia e ensaísmo em Portugal.

Influências e legado

Autores que o influenciaram: A sua obra demonstra uma forte ligação a autores da tradição poética portuguesa e a pensadores da filosofia e crítica literária. Poetas e movimentos que influenciou: A sua obra continua a ser estudada e apreciada, influenciando gerações posteriores pela sua profundidade reflexiva e rigor formal.

Interpretação e análise crítica

Leituras possíveis da obra: A sua poesia convida a múltiplas leituras, centradas na exploração da memória, da passagem do tempo e da capacidade da linguagem em apreender a realidade. Temas filosóficos e existenciais: Aborda questões fundamentais sobre a existência, a finitude e o sentido da vida.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Informação não disponível.

Morte e memória

Informação não disponível.

Poemas

13

Paisagem II

Sentado nesta bergère de courvin
sinto o poema chegar com ainda
menos urgência do que parece
condensarem-se as nuvens sobre a paisagem
que se descortina deste hospital
debruçado sobre a mais insípida
autopista ou avenida de fundo de vale
- que cada cidade tenha as suas
características é mais do que natural
e Dubai e Oslo só se encontram
por terem topônimos bissílabos-
e tais artérias são o próprio desta
na qual por bem nasci e na qual
se me for dado imprimir sobre
o meu devir bizarro a vontade
minha, hei de morrer e talvez
em algum espaço medical como este
e sempre na observação de plúmbeas
vastas nuvens, que obrigam recordar
a proximidade da serra e sua
exsudação e abaixo o sujo mar
per elas responsável, pai
esquecidiço e insolidário quem
nos filia a cada estação e quem
nos manda carícias sob forma de
sazonais monções.
Mudo
de posição como em Apipucos
Freyre o faria em outra bergère
mas não diviso sequer mentalmente
nenhum engenho de nome Noruega
na noite que se acende e sim
apenas o estertor de uma cidade
nem libertina nem libertária
nem escarrapachada em indolentes redes
mas que no supino anonimato garante
o quociente de cada habitante seu
à liberdade de escolha, dentro
dos limites xadrezes entre prédios
e vales e parcos parques e não mais.
Que
não se confunda tal simples solaz
ao exercício contumaz da fantasia:
aqui não cortam os ares de Batman
a capa nem Quasímodo horrendo
se esconde em nossa Sé e nem Rachel
Watson ou Esmeralda belas apeiam-se
dos incessantes vagões na Liberdade.
Há dias sinto emergir este poema
e serão tais nuvens baixas quem
o traz e de onde aportará que não
da sensação experimentada dia a dia
do perviver este espaço dia com dia
no fluxo de um rio ao inverso?
A hibridez do texto corresponde-lhe
e a mim, e ao desejo de plasmar-me
nele e nela e repetir e repetir
que a cidade que tudo isto origina
será o meu espelho colinado
e meus nervos e meu sangue
estas luzes que diviso mental e real-
mente, agora que a sobrevôo não
em rés búdico, que bem o quisera,
mas para começar a terminar
este registro que inda tarda.
As raízes do fícus, gigantescas,
entre as pistas da auto-bahn
esperam quem nelas se aninhe
e ao pé da copa frondosíssima,
como Buda, se ilumine; as encostas
lá embaixo, sulcadas entre bairros
de espigões, talvez possam sugerir
semi-aconcáguas aos do montanhismo
entusiastas, que por aqui transitem
e aos médicos, o vislumbre da
distante cúpula da Catedral, cujos
bronzes estão cobertos por cinábrio,
o bimbalar mouco de sinos em toque
fúnebre, que lhes imprima o significado
da vida de cada um de seus pacientes:
velhos imigrantes portugueses, mães
nordestinas deixadas por seus machos,
nisseis que se expressam por sorrisos
e o significado da minha vida em
particular, quase um gondoleiro âgé
neste Rialto em pane, vestido
com esta improvável camiseta
listrada de azul e branco e por hora
sentado a escrever este poema
nesta bergère de courvin
impessoalíssima e com os seus olhos
rasos d’água, como deve ser, enquanto
reflito sobre São Paulo e sua gente
neste pavilhão de funcionalidade
hospitalar, edificado num barranco
íngreme não: cânion sobre uma artéria
aberta no fundo de um vale coberto
por nuvens nuvens nuvens.
640

Aniversários

Vinte Anos Depois é um romance de Alexandre Dumas
duas décadas não são nada
é a média de vida do homem primitivo  do escravo romano
é a idade de um cão muito muito velho
é a média de glória de um artista maior
o tempo sem celulite de uma cortesã
o lapso de procriação depois do casamento
quatro ou cinco mandatos políticos   o auge de um Império
vinte anos levou a Constantino reformar Bizâncio
vinte anos fizeram a fortuna de Frick Morgan e Du Pont
vinte anos entre a apresentação no Templo e a crucificação
vinte anos é a matéria dos memorialistas
vinte anos e o povo se cansa da Revolução
vinte anos depois Odette está casada e Marcel morto
a roda o computador pessoal a moda das perucas brancas se
popularizam em não mais de vinte anos
Quéfren e Miquerinos construíram suas pirâmides em vinte
curtos anos
vinte anos depois o cadáver está frio olvidadíssimo
vinte anos de exercício e o êxtase desce ao asceta
nada nada são duas décadas vinte vezes nada
a ponte nova entre aqui e ali está congestionada hoje
a então chamada ponte do futuro já não serve mais
agora quando estás nela também estás aqui
tinhas o cabelo solto tinhas a rédea solta
soltas tinhas as palavras
há vinte anos
entre aqui e ali
685

Autorretrato num espelho de hotel

Nu, toalha nenhuma amarrada estrategicamente
Na cintura, a barba enrolada em cachinhos não
Mas desenhada como a de Prince, primeiro
Role-model,
Incide a luz como tem que ser: da direita inferior
E difunde-se para quem me vê como uma aparição
Poderosa, um Andrea Doria overweighted
Pintado por Bronzino não
Mas visto através da lente
De uma Diane Arbus
Compassiva.
“Ventripotent”, aprendi quando não tinha pança,
Na Aliança Francesa; logo depois os burgueses
De Hals me ensinaram que pode-se parecer bêbado
E próspero. Mas a minha cor
Raramente transparece a rosácea
Que floresce na derme holandesa:
Sou da tez, da consistência
Do Bacchino malato de Caravaggio,
Da dúbia cor dos romanos
Do Sodoma.
Um corpo que fora bem torneado
Pensa-se Tritão, ostras e mariscos
Pendurando-se pelo torso, por ti
Surpreendido face ao espelho.
Pensa-se Tritão, vê-se Netuno:
Nada melhor do que a tênue
Asa da mitologia
Para encobrir
A cor, o tempo, a pança.
654

A rã

Sim, naquele volet gauche
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.

Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.

A Rã não me quer
E nem a ti
                   Nem a si
Nem ninguém.
                   Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
                   E desisto
Da água.
                   Creio que
Isto lhe faz gosto:


Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
774

O Retrato de D. Luís de Gôngora

cara de vampiro, nariz boxeado pela vida,
stiffness, teu legendário orgulho desmesurado,
sem ironia ou sorriso a boca nos cantos desce,
não vejo tuas mãos, estarão escrevendo,
estarão manipulando o ábaco da sintaxe,
preocupado te vejo em encontrar tesouros
dormentes, na folha branca brilham larvais,
e já fixos me perfuram teus olhos de esfinge,
que imitam tuas orelhas em leque, teu manteau
absoluto, mole de lã ou veludo, sempre Diretor
dum hospital barroco antes do Grand Renfermement,
para quem posas, cantas o Esgueva do pensamento
dos teus contemporâneos, o radical suspiro da Natureza
em cio profundo, linguagem láctea, campo blau,
e me avalias, por fora Ácis, por dentro Polifemo,
assim é o mundo Dom Luís, para mim estás posando,
pré-kafkiana barata insigne vai de ante em ante-sala,
paciente expõe seu elástico decoro enfático, tanto
tens que suportar, por fora Hyde, por dentro tão menino,
pois és menino e para lá da moldura deste quadro
como os negros falas –é de noite que em pérola
se transforma a banalidade, e tua calva preenche
o céu, cede o vazio, e tua palavra uma berceuse escapa.
761

Ulysses

A
Homero está sentado na ponta de uma pirâmide e coroado (com louros) por
um anjo cor-de-rosa. Ao fundo, o perfeito frontão de um templo, sustentado por
colunas jônicas. Tudo isto contra o alvorecer (ou o entardecer?) de um dia imóvel.
A base da pirâmide é formada por uma caterva de intelectuais franceses, entre
os quais um delicioso Molière, que exibe o rosto literário mais bonito da história.
Boileau sente a solenidade do momento e impõe respeito aos passantes.
- As perucas que usavam naquele tempo, tens razão, parecem-se mesmo a
corvos. E quem é aquele lá?
Não sei. Ronsard, Froissart.
Ou o Barão de Münchhausen. A quantas falsidades não ficam expostos os
artistas quando representados? Por isto Homero está cego, como Borges ou a Justiça.
Melhor assim, noli lhe tangere. E não percebe que representaram osdedos de seus pés,
gordos e potentes, como uma dezena de falos em repouso.
Feto, larva, mito, filho, Ulisses vive em seu peito: uma tatuagem a fogo, igual
as que ornam torsos de marinheiros nos cinco continentes e mandada fazer, talvez,
num humilde bordel do Pireu. Neste ato, vendados estão os demais outros: ninguém
percebe a marca persistente, da qual o sangue não pára de escorrer.


B
Me colaram no tempo, me puseram uma alma viva e um corpo desconjuntado.
Mandei me amarrassem ao mastro central do barco; só assim veria e ouviria coisas
que homem nenhum sobreviveu para narrar a seu biógrafo. Programada é minha
infelicidade; a realista cicatriz que trago no rosto dará consolo a Auerbach --neste
universo nada se cria, tudo se transforma, ou pelo menos esta é a bíblia dos críticos
literários--. O barco desfila diante de sereias como se icebergs.
O porto não existe, não passa de um happy-end.
Homero, tão hábil, ver nunca atinou que Ninguém é meu exato nome.

C
- E aquele ali?
- E aquilo lá?
- E isto aqui?
Quem sabe. Verdadeiramente te importa, e porque? Não te bastam as estrelas,
uma pirâmide de vrais génies inoubliables, o peso da noite? Pois bem, afirmaste aos
quatro ventos meu ceticismo, meu "niilismo" virou conversation piece, teu
pedantismo crucifica, a mim atribuíste a culpa. Ato seguido, foste expiar-te em outro
texto, sei lá, em Leiria: sim, em Leiria, e topaste com outro vagido fragmentário,
outras interrogações.
E agora caminhas insaciável pelo museu.
- E esta sombra, que significa?

Nada.
646

Caixa de água azul

Entre a ramagem da árvore desconhecida,
Caducifólia, nem de Jessé ou genealógica,
Um volume azul sobre uma laje, caixa de água
De polietileno ou poliuretano.
Notação distante na paisagem urbana,
Obsedante recordação no agora-agora,
Calle Río Poo 108, Colonia Cuauhtémoc,
Suites Parioli, México, Capital.

O mar, não. O mar, não. O mar, não. O mar, não.
Um exagero de zéfiros, então: o expresso
Descia a serra em Simcas-Chambord tangerina,
Rumo à baía divisada entre montanhas:
Ao longe, o porto e as torres, guindastes e praias;
Ao pé a pantanosa terra, como espaguete, úmida.
O talento da oitava real quereríamos,
O seu sempre imarcescível horizonte.

Nele seguia a senhora duas vezes por ano,
Qual a ordem das vogais, dos ritos identitários,
às vilegiaturas; se lhe encolhera
o mundo à mínima possível transumância.
Para lá da paisagem, a sós uiva o engenho,
Aquilo que em linguagem transforma a língua.
A árvore que se agita em eterno lenho
Enraíza no presente o espectro que míngua.

Ia a senhora, olhos de pomba, um único anel
De coral; cruzou-se a morte entre ela e o poema.
O mar, não. Caixa de água azul entre prédios alheios.
Este o horizonte, marchetado em fragmentos,
Reduzido a um puzzle no qual o montador
A si se vê como uma das peças faltantes.
O agora não sabe o que diz: memoria vincitrix.
Desce uma vez mais o expresso a estrada de Santos.
694

Cuneiforme

Continuo “imerso em mim e
na água dos meus pensamentos”, mas me interessa
mais do que eles esta praia e mais do que ela em si
a presença das três garças pequenas, brancas
e de olhos amarelos e agourentos e talvez
jovens, que por sua vez muito mais me interessam
do que tratar de compreender alguma “jeune parque”
cujos desígnios -não há porque negá-lo e mais a esta altura-
sempre foram para mim para sempre desconhecidos
não: incognoscíveis. Fiai o que quiserdes, na suave companhia
de vossas viscosas irmãs: confesso que vivi entremeado
a tais fibras o que pensei ter querido e o que
vossa caprichosa e parcíssima escolha nelas soube
mais do que sorrateiramente, incognoscivelmente entremeter.
Ainda, e por falar nas palmípedes três,
convenhamos: atraem-me mais os olhares e a alma
que os oito nada discretos cavalheiros que observo
enquanto as observo, desnudos todos frente ao mar,
ao abrigo entre as pedras deste reino naturista,
no Abricó (diga-se o lugar, pois), Recreio dos Bandeirantes,
Rio de Janeiro, Brasil. Hoje
a praia está ampla, o mar turbulento do outono
perde agora em sua cotidiana labuta
contra a areia. Regozijemo-nos.
Os nudistas, sem dúvida, mais do que
as graças, digo, as garças, me interessam:
enquanto observo estas e penso naquelas (Maillol,
volta ao Museu, não me ocupes neste instante),
confiro se alguém há em ereção, ou se algum par
de casuais amantes neste instante se retira da areia
para esconder-se ainda mais entre as grandes pedras
por líquens cobertas e coroadas por bromélias
e por cujos dorsos escorrem suculentas como sêmen
natural, para dedicar-se, ora está óbvio,
a uma não menos natural seção de homo-sexo,
nefanda segundo o vulgo e, aqui, sur mer,
nada, nada surpreendente:
ninguém que proclividade afim não professe
a esta praia vem, e mais num dia de mar-alto
e vento não tépido, frio, e mais: constante.
Somos previsíveis como a presença das garças
que na extensa língua de areia escavam os seus pitéus.
Os meus são esses que se aninham entre as pedras
por um tempo variavelmente curto ou longo
e que menos do que as garças,
que não as graças e suas parcas primas,
me interessam. Há pouco disse o oposto
e agora percebo tal estratégia do dizer,
que como é sabido muito fingem os poetas
e, por que não, também neste inconclusivo texto
(falso: basta de mentiras).

Também nas duas extremidades visuais
há costões ao oceano expostos:
perfazem algo como um enorme anfiteatro
no qual de fato nada acontece: aqui há monólitos
quase a pique e tão gigantescos que a linha da estrada
em sua silhueta desaparece, quando vistos à distância.
Este é o Mar dos Atlantes num cenário deles digno:
aqui poderiam engalfinhar-se em sua guerra. Mas não.
A ele voltei já faz um tempo, e tanto como à dita
“água do meu pensamento” (já não sei o quanto
nela há de verdade ou se a emana caso exista:
água lustral ou mero torvelinho liqüefazente?
E existirá de fato? Em caso positivo,
nela prossigo imerso ou naufragante?).
Há vinte e cinco anos, em Santa Bárbara, em
outro poema, houve falésias, e um convite que jamais
faria de novo a alguém, nem às garças nem às graças,
nem a nenhum sequer amante: já mais. Je vous en jure.
Minha viagem pela matéria hoje é solitária.
Observo
novamente
as ditas garças.

Sobre a areia em trânsito para o mar
ainda me obceca a impermanente escritura cuneiforme
dos tatibitates pèzitos das gratuitas
aves.
593

História Natural

Detrás do taxidermista, há a palha,
detrás do rinoceronte, a savana,
detrás desta escritura só a noite,
a noite que galopa até o fronte.

Na asa da mariposa assoma a lua,
na cabeça do alfinete brilha o sol,
nestas linhas reverbera um sol negro,
o astro que ora sobe no horizonte.

O animal dissecado da sintaxe
provê o verbo, o bastidor e a legenda
duma coleção mais morta que os mortos.

No gabinete de história natural
o visitante-leitor detém-se face
a mamíferos e insetos reluzentes.
807

Ravenalas

“The Carmen Miranda’s Museum
Is more important than the Louvre”, disse-me
John Ashbery em Nova Iorque, e os olhos
Nadavam em gim. Olhando para o meu
Cocar kamaiurá, Octavio Paz exclamou
“Esto es mejor que un Picasso”. Estávamos
Na casa de Coyoacán: era a primeira vez
Que ele entrava na sala dramática. As plumas
Cor de rosa-flamingo e de araras azuis
Enchiam o espaço, abriam-se sobre
O céu da parede numa “iminência
De gritos”. Não sei se Octavio
De fato escreveu este verso, mas bem
Poderia. Na varanda de Pancho Vives,
Face ao Palácio Real, Gastón
Baquero, o habanero exilado, dizia:
“La Gran Vía es cubana. La Puerta del Sol
Es cubana. El Paseo de la Castellana
También es cubano.” Haroldo ria-se
Às escâncaras: era verão e à onze da noite
Mantinha-se a temperatura em 38º.

Meninos eu vi, lembro a Revista Manchete
Assim como Borges contradizendo
Luisa Valenzuela, quem lhe perguntara
Se a quantidade de espadas em sua obra
Apontava a uma putativa simbologia fálica:
“Eso es impúdico, señorita” –nos olhos
Do vate cego, ainda o brilho da desonra
Vislumbro. Ou creio vislumbrar. O Manuel
Tinha ido de New Haven a Nova Iorque
Ver o portenho, e out of the blue me observou,
Como si nada: “estaremos juntos muchos años”.
Nunca duvidei de sua intuição, não o contradisse
Mas quinze depois o abandonaria: já não podia mais,

Simplesmente já não pude mais.
Escrevo
Em Copacabana, lugar fabuloso entre todos,
E meca de memoriosos: ao longe, numa
Cobertura, descubro contra o azul
Umas improváveis ravenalas.

Também o banhista, qualquer cidadão poetisa
E sente irromper ouvidos adentro uma voz
Que não está, e que escuta como verso-fantasma:
Quantos vozes não escapam ao ar dessa forma
A cada manhã num preciso minuto
Como esse em que peso os meus: se senti-los
Fosse dar-lhes volume, uma debandada
De asas se abriria sobre o Rio de Janeiro,
Sob a forma de alguns versos de amor
Ou referentes à pátria ou aos antepassados
E outros, os mais, sem significado nenhum
Afora o afetivo, que concentra o tempo vivido:
O espaço da metrópole seria pequeno
Para tamanho hachurado lírico, para tanta
Chama sagrada, “Péri Hypsous”, para dardos
Que tais de palavras que se materializassem
E se reduzissem no momento de ouvirem-se
E que se reduzissem –por que não?- a estas,
Sim, fotogênicas de fato, ravenalas. “Leques
Contra o azul entre sol e súdito” –este, escrevi-o
Eu, numa outra manhã, lá no México

E eis-me de novo surfando a memória,
Como esses jovens as ondas. As vozes
Não se desprendem, recocheteiam, somam-se
E ecoam como a brisa que atravessa
Esse palmar suspenso e que
Só eu pareço escutar e pelo qual,
exoticista e tambor, arquiteto
E sintaxista, deixo-me deslizar.

(P.S. Não há hierarquia na memória
 E não se sabe ao certo o que a dispara:
tão importante o pergaminho quanto o plástico-bolha,
assim como o botton e o brasão, e o salmo
conversa com o conteúdo da filipeta e tudo,
na verdade, é um só monumento).
670

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