Lista de Poemas

SE AO PÉ DA ETERNIDADE NOSSA VIDA

Se ao pé da eternidade nossa vida
É quase nada e os anos que se vão
Arrastam nossos dias sem perdão,
E se o que vem à luz vai de vencida,

O que esperas ainda, alma sofrida?
Por que te apraz da vida a escuridão,
Se pra alcançar mais lúcida mansão,
Uma asa tens às costas estendida?

É lá que existe o bem que a alma deseja,
Lá, toda paz por quem o mundo almeja,
O verdadeiro amor, delícia tanta!

E lá, minha alma, te elevando ao céu,
Hás de reconhecer, então, sem véu,
A Idéia da beleza que me encanta.

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HEUREUX QUI COMME ULYSSE

Feliz quem como Ulisses fez tão bela viagem,
Ou como o que buscou e conquistou o Tosão,
E prenhe regressou, de ciência e de razão,
A viver entre os seus o mais desta passagem.

Ai quando reverei da minha aldeia a imagem,
Seus lares fumegando, e qual será a estação
Em que verei de novo essa pobre mansão
Que para mim val mais que torre de menagem?

Mais me praz de avós meus este solar tranquilo,
Que de palácio em Roma o audacioso estilo.
Mais do que o duro mármore uma ardósia fina,

Mais o meu Loire gaulês que o Tibre tão latino,
Mais o menor Liré que o Monte Palatino,
E mais que o ar marinho a doçura angevina.

(Tradução de Jorge de Sena)

1 841

Ó FRANÇA, MÃE DAS LEIS

O França, mãe das leis, das artes e das lutas,
O leite do teu seio amamentou-me outrora:
Em busca do redil, como um cordeiro, agora,
Teu nome eu vou dizendo às florestas e às grutas.

Então, cruel, por que sem resposta me deixas,
Se, como filho teu, já fui reconhecido?
França, França, responde a meu triste gemido.
Somente me responde o eco das minhas queixas.

Entre os lobos cruéis, os campos percorrendo,
Sinto chegar o inverno, o seu gelo trazendo
A meu corpo transido arrepio tamanho.

A cordeiro nenhum tem faltado alimento,
Nenhum receia o lobo, a friagem e o vento:
E no entanto não sou a escória do rebanho.

1 138

JUDO QUANTO RODEIA A NATUREZA

Tudo quanto rodeia a Natureza,
Quanto mais cedo nasce, menos dura;
Da primavera o manto de verdura
Em breve perde a flórida beleza.

No calor, do trovão são fácil presa
Os frutos que receiam a friúra;
E contra o inverno têm pele mais dura
Os tardos, que do outono são riqueza.

As florinhas de tua mocidade
Breve serão colhidas sem piedade,
Não a virtude, o espírito, a razão.

A esses frutos, em ti tão promissores,
Não dá outono nem verão temores,
Nem o rigor da gélida sazão.

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Identificação e contexto básico

Joachim Du Bellay foi um poeta e humanista francês. Nasceu em 1522, no castelo de la Turmelière, Liré (então no Ducado da Bretanha, hoje Maine-et-Loire), e faleceu em 1560, em Paris. É uma figura capital do Renascimento francês e um dos fundadores do grupo literário conhecido como La Pléiade. A sua nacionalidade era francesa e a língua em que escreveu foi o francês.

Infância e formação

Du Bellay pertencia a uma família nobre, embora não das mais ricas ou influentes. Teve uma saúde frágil na juventude, o que pode ter influenciado a sua introspeção. Iniciou os seus estudos em direito, mas a sua paixão pelas letras levou-o a dedicar-se à poesia e à filologia. Foi em Paris, onde estudou, que conheceu Pierre de Ronsard, com quem viria a formar a La Pléiade. A leitura dos clássicos greco-latinos e dos humanistas italianos teve um papel crucial na sua formação, assim como a crescente valorização das línguas vulgares na Europa.

Percurso literário

O seu percurso literário é indissociável do movimento da La Pléiade, fundado em 1549. Este grupo visava elevar o francês ao nível das línguas clássicas, através da imitação e adaptação dos modelos antigos e da criação de novas obras em francês. Du Bellay tornou-se rapidamente um dos líderes intelectuais do grupo, sendo o autor do manifesto programático 'Défense et illustration de la langue française' (1549). Logo no ano seguinte, publicou as suas primeiras coletâneas poéticas, 'L'Olive' e 'Les Sonnets de l'Hélène', que consolidaram a sua reputação. A sua obra abrange poesia lírica, sonetos e ensaios de crítica literária.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Du Bellay é marcada pela sua dedicação à língua francesa e pela exploração de temas líricos profundos. 'Défense et illustration de la langue française' é um texto crucial onde defende a nobreza e a riqueza do francês, propondo um enriquecimento vocabular e estilístico através da inspiração nos clássicos e na poesia italiana. Na sua poesia, como em 'L'Olive' (sonetos inspirados em Petrarca) e 'Les Sonnets de l'Hélène' (dedicados a Hélène de Surgères), aborda temas como o amor, a beleza, a melancolia, a glória, a passagem do tempo e o exílio. O seu estilo é elegante, musical e repleto de imagens líricas, utilizando frequentemente o soneto. Ao lado de Ronsard, Du Bellay é um dos grandes renovadores da poesia francesa, adaptando modelos clássicos à sensibilidade renascentista e afirmando o francês como língua literária de pleno direito.

Contexto cultural e histórico

Du Bellay viveu durante o auge do Renascimento em França, um período de intensa efervescência cultural e intelectual, marcado pelo humanismo, pela redescoberta dos clássicos e pela afirmação das línguas nacionais. A La Pléiade, da qual fez parte, surgiu como uma resposta à necessidade de criar uma literatura francesa de qualidade, capaz de rivalizar com as das outras grandes nações europeias. O contexto era de reformas religiosas e de tensões políticas em França.

Vida pessoal

Du Bellay manteve relações próximas com outros membros da La Pléiade, como Ronsard. A sua vida foi marcada por viagens, nomeadamente a Roma, onde serviu o seu tio Jean Du Bellay, o que lhe proporcionou contacto direto com a antiguidade clássica e com a arte renascentista italiana. Este período de exílio voluntário inspirou alguns dos seus poemas mais melancólicos e reflexivos sobre a pátria e a passagem do tempo.

Reconhecimento e receção

A sua obra foi imediatamente reconhecida pelos contemporâneos como fundamental para a literatura francesa. A 'Défense et illustration' tornou-se um texto de referência para os escritores que o sucederam. A sua poesia lírica, embora por vezes ofuscada pela de Ronsard, foi igualmente admirada pela sua delicadeza e profundidade. O seu legado é imenso, tendo sido um dos principais responsáveis pela consagração do francês como língua literária.

Influências e legado

Du Bellay foi profundamente influenciado pelos poetas greco-latinos (como Horácio e Ovídio) e pelos humanistas italianos (como Petrarca). Por sua vez, influenciou gerações de poetas franceses e de outras nacionalidades, que viram na sua obra um modelo de como a língua vulgar podia atingir a mais alta expressão poética. A sua defesa da língua francesa abriu caminho para o desenvolvimento da literatura em língua francesa nos séculos vindouros.

Interpretação e análise crítica

A obra de Du Bellay é objeto de análise crítica contínua, focada na sua mestria formal, na profundidade da sua exploração de temas universais como o amor e o exílio, e no seu papel crucial na definição da identidade literária francesa. A dualidade entre a celebração da língua e a melancolia existencial é um ponto recorrente de estudo.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Apesar de ser conhecido principalmente pela sua atividade literária, Du Bellay também teve uma carreira eclesiástica, tornando-se cônego e, mais tarde, bispo. No entanto, a sua vocação literária prevaleceu.

Morte e memória

Joachim Du Bellay faleceu precocemente, aos 38 anos, em Paris. As circunstâncias exatas da sua morte não são totalmente claras, mas acredita-se ter sido devido a causas naturais. A sua memória perdura como um dos pilares da literatura francesa e um defensor inestimável da sua língua.