Lista de Poemas

O último jantar

Em meu último jantar
Quero ver meus irmãos
Meus cachorros e gatos
E a beira do mar
No meu último jantar
Quero ver meus vizinhos
E os chineses vindo
Como se fossem primos
Também quero tomar
Da missa o vinho
Esse vinho divino
Que eu bebia em Arbois
E quero devorar
Depois da batina
Um frango faisão
Vindo de Perigord
E quero ser levado
Para o alto da colina
Ver as árvores que dormem
De braços cruzados
Depois quero ainda
Jogar pedras pra cima
E gritar Deus está morto
Pela última vez
No meu último jantar
Com meu burrinho quero estar
Com os frangos e gansos
Mulheres e vacas
No meu último jantar
Quero ver as meninas
Das quais fui o mestre
Ou que foram amantes
E quando de barriga cheia
Pronto para o enterro
Vou quebrar meu copo
Pedindo silêncio
Vou cantar aos brados
À morte que vem
Os amores que de tão devassos
Chegam a amedrontar
E quero ser levado
Para o alto da colina
Ver o sol que caminha
A se pôr lentamente
E ainda de pé
Vou insultar os burgueses
Sem remorso e sem medo
Pela última vez.
Após meu último jantar
Quero que a gente vá
Satisfeito e farto
Para algum outro lugar
Após meu último jantar
Quero me sentar
A sós como um rei
Recebendo as vestais
Em meu cachimbo vou queimar
Lembranças da infância
Sonhos inacabados
Restos de esperança
E vou guardar
Para vestir a alma
A ideia de roseira
E um nome de mulher
Depois vou olhar
Para o alto da colina
Que dança que pressente
Que acaba por afundar
E no cheiro das flores
Que em breve sumirá
Sei o medo que terei
Pela última vez
(tradução de Marília Garcia)
:
Le dernier repas
A mon dernier repas
Je veux voir mes frères
Et mes chiens et mes chats
Et le bord de la mer
A mon dernier repas
Je veux voir mes voisins
Et puis quelques Chinois
En guise de cousins
Et je veux qu'on y boive
En plus du vin de messe
De ce vin si joli
Qu'on buvait en Arbois
Je veux qu'on y dévore
Après quelques soutanes
Une poule faisane
Venue du Périgord
Puis je veux qu'on m'emmène
En haut de ma colline
Voir les arbres dormir
En refermant leurs bras
Et puis je veux encore
Lancer des pierres au ciel
En criant Dieu est mort
Une dernière fois
A mon dernier repas
Je veux voir mon âne
Mes poules et mes oies
Mes vaches et mes femmes
A mon dernier repas
Je veux voir ces drôlesses
Dont je fus maître et roi
Ou qui furent mes maîtresses
Quand j'aurai dans la panse
De quoi noyer la terre
Je briserai mon verre
Pour faire le silence
Et chanterai à tue-tête
A la mort qui s'avance
Les paillardes romances
Qui font peur aux nonnettes
Puis je veux qu'on m'emmène
En haut de ma colline
Voir le soir qui chemine
Lentement vers la plaine
Et là debout encore
J'insulterai les bourgeois
Sans crainte et sans remords
Une dernière fois
Après mon dernier repas
Je veux que l'on s'en aille
Qu'on finisse ripaille
Ailleurs que sous mon toit
Après mon dernier repas
Je veux que l'on m'installe
Assis seul comme un roi
Accueillant ses vestales
Dans ma pipe je brûlerai
Mes souvenirs d'enfance
Mes rêves inachevés
Mes restes d'espérance
Et je ne garderai
Pour habiller mon âme
Que l'idée d'un rosier
Et qu'un prénom de femme
Puis je regarderai
Le haut de ma colline
Qui danse qui se devine
Qui finit par sombrer
Et dans l'odeur des fleurs
Qui bientôt s'éteindra
Je sais que j'aurai peur
Une dernière fois.
.
.
.
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Não vá embora

Não vá embora
A gente apaga tudo
Tudo que passou
Pode se apagar
Apagar o tempo
O mal entendido
E o tempo perdido
E agora
Apagar as horas
Que matam
Numa salva de porquês
A felicidade
Não vá embora
Eu vou te dar
Uma chuva de pérolas
Vinda de países
Onde não há chuva
Vou cavar a terra
Até depois da morte
Para seu corpo cobrir
Com luz e com ouro
Vou criar um reino
Onde o amor será rei
Onde o amor será lei
E você a rainha
Não vá embora
Não vá embora
Eu vou criar para te dar
Palavras sem sentido
Que você compreenderá
E vou te contar
Daqueles amantes ali
Que duas vezes viram
Seus corações incendiar
E vou te contar
A história de um rei
Morto por não ter
Podido te encontrar
Não vá embora
Quantas vezes um vulcão já velho
De onde mais nada podia sair
Se reacendeu
Há também terras gastas
Que dão mais trigo
Do que na colheita
E quando a tarde cai
Para que o céu vire fogo
Vermelho e negro
Nunca se juntam
Não vá embora
Eu não vou mais chorar
Eu não vou mais falar
Vou ficar parado vendo
Você dançar ali
E sorrir
E vou te ouvir
Cantar e depois rir
Deixa que eu me torne
A sombra da sua sombra
A sombra da sua mão
A sombra do seu cão
(tradução de Marília Garcia)
:
Ne me quitte pas
Jacques Brel
Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s’oublier
Qui s’enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le cœur du bonheur
Ne me quitte pas
Moi je t’offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu’après ma mort
Pour couvrir ton corps
D’or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l’amour sera roi
Où l’amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t’inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vu deux fois
Leurs cœurs s’embraser
Je te raconterai
L’histoire de ce roi
Mort de n’avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l’ancien volcan
Qu’on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu’un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu’un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s’épousent-ils pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je n’vais plus pleurer
Je n’vais plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t’écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L’ombre de ton ombre
L’ombre de ta main
L’ombre de ton chien.
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Identificação e contexto básico

Jacques Romain Georges Brel nasceu em Schaerbeek, Bruxelas, Bélgica. Conhecido pelo seu nome de palco Jacques Brel, foi um proeminente cantor, compositor e ator belga. Cantou maioritariamente em francês, mas a sua obra teve um impacto internacional significativo. O contexto histórico em que viveu foi o da Europa do pós-Segunda Guerra Mundial, um período de reconstrução e mudanças sociais e culturais.

Infância e formação

Brel cresceu numa família burguesa flamenga. O seu pai era dono de uma fábrica de cartão. Frequentou o colégio católico de Saint-Louis em Bruxelas, onde não se destacou academicamente, mas desenvolveu um interesse pela escrita e pela música. A sua formação foi, em grande parte, autodidata no que diz respeito à composição e performance musical.

Percurso literário

O percurso de Brel começou com a escrita de canções para si mesmo e para outros artistas. A sua carreira musical descolou verdadeiramente após se mudar para Paris em 1953. Ganhou notoriedade através de atuações em cabarés e teatros. Publicou inúmeros álbuns ao longo da sua carreira, que abrangeram desde baladas comoventes a canções mais enérgicas e satíricas. Não foi um colaborador regular de revistas, mas a sua obra foi amplamente divulgada através dos seus discos e atuações ao vivo.

Obra, estilo e características literárias

As suas obras mais conhecidas incluem 'Ne me quitte pas', 'Amsterdam', 'Le Moribond' e 'La Chanson des Vieux Amants'. Os temas dominantes na sua obra são o amor (muitas vezes trágico ou não correspondido), a morte, o tempo, a solidão, a saudade, a crítica social e a condição humana. Brel usava frequentemente o verso livre, mas também demonstrava mestria em estruturas mais clássicas quando necessário. A sua poesia é marcada por uma intensidade emocional avassaladora, um vocabulário rico e expressivo, e um uso poderoso de metáforas e imagens vívidas. O tom das suas canções variava de um lirismo pungente a uma sátira mordaz e a uma energia quase épica. A sua voz poética era confessional, pessoal e universalmente ressonante. A linguagem era direta, por vezes crua, mas sempre carregada de sentimento. Brel não se associou explicitamente a um único movimento literário, mas o seu trabalho dialoga com o existencialismo e com a tradição da chanson française, ao mesmo tempo que inovou pela sua energia performativa e profundidade lírica.

Contexto cultural e histórico

Brel emergiu numa França pós-guerra que procurava novas formas de expressão. A sua obra ressoou com o público pela sua honestidade e pela forma como abordava as complexidades da vida moderna. Era contemporâneo de outros grandes nomes da chanson française, como Edith Piaf e Charles Aznavour, com quem mantinha uma relação de respeito, mas também de rivalidade artística. A sua geração foi marcada pelas transformações sociais e culturais do século XX.

Vida pessoal

Casou-se com Thérèse Michielsen (conhecida como Miche), com quem teve três filhas. A vida familiar e as suas experiências pessoais, incluindo os seus amores e as suas viagens, influenciaram profundamente a sua escrita. Era conhecido pela sua personalidade intensa e por um certo distanciamento em relação ao estrelato. Embora fosse bem-sucedido, nunca viveu exclusivamente da poesia; as suas gravações e digressões foram a sua principal fonte de rendimento. Tinha uma visão cética sobre a religião organizada, mas uma profunda espiritualidade que se refletia na sua obra.

Reconhecimento e receção

Jacques Brel alcançou grande fama na Europa francófona e no mundo anglófono, especialmente através de adaptações das suas canções. Recebeu aclamação crítica pela sua originalidade e profundidade emocional. Embora não tenha ganho prémios no sentido tradicional, a sua obra foi reconhecida como um marco na música e na literatura do século XX.

Influências e legado

Brel foi influenciado por artistas de cabaré e pela tradição da chanson française. A sua energia performativa e a profundidade lírica influenciaram gerações de cantautores em todo o mundo, incluindo Tom Waits, David Bowie e Leonard Cohen. O seu legado reside na forma como elevou a canção popular a uma forma de arte literária, explorando as emoções humanas com uma franqueza inigualável. As suas canções continuam a ser gravadas e interpretadas por artistas de diversas nacionalidades.

Interpretação e análise crítica

A obra de Brel tem sido interpretada como um espelho das angústias e paixões humanas, explorando temas existenciais como a busca por significado, o amor e a mortalidade. A sua franqueza e intensidade emocional levaram a debates sobre a autenticidade da sua expressão e a sua relação com o público.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Embora seja conhecido pelas suas canções dramáticas, Brel também tinha um sentido de humor aguçado. Passou os seus últimos anos a navegar pelo Pacífico Sul, uma experiência que inspirou algumas das suas últimas composições. Era um perfeccionista na sua escrita e na sua performance.

Morte e memória

Jacques Brel faleceu de cancro do pulmão, tendo sido enterrado nas Ilhas Marquesas. Após a sua morte, várias compilações e gravações de concertos foram publicadas, mantendo viva a sua memória e a sua obra.