Lista de Poemas

Fluminense FM

O sol, o céu e o sal;
onda cobrindo a areia.

Calçada, porrada, breu,
cerveja noite adentro.

Segredo tanto eu tenho,
só você que escutava,

acho que agora eu morro
um pouco sem tua voz

ouvido, garganta, língua,
sobra um pouco de nada.

Saudade de quem te acredita.
Adeus,
maldita.

956

Cumplicidade

"Give me your hands,
if we be friends."

Se eu vos disser que o mar que agora encaro
me faz um bem supremo ou mal me ampara,
é vero que o seu sal, de gosto extremo,
talvez vos teça a fé que me declara
ser tão feliz que a morte a mim me esqueça
ou sofrimento é só com que deparo.

Mas neste mesmo mar, se eu ponho o vento
vagando pelas crispas das marolas,
haveis de crer que sinto ser mais brando
o que já imaginais das priscas horas;
o que antes era júbilo é só paz,
não passa de um queixume o tal lamento.

E se eu não venho a por escuro ou lume
na tela que o sentido me extravasa,
é que vos trago a forma mais singela
de respeitar o céu que vos abrasa:
deixando, pra tintura do papel
o vosso sentimento que nos une.

850

O papagaio

Não queres mais que me alisar as penas,
sabendo que de nada vale as ter.
Porquanto que em meu corpo são mais belas
e só o suave tacto é o que te espera.
De sensações esparsas me ofereço.

Do mundo que aprendi a olhar de lado
levanto as asas plenas da preguiça,
multicolor no abraço inconseqüente.
E oculto sério, na aridez do bico,
a força que o momento se consente.

Quem sabe, se tiveres muita sorte,
ou a perseverança de quem ama,
ou a vaidade que não tem remédio,
ouvirás de mim, após muito esforço,
um "meu amor" com um olhar que em si se perde.

Pois tudo é indiferente. O que me apraz
é a chuva que me chama e que me molha,
é o sol que me consola quando eu tremo,
e os frágeis girassóis bajuladores
que trazem, a cada dia, meu sustento.

836

Faraó

Escavo ideológico deserto
o chão de escorpião, brilho e serpente.
Pegada o vento leva a areia enterra;
um rei sufoca à tumba de meus dentes.

Palavra que te dou minha palavra
e lavro o sal que levo no meu colo.
Mortalha de lençóis me escondem a cara
e já não mais me ocorre haver outonos.

Ressuscitar no sono dos reversos?
Ofusquem-se amuletos nos olvidos
dos sacrifícios da Kabbalah morta
e do meu sangue o bálsamo retiro.

Um universo escapa-me aos sentidos
e todo um mar revolto em mim revolve
a porta, a chave, a clava e não a clave,
solstícios que aprisionam diamantes.

Dormentes que meus músculos palpitam
no verso dos papiros amarelos.
Estranha a lividez que esconde estrelas
e evola-se nos ecos de meus gritos.

Ó noite que te sei hoje acidente,
acúmulo de enganos perpetuados!
Tivesse achado um poço em vez de um templo,
a sede não teria me levado.

Houvesse inda o elixir que a morte cura,
sucumbiria ao medo da amargura.

978

Da Natureza Dos Anjos

Na casa, o coração era a lareira
e perto, eu descansava os pés gelados.
Não pude achar lembrança mais acesa:
lareira e pés. Sorri - fechava os olhos.

A vista curta de visão extensa - fogo;
a visão curta da vida extensa - negro.
As pálpebras contidas soluçavam.
Lá fora o vento frio uivava assombro.

Os olhos refletiam as labaredas,
as lágrimas ardiam manchas negras.
O fogo era maior fora de mim...
me lembro muito bem que há tanto fora.

Um dia foste parte do brinquedo.
É mesmo séria a história sobre os anjos?
Não posso dormir mesmo sem camisa?
O fogo me guardava - era preciso.

E tinha duas sombras o tapete.
Que voz ouvi atento, e fiquei quieto.
Que as asas não comportam ser tão leve,
os anjos não têm corpo e nem têm forma:

Que quando neste mundo quem precisa
encontra amparo e afeto nos teus ombros
e só por isto torna-te alegria
e a alma é como um fogo que não queima,

um anjo tomou conta do teu corpo
e fez pousada. E dele são teus atos.
Mas anjos não têm asas, é verdade,
portanto não se pode haver quem tolha.

E vai-se embora em busca de outro vivo.
(Mas dizem que, não raro, ele demora
o tempo que demora a vida inteira;
a etérea substância se confina).

973

Late Spring

Amor de floração tardia
colhido ao chão das follhas secas.
Achado casulo de mim mesmo, seco,
fui ficando.

Eu já me despedia de meus anos.

Que já não há rubor nas entressafras,
veias, vias de memórias fracas.
Por que me permito?
Não das manhãs,
que o calor chega atrasado,
mas das tardes talvez,
que vai esfriando, mas fica morno,
morno - terno - e fica,
e fixa, dá calma
e alegria, doce, fragrante.
Destas horas fiz todos os meus dias.

E já não sei se vou, se vôo,
se parto.
Aparto as circunstâncias, ânsias
no meu em-torno.
Suspenso no que sinto e que repenso,
terçãs que desvanescem,
as horas crescem.
Nem todo amor negado às horas pena.

Açucenas. Lírios.
Não vale à alma o vale dos suplícios.
Deixa o aroma enevoar,
emudecer, entreabrir,
que eu sou todo a sombra da sombra,
senão luz própria sem fundo,
imagem que não existe
mas é tudo.
Há muito basta o gesto de sorrir.

Dá-me teus frutos...
é mais que eu merecia.

Amor de floração tardia.

884

Matinal

Madrugada dada
ao firmamento.
O sol
vem trazido ao vento,
rosando o céu
e o roseiral.

Um tom maior
se eleva.
E leva, no colo,
o sonho dormido.
Manhã de novo,
o dia vem vindo.

Passa
o passaredo.
E o meu enredo
é passar
o passado
entre os dedos.

Dura a aurora
duradoura.
Doura
meu olhar.
Lacrimeja
o que a alma almeja.

Pois seja
o que Deus
desejar,
se é verdade
que Deus
deseja.

E apesar
de pesar
tanto a vida,
o meu canto
hoje eu vim
pra cantar.

1 054

Iniciação

Diz-se que, quando menino,
Cristo brincava num vale,
moldando, em estátuas de argila,
as silhuetas das aves.

Era uma tarde de sábado.
O sol dourava as lembranças
mesclando ao frescor das águas
contornos da sua imagem.

Junto da argila molhada
colhida às margens do rio,
pingava o suor de uma fronte
crispada, tranqüila, estante,

como se o mundo parasse
- e há vezes que mesmo pára -
por doze estátuas de pó
que a gênese não contava.

Seu pai de carne esperava
cuidado com seus deveres.
Seu Pai, do Alto, esperava
que o seu fado se cumprisse.

Bem que o pequeno sabia
que o tempo ali era parco
e que furtar os segundos
era entregar-se de triste.

E não foi mais que um suspiro
amalgamado a um sorriso
que, ao levantar-se da terra,
deixou revelar o Cristo.

Mas já de costas pro rio,
criança que ainda era,
chorava que nem criança,
embora engolisse as águas.

E quando já caminhava,
tornou a fitar a margem,
dizendo, com o olhar perdido:
"Haveis de sofrer comigo".

E os passarinhos se foram,
sumindo à vista do vale.
Exceto por um que, antes,
suave, bicou sua face.

928

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Identificação e contexto básico

Jaumir Valença da Silveira foi um poeta, dramaturgo e professor brasileiro. Não há registo de pseudónimos ou heterónimos conhecidos. A sua nacionalidade era brasileira e escrevia em língua portuguesa.

Infância e formação

Informações sobre a infância e formação de Jaumir Valença da Silveira não são amplamente divulgadas, mas sua trajetória aponta para um forte interesse pelas artes e pela literatura desde cedo. Presume-se que tenha tido uma formação voltada para as humanidades, dada a sua atuação posterior como professor.

Percurso literário

O percurso literário de Jaumir Valença da Silveira abrangeu a poesia e o teatro. Dedicou-se à escrita poética, explorando temas universais e uma linguagem elaborada. Sua obra dramática também contribuiu para o cenário cultural brasileiro. Não há informações detalhadas sobre colaborações em revistas ou antologias específicas, nem sobre sua atividade como crítico ou tradutor.

Obra, estilo e características literárias

As obras de Jaumir Valença da Silveira exploram temas como o amor, a solidão, a passagem do tempo e a transcendência. Seu estilo poético é caracterizado por uma linguagem rica em imagens e musicalidade, com uma voz lírica e reflexiva. Utilizava recursos poéticos para expressar a complexidade dos sentimentos humanos. A relação com a tradição literária e a modernidade é marcada por uma sensibilidade que dialoga com ambas.

Contexto cultural e histórico

Como intelectual e artista, Jaumir Valença da Silveira inseriu-se no contexto cultural brasileiro, contribuindo para o cenário literário e educacional de sua época. A sua obra reflete, possivelmente, as inquietações e os debates culturais do período em que viveu, embora não haja registos de envolvimento direto com movimentos literários específicos ou posições políticas declaradas.

Vida pessoal

Os detalhes sobre a vida pessoal de Jaumir Valença da Silveira são escassos. Sabe-se de sua atuação como professor, o que sugere um compromisso com a educação e a disseminação do conhecimento. Relações afetivas, familiares e amizades significativas que possam ter moldado sua obra não são amplamente documentadas.

Reconhecimento e receção

O reconhecimento da obra de Jaumir Valença da Silveira advém de sua contribuição para a poesia e o teatro brasileiros. Embora não haja informações sobre prémios ou distinções específicas, sua atuação como poeta e dramaturgo consolidou seu lugar no panorama literário. A receção crítica e o reconhecimento acadêmico de sua obra, em vida e postumamente, carecem de documentação detalhada.

Influências e legado

As influências literárias de Jaumir Valença da Silveira não são explicitamente documentadas, mas sua poesia sugere uma familiaridade com a tradição lírica. Seu legado reside na força expressiva de seus versos e em sua contribuição para a literatura brasileira, inspirando, possivelmente, gerações futuras de escritores pela sua sensibilidade e originalidade.

Interpretação e análise crítica

A obra de Jaumir Valença da Silveira convida a interpretações sobre a condição humana, a efemeridade da vida e a busca por significado. A análise crítica de seus poemas pode focar na exploração de temas existenciais e na beleza de sua linguagem poética, buscando compreender as camadas de sentido em seus versos.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Informações curiosas ou aspetos menos conhecidos da vida e obra de Jaumir Valença da Silveira não são amplamente disponíveis em fontes públicas. A escassez de detalhes sobre seus hábitos de escrita ou episódios marcantes limita a exploração deste campo.

Morte e memória

Não há informações detalhadas sobre as circunstâncias da morte de Jaumir Valença da Silveira. Publicações póstumas, se existirem, também não são amplamente documentadas. Sua memória perdura através de sua obra literária e de sua atuação no campo da educação.