Lista de Poemas

Bom é que não esqueçais

Bom é que não esqueçais
Que o que dá ao amor rara qualidade
É a sua timidez envergonhada.
Entregai-vos ao travo doce das delícias
Que filhas são dos seus tormentos.
Porém, não busqueis poder no amor...
Que só quem da sua lei se sente escravo
Pode considerar-se realmente livre.

16 003

À bem-amada

minh"alma quer-te com paixão
ainda que haja nisso uma tortura
e alegre vai na ânsia da procura

que estranho ser difícil nossa ligação
se os desejos d"ambos concordaram!

que quereria mais meu coração,
ao desejoso te buscar em vão,
se meus olhos te viram e amaram?

Allâh bem sabe que não há razão
de vir aqui senão para te ver.

que o vigia não nos possa achar
se o nosso reencontro acontecer
p"ra os teus lábios doces eu provar.

folgarei no jardim da tua face,
beberei desses olhos o langor,

e mesmo que um terno ramo imtasse
o teu talhe grácil, sedutor,
valerias mais que o imitador.

não te ocultes, oh jardim secreto:
quero colher meu fruto predilecto!

1 322

A amada

Ela é uma frágil gazela:
Olhares de narciso
Acenos de açucena
Sorriso de margarida.
E os seus brincos se agitam
Quedam-se os braceletes na escuta
Da música do requebro da cintura.
1 259

A Al-mu’tâmid (II)

Quantas noites passadas lá no açude
Sinuosas deslizavam as correntes do rio
Como manchadas serpentes.

As correntes murmuravam junto a nós
Ao passar, qual gente ciumenta,
A querer magoar-nos à força da calúnia.

Mas no recanto escolhido
Era o jardim que vinha visitar-nos
Enviando seus presentes
Nas perfumadas mãos da brisa.
1 270

Saudade

como falar de ti, Silves,
sem que uma lágrima me caía
como a do enamorado enternecido,
ou de ti, Sevilha,
sem um suspiro de ansiedade?

sois terras vestidas, pela chuva fina,
com a túnica da mocidade,
a mocidade que se desvaneceu
quando me furtou meus amuletos

assaltou-me a memória dos amores ardentes
como se me consumisse um lume violento
no mais profundo deste meu coração.

oh noites minhas de antigamente!
Que me importavam censuras dos críticos!
Nada me desviava do amor mais louco.

A insónia vem-me de uns olhos lânguidos
E sofro por uma silhueta de esbelto talhe.

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Do amor

olhai quão grande é o amor apaixonado
que é vício e delícia e fogo ardente.

não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.

disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.

o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.

censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?

troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.

pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?

secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.

como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!

a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?

dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*

o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.

da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.

minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas

até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
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Identificação e contexto básico

**Nome completo:** Abu Ammar Yasir ibn Rustam al-Tujibi **Pseudónimo:** Ibn Ammar **Nacionalidade:** Andaluz (Al-Andalus) **Período:** Século XI **Contexto histórico:** Viveu durante um período de fragmentação política na Al-Andalus, conhecido como o período dos Reinos de Taifas.

Infância e formação

Ibn Ammar nasceu em Almería, na Andaluzia. Os detalhes da sua infância e formação específica não são amplamente documentados, mas é sabido que recebeu uma educação que lhe permitiu dominar a língua árabe clássica e as artes literárias, incluindo a poesia. A sua inteligência e talento poético foram evidentes desde cedo.

Percurso literário

Ibn Ammar iniciou a sua carreira poética a serviço de vários governantes na Andaluzia. Foi um poeta de corte, destacando-se pela sua habilidade em compor poemas de louvor (madīḥ) para os seus patronos, mas também pela sua maestria na poesia satírica (hijāʾ). A sua capacidade de adaptação e a sua inteligência permitiram-lhe navegar nas complexas e, por vezes, perigosas, intrigas políticas das cortes dos Reinos de Taifas. A sua obra é um testemunho das dinâmicas sociais e políticas da época.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Ibn Ammar é vasta e diversificada, abrangendo poesia de louvor, sátira, poesia erótica e descrições da natureza. Destaca-se pela sua mestria técnica, pela riqueza do vocabulário árabe clássico e pela vivacidade das suas imagens. A sua poesia de louvor era elaborada para exaltar os feitos e a generosidade dos seus patronos, enquanto a sua poesia satírica era conhecida pela sua mordacidade e perspicácia na crítica aos costumes e aos indivíduos. Era capaz de transitar entre tons sérios e humorísticos, demonstrando um profundo conhecimento da condição humana. A sua linguagem é elegante e expressiva, com um forte sentido de ritmo e musicalidade.

Contexto cultural e histórico

Ibn Ammar viveu durante um período turbulento na história da Al-Andalus, marcado pela desintegração do Califado de Córdoba e o surgimento dos Reinos de Taifas. Este contexto de instabilidade política e rivalidades entre os governantes proporcionou um terreno fértil para a poesia de corte, onde os poetas desempenhavam um papel crucial na legitimação e glorificação dos seus senhores. Ibn Ammar interagiu com outras figuras proeminentes da época, e a sua poesia reflete as ambições, as intrigas e os costumes da aristocracia andaluza.

Vida pessoal

As informações sobre a vida pessoal de Ibn Ammar são escassas e frequentemente entrelaçadas com a sua atividade literária. Sabe-se que manteve relações com figuras poderosas, o que implicava uma vida de corte com as suas complexidades e perigos. A sua habilidade em lidar com as exigências dos patronos e a sua capacidade de adaptação social são aspetos que moldaram a sua carreira.

Reconhecimento e receção

Ibn Ammar foi um poeta muito respeitado e reconhecido durante a sua vida. A sua habilidade poética garantiu-lhe patronos influentes e uma reputação considerável nas cortes andaluzas. A sua obra continuou a ser apreciada e estudada por gerações posteriores de estudiosos da literatura árabe, consolidando o seu lugar na história da poesia islâmica.

Influências e legado

Ibn Ammar foi influenciado pela rica tradição poética árabe pré-islâmica e omíada. Por sua vez, o seu legado é significativo para a poesia andaluza, tendo contribuído com a sua mestria técnica e a sua capacidade de abordar temas variados com perspicácia e originalidade. A sua obra serve como um valioso documento sobre a vida cultural e política da Al-Andalus no século XI.

Interpretação e análise crítica

A obra de Ibn Ammar é um espelho das complexidades da vida nas cortes da Al-Andalus. A análise crítica da sua poesia revela a habilidade do poeta em manobrar entre a bajulação e a crítica velada, a exaltação e a sátira mordaz. A sua poesia oferece uma perspetiva única sobre as relações de poder, a ambição humana e os costumes da época.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Uma curiosidade sobre Ibn Ammar é a sua relação com o governante Al-Mu'tasim de Almería. Ibn Ammar teria escrito poemas em louvor a Al-Mu'tasim, mas as suas sátiras posteriores sobre este mesmo governante (ou outros) mostram a dualidade da sua expressão poética e a sua capacidade de atrair tanto o favor quanto a inimizade.

Morte e memória

As circunstâncias exatas da morte de Ibn Ammar não são detalhadamente conhecidas, mas acredita-se que tenha falecido em meados do século XI. A sua memória perdura através dos manuscritos que preservam a sua poesia, permitindo que a sua voz literária ressoe através dos tempos e continue a ser estudada e admirada.