Lista de Poemas

Os dois pombos

(Epílogo)

O vós que vos amais, quereis então viajar?
Não
seja nunca muito longe.
E sede mutuamente um mundo sempre lindo,
Sempre
novo, sempre sorrindo.
A sós, tudo supri, nada vos dê cuidado.
Eu amei uma vez: e por isso, jamais,
Por
tesouros, paços reais,
Por todo o firmamento e o céu todo estrelado,
Eu
trocaria algum lugar
Honrado pelos pés, aceso pelo olhar
Da
querida pastora em flor
A
quem, ferido pelo Amor,
Servi, preso por meus primeiros juramentos.
Ai! quando voltarão semelhantes momentos?
Tanta amável mulher, cheia de encantamentos,
Ao léu, me deixará, de minha alma inconstante?
Ai! se de novo o peito ousara se inflamar!
E não mais sentirei afeição que me encante?
Já se foi
meu tempo de amar?

 

3 159

Solidão

Solidão, que me dás um deleite profundo,
Sítios que sempre amei, não poderei jamais,
Bem longe dos salões, gozar de sombra e paz?
Quando vão me prender as guaridas amenas,
E poderão, longe dos paços, as Camenas
Me atrair e ensinar dos céus, do firmamento
O que aos olhos escapa - o errante movimento,
Os nomes e o valor dos astros peregrinos,
Por quem marcados são condutas e destinos?
Se à vida não cheguei pra grandes aparatos,
Ao menos aprecie o encanto dos regatos!
Que em meu verso apareça uma veiga florida!
De ouro não tecerá a Parca a minha vida,
Eu nunca dormirei rodeado de lambris:
E, por isso, em meu leito, hei-de ser infeliz?
Menos profundo o sono e menor seu prazer?
Nos ermos, oblações lhe haverei de fazer.
Quando o instante vier de os mortos alcançar,
Sereno já vivi e morro sem pesar.

 

1 467

Epigrama

Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo.
A volúpia e os prazeres são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisso, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco,
Foder sem amar não é nada.

3 626

Invocação à volúpia

Sem ti, doce Volúpia, o viver e o morrer
Teriam, desde o berço, idêntico valor:
De toda a criação, universal pendor,
Com que força fatal, tu consegues prender!
Tudo, por ti,
aqui se passa.
Por tua causa e
tua graça,
A duras penas
todos vão:
Não há soldado,
capitão,
Nem fidalgo, plebeu, nem Ministro de Estado,
Que em ti não
tenha o olhar pregado
Das Musas na afeição, se, de serões nascido,
Um agradável som não nos encanta o ouvido,
E se ele não nos traz amena sensação,
Tentamos nós uma
canção?
O que, pomposamente, é chamado de glória
E, nos jogos dOlimpo, exalçava a vitória,
Precisamente, és tu, Volúpia divinal.
E seu preço não tem o prazer sensual?
E então por que
os dons de Flora,
O pôr-do-sol, a
linda Aurora,
Pomona e seus
finos manjares,
Baco, razão dos
bons jantares,
Florestas,
fontes, pradarias,
Mães de
fagueiras fantasias?
Belas artes, por quê? de quem és a nascente,
Por que tanta beldade, amável, atraente,
Se não pra vires, até nós, sempre morar?
Eis o meu parecer, por mais procure alguém
O seu desejo
castigar,
Algum prazer inda
lhe vem.

Ó Volúpia gentil, que, na Grécia de outrora,
De um pensador
foste senhora,
Não me desprezes não: vem à minha morada,
Não ficarás sem
fazer nada:
Amo os livros, o amor, música e diversão,
Cidade, campo, enfim; o mundo nada tem
Que não me seja
enorme bem,
Mesmo o aflito prazer de um triste coração.
Vem, pois, e desse bem, ó Volúpia querida,
Queres então saber a medida acertada?
Pelo menos preciso uns cem anos de vida,
Pois trinta só
é quase nada...

 

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Identificação e contexto básico

Jean de La Fontaine nasceu em Château-Thierry, França. Foi um poeta e fabulista francês, figura proeminente do século XVII. A sua obra é escrita em francês.

Infância e formação

Nascido numa família burguesa, La Fontaine recebeu uma educação clássica, estudando no Oratório de Paris e posteriormente direito. No entanto, a sua inclinação para a literatura manifestou-se cedo, afastando-o das expectativas familiares e profissionais mais convencionais. Foi influenciado por autores da Antiguidade Clássica, como Esopo e Fedro, e também por autores contemporâneos.

Percurso literário

La Fontaine começou a sua carreira literária com obras teatrais e contos, mas foi com as suas Fábulas que alcançou a fama duradoura. Publicou a primeira coleção em 1668, seguida por outras ao longo da sua vida, culminando na edição definitiva em 1694. Colaborou em diversas publicações da época e foi eleito para a Academia Francesa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais célebres de La Fontaine são as suas Fábulas, divididas em doze livros, que incluem narrativas como "A Cigarra e a Formiga", "O Corvo e a Raposa" e "O Leão e o Rato". Os temas dominantes versam sobre a natureza humana, a sociedade, a astúcia, a vaidade, a justiça e a moralidade. O seu estilo é marcado pela elegância, musicalidade e um tom muitas vezes irónico e satírico. Utilizou predominantemente o verso e a prosa, com grande mestria rítmica e imagética. A sua linguagem é clássica, mas acessível, com uma subtileza que permite múltiplas leituras. La Fontaine soube inovar ao adaptar as fábulas antigas à sua época, dotando os animais de características humanas e explorando as nuances sociais e morais com profundidade. É associado ao Classicismo francês.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico La Fontaine viveu durante o reinado de Luís XIV, um período de grande esplendor cultural na França, mas também de forte controlo social e político. A sua obra, embora aparentemente simples, continha críticas subtis à corte e à sociedade da época, o que por vezes lhe valeu desaprovação. Manteve relações com outros intelectuais e escritores do seu tempo, fazendo parte de círculos literários influentes.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Casou-se com Marie Héricart, mas o casamento não foi feliz, e separaram-se mais tarde. Teve um filho. A sua vida pessoal foi marcada por alguma instabilidade e por uma certa relutância em seguir os caminhos tradicionais, preferindo a liberdade criativa. Foi amigo de Madame de La Sablière, que lhe deu apoio e refúgio.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, La Fontaine foi reconhecido pelos seus pares e eleito para a Academia Francesa. As suas Fábulas rapidamente se tornaram um clássico, admiradas pela sua beleza literária e pela sabedoria que transmitiam. A sua obra atravessou gerações e fronteiras, mantendo-se popular e estudada.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado La Fontaine foi profundamente influenciado pelos fabulistas da Antiguidade, como Esopo e Fedro, e também por contadores de histórias medievais. O seu legado é imenso, tendo influenciado inúmeros escritores posteriores em todo o mundo, não só pela forma como contou as fábulas, mas pela profundidade psicológica e pela mestria linguística. É considerado um dos pilares da literatura francesa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de La Fontaine tem sido interpretada de diversas formas, desde alegorias morais simples até críticas sociais veladas. A sua capacidade de retratar a complexidade das relações humanas através de animais tornou-se um modelo para a análise da natureza humana e das estruturas de poder.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos La Fontaine era conhecido por ser um conversador ameno e por uma certa distração. Diz-se que, por vezes, esquecia-se das suas próprias obras, precisando de as reler. A sua dedicação às Fábulas, mesmo quando outras formas literárias eram mais prestigiadas, demonstra a sua paixão e convicção.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Jean de La Fontaine faleceu em Paris. A sua memória é celebrada como a de um dos maiores contadores de histórias e moralistas da literatura mundial. As suas Fábulas continuam a ser publicadas e lidas em todo o mundo, garantindo a sua perenidade.