Lista de Poemas

Vi apenas uma vez

Vi apenas uma vez
um sol tão ensanguentado.
E nunca mais
Descia funesto sobre o horizonte
e parecia
que alguém havia escancarado as portas do inferno.
Perguntei pelo observatório astronômico
e hoje sei o porquê.
O inferno, conhecemos: está em toda parte
e caminha sobre duas pernas.
E o paraíso?
Talvez o paraíso nada mais seja
além de um sorriso
por muito tempo esperado
e lábios
que murmuram o nosso nome.
E aquele frágil instante fabuloso
quando depressa podemos esquecer-nos
do inferno.
(tradução de Aleksandar Jovanovic)
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Retrato molhado

Aqueles dias lindos
quando a cidade parece um dado, um hino, um ventilador
ou uma concha de vieira à beira-mar
– tchau, tchau, belas garotas,
nos conhecemos hoje
e não nos veremos nunca mais.
Os domingos lindos
quando a cidade parece um futebol, um cartão e uma ocarina
ou um sino indo e vindo
– na rua ensolarada
as sombras dos passantes se beijavam
e eles seguiam, completos desconhecidos.
Aquelas noites lindas
quando a cidade parece uma rosa, um tabuleiro de xadrez, um violino
ou uma garota chorando
– no bar jogávamos dominó, dominó de bolas pretas, com as garotas magrelas,
olhando para seus joelhos
que eram esquálidos
feito dois crânios com as coroas de seda das cinta-ligas
no reino desesperado do amor.
(tradução de Marília Garcia).
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Identificação e contexto básico

Jaroslav Seifert nasceu em Praga, Império Austro-Húngaro (atual República Checa), em 1901, e faleceu na mesma cidade em 1986. Foi um poeta, escritor, jornalista e tradutor checo, amplamente considerado um dos maiores poetas da sua nação e uma figura central da literatura checa do século XX. Foi laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1984 pela sua obra poética que "em cada verso, com uma frescura sensual e invenção, proporciona uma imagem libertadora do espírito indomável e da versatilidade do homem".

Infância e formação

Seifert cresceu em Žižkov, um bairro operário de Praga, onde a vida quotidiana e as suas gentes moldaram a sua sensibilidade. Frequentou o liceu, mas a sua paixão pela literatura e pelo jornalismo levou-o a abandonar os estudos formais para se dedicar à escrita. Foi autodidata, absorvendo influências da poesia europeia e da rica tradição literária checa.

Percurso literário

Seifert iniciou a sua carreira literária como jornalista e poeta. Foi uma figura ativa na cena cultural de Praga, colaborando com diversas publicações e tornando-se uma voz proeminente da sua geração. A sua poesia evoluiu de um lirismo inicial, influenciado pelo surrealismo e pelo poetismo (um movimento vanguardista checo), para uma forma mais introspectiva e reflexiva, marcada pelas experiências históricas que viveu. Foi editor de importantes jornais e revistas literárias, como o "Lidové noviny" e o "Reflex".

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Seifert é vasta e abrange poesia, prosa, ensaios e memórias. As suas coletâneas de poesia mais célebres incluem "Mãos de Fátima" (1935), "Canção sobre a Praga cantada" (1949), "A Coralina" (1967) e "O Anjo Cego" (1981). Os temas centrais da sua obra são o amor, a cidade de Praga, a memória, a beleza da vida quotidiana, a natureza e, sobretudo, a identidade checa e a sua preservação em tempos de opressão. O seu estilo é caracterizado por um lirismo acessível, mas profundo, com um uso magistral da linguagem, do ritmo e da musicalidade. Frequentemente, combinava o trivial com o sublime, o concreto com o abstrato, criando imagens poéticas vívidas e tocantes. Foi associado ao movimento do "poetismo", valorizando a alegria de viver, a espontaneidade e a arte integrada na vida.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Seifert viveu e escreveu durante um período turbulento da história checa, marcado pela Primeira República, a ocupação nazista, o regime comunista e a Primavera de Praga. A sua obra reflete a resiliência e o espírito indomável do povo checo. Foi um crítico subtil, mas firme, das restrições impostas pela censura e pela ideologia política, o que por vezes lhe custou perseguições. Manteve relações com outros importantes intelectuais e artistas checos, sendo uma figura central nos círculos literários e culturais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Seifert teve uma vida pessoal marcada pelas incertezas políticas e pelas perdas. Casou-se duas vezes e teve uma filha. As suas experiências pessoais, os seus amores, as suas perdas e a sua profunda ligação à cidade de Praga serviram de inspiração constante para a sua obra. Profissionalmente, dedicou-se ao jornalismo e à escrita, vivendo largamente da sua produção literária e do seu trabalho editorial.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Jaroslav Seifert gozou de um amplo reconhecimento na Checoslováquia e internacionalmente. Foi uma figura cultuada em vida, com a sua poesia a ser lida e declamada por muitos. O reconhecimento máximo chegou com o Prémio Nobel da Literatura em 1984, um feito histórico para a literatura checa. A sua obra é amplamente traduzida e estudada, sendo considerado um dos poetas europeus mais importantes do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Seifert foi influenciado pela poesia francesa (Apollinaire, Verlaine) e pela tradição literária checa. Por sua vez, a sua obra influenciou gerações de poetas checos e de outros países eslavos. O seu legado reside na sua capacidade de preservar e celebrar a identidade cultural checa através de uma poesia de grande beleza e humanidade, servindo como um farol de esperança e liberdade artística em tempos sombrios.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Seifert é frequentemente analisada sob a ótica da sua resistência cultural e do seu humanismo. A sua poesia é vista como um ato de afirmação da identidade nacional e da liberdade de expressão, mesmo sob regimes autoritários. A crítica destaca a sua habilidade em encontrar o universal no particular e em dar voz aos anseios do povo comum.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Seifert era conhecido pelo seu amor pela música popular, pelo vinho e pela arte. Os seus hábitos de escrita eram regulares, mas também era conhecido pela sua espontaneidade e pelo seu espírito boémio. As suas memórias, como "Toda a Beleza do Mundo" (1982), oferecem vislumbres fascinantes sobre a sua vida e a época em que viveu.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Jaroslav Seifert faleceu em Praga, em 1986. A sua morte foi sentida como uma grande perda para a cultura checa. Póstumamente, a sua obra continuou a ser publicada e a ser objeto de estudo, solidificando o seu lugar como um dos maiores poetas da literatura mundial.