João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

João Airas de Santiago foi um trovador galego-português, ativo no século XIII. Pertence ao período da lírica medieval em língua galego-portuguesa, sendo conhecido pelas suas cantigas, especialmente as de amor e de amigo. Sua obra, embora pertencente a um contexto literário específico, reflete as convenções da poesia trovadoresca, explorando temas como o amor cortês e a saudade, e contribuindo para o património da literatura medieval da Península Ibérica.

n. Séc. XIII, Santiago de Compostela

47 265 Visualizações

Dom Beeito, Home Duro

Dom Beeito, home duro,
foi beijar pelo oscuro
       a mia senhor.

Come home aventurado,
foi beijar pelo furado
       a mia senhor.

Vedes que gram desventura:
beijou pela fendedura
       a mia senhor.

Vedes que mui grand'abaco:
foi beijar polo buraco
       a mia senhor.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

João Airas de Santiago foi um trovador galego-português, cuja atividade poética se situou no século XIII. É uma figura proeminente da chamada "Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Santiago de Compostela", o que sugere uma forte ligação à região da Galiza. O seu nome indica uma origem familiar ou uma afiliação à Ordem de Santiago.

Infância e formação

A informação sobre a infância e formação de João Airas de Santiago é escassa, como é comum para a maioria dos trovadores medievais. Presume-se que, como outros trovadores de renome, tenha tido acesso a uma educação que lhe permitisse dominar a arte da composição poética e musical, no contexto da sociedade cortesã da época.

Percurso literário

O percurso literário de João Airas de Santiago está centrado na produção de cantigas, que são o género poético característico da lírica galego-portuguesa medieval. A sua obra é composta por cantigas de amor e de amigo, demonstrando a maestria nas formas e nos temas convencionais da poesia trovadoresca.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de João Airas de Santiago incluem um conjunto de cantigas, das quais se destacam algumas cantigas de amor, que seguem o modelo do amor cortês, e cantigas de amigo, que expressam a voz feminina e a saudade. O seu estilo é caracterizado pela musicalidade, pela elegância formal e pela expressão de sentimentos de forma convencional, mas sincera, dentro dos preceitos da lírica trovadoresca. A sua obra contribui para o corpus da poesia galego-portuguesa medieval, revelando as sensibilidades e os temas que moldavam a produção literária daquele período.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico João Airas de Santiago viveu durante o século XIII, um período marcado pela expansão dos reinos cristãos na Península Ibérica e pela consolidação de uma cultura cortesã onde a poesia trovadoresca florescia. A sua ligação a Santiago de Compostela insere-o num importante centro cultural e religioso da época. A poesia galego-portuguesa era a língua de expressão literária privilegiada para a lírica na Península Ibérica nesse período.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe sobre a vida pessoal de João Airas de Santiago. A sua afiliação à Ordem de Santiago e a sua ligação a Compostela são os aspetos mais conhecidos da sua biografia, sugerindo uma vida ligada a atividades religiosas ou militares, além da sua atividade como trovador.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de João Airas de Santiago advém do seu lugar como um dos trovadores da lírica galego-portuguesa. A sua obra foi preservada em cancioneiros medievais, o que permitiu a sua sobrevivência até aos dias de hoje e o seu estudo por parte de investigadores da literatura medieval.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Como trovador, João Airas de Santiago insere-se na tradição da poesia lírica cortesã que se desenvolveu na Europa medieval. O seu legado reside na contribuição para o repertório da poesia galego-portuguesa, um património literário fundamental para a história da língua e da literatura em Portugal e na Galiza.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A análise crítica da obra de João Airas de Santiago foca-se na sua adesão às convenções da cantiga de amor e de amigo, bem como na sua capacidade de expressar as emoções humanas dentro de um quadro formal específico.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A sua ligação à Ordem de Santiago e a cidade de Compostela confere-lhe um interesse particular, sugerindo uma vida que conjugava a prática religiosa ou militar com a arte poética.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória As circunstâncias da morte de João Airas de Santiago são desconhecidas, tal como a data exata da sua morte. A sua memória perdura através das suas cantigas, preservadas nos cancioneiros medievais.

Poemas

81

Nom Vos Sabedes, Amigo, Guardar

Nom vos sabedes, amigo, guardar
de vos saberem, por vosso mal sem,
como me vós sabedes muit'amar,
nem a gram coita que vos por mi vem;
       e quero-vos end'eu desenganar:
       se souberem que mi queredes bem,
       quite sodes de nunca mi falar.

Per nulha rem nom me posso quitar
de falar vosc'e sempre me temi
de mi o saberem, ca m'ham d'alongar
de vós, se o souberem, des ali;
       e quero-vos end'eu desenganar:
       se souberem que mi queredes bem,
       quite sodes de nunca mi falar.

Do que me guarda tal é seu cuidar:
que amades, amig', outra senhor;
ca, se a verdade poder osmar,
nunca ver[r]edes jamais u eu for;
       e quero-vos end'eu desenganar:
       se souberem que mi queredes bem,
       quite sodes de nunca mi falar.

E se havedes gram coita d'amor,
havê-la-edes per mi [mui] maior,
ca de longi mi vos farám catar.
273

Nom Que[I]Ra Deus Em Conto Receber

Nom que[i]ra Deus em conto receber
os dias que vivo sem mia senhor,
porque os vivo mui sem meu sabor;
mailos dias que m'Ele fez[er] viver
u a veja e lhi possa falar
esses Lhi quer'eu em conto filhar,
ca nom é vida viver sem prazer.

E se m'Ele fez[er] algũa sazom
viver com ela quanto mi aprouguer,
esses dias mi cont'El, se quiser,
que eu com ela viver, e mais nom;
de mia vida mais nom vos contarei,
dos dias que a meu pesar passei,
ca nom foi vida, mais foi perdiçom.

Ca nom é vida viver hom'assi
com'hoj'eu vivo u mia senhor nom é,
ca par de morte m'é, per boa fé;
e se mi Deus contar quanto vevi,
nom cont'os dias que nom passei bem,
mais El, que os dias em poder tem,
dê-mi outros tantos por quanto[s] perdi.

Ca [a] El dias nunca minguará[m]
e eu serei bem andant', e serám
cobrado'los meus dias que perdi.
546

O Voss'amig'há de Vós Gram Pavor

O voss'amig'há de vós gram pavor,
ca sab'el que vos fazem entender
que foi, amiga, de vós mal dizer;
mais voss'amigo diz end'o melhor:
       que, de quanto disse de vós e diz,
vó'lo julgad'assi come senhor;
       ca diz que nom quer i outro juiz.

Queixades-vos del, mais, se Deus quiser,
saberedes, a pouca de sazom,
que nunca disse de vós se bem nom,
nem dirá, mais diz quant'i há mester:
       que, de quanto disse de vós e diz,
vó'lo julgade como vos prouguer;
       ca diz que nom quer i outro juiz.

Rogou-m'el muito que vos jurass'eu
que nunca disse de vós senom bem,
nen'o dirá, e ar diz outra rem,
e nom há mais que diga, cuido-m'eu:
       que, de quanto disse de vós e diz,
vós julgad'i o voss[o] e o seu;
       ca diz que nom quer i outro juiz.

Filhad'o seu preito, como [el] diz,
sobre vós, e conselho-vo-lo eu,
e nom ponhades i outro juiz.
316

Meu Senhor Rei de Castela

Meu senhor rei de Castela,
venho-me vos querelar:
eu amei ũa donzela,
por que m'ouvistes trobar;
e com quem se foi casar,
por quant'eu dela bem dixi,
quer-m'ora por en matar.

Fiador pera dereito
lhi quix perante vós dar;
el houve de mim despeito
e mandou-me desafiar;
nom lh'eu sei alá morar,
venh'a vós que m'emparedes
ca nom hei quem m'emparar.

Senhor, por Santa Maria,
mandad'ante vós chamar
ela e mim algum dia,
mandade-nos razõar:
se s'ela de mim queixar
de nulha rem que dissesse,
em sa prisom quer'entrar.

Se mi justiça nom val
ante rei tam justiceiro,
ir-m'-ei ao de Portugal.
738

Ai Mia Filha, de Vós Saber Quer'eu

- Ai mia filha, de vós saber quer'eu
porque fezestes quanto vos mandou
voss'amigo, que vos nom ar falou.
- Par Deus, mia madre, direi-vo-lo eu:
       cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
       e semelha-mi que nom est assi.

- Por que fezestes, se Deus vos dê bem,
filha, quanto vos el vẽo rogar?
Ca des entom nom vos ar quis falar.
- Direi-vo-l[o] eu, se Deus mi dê bem:
       cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
       e semelha-mi que nom est assi.

- Por que fezestes, se Deus vos perdom,
filha, quanto vos el vẽo dizer?
Ca des entom nom vos ar quis veer.
- Direi-vo-l[o] eu, se Deus mi perdom:
       cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
       e semelha-mi que nom est assi.

[E] bom dia naceu, com'eu oí,
que[m] se doutro castiga e nom de si.
707

Vai-S', Amiga, Meu Amigo Daqui

Vai-s', amiga, meu amigo daqui
triste, ca diz que nunca lhi fiz bem,
mais, se o virdes ou ante vós vem,
dizede-lhi ca lhi dig'eu assi:
       que se venha mui ced'e, se veer
       cedo, que será como Deus quiser.

Per bõa fé, nom lhi poss'eu fazer
bem, e vai triste no seu coraçom,
mais, se o virdes, se Deus vos perdom,
dizede-lhi que lhi mand'eu dizer
       que se venha mui ced'e, se veer
       cedo, que será como Deus quiser.

Queixa-s'el e diz que sempre foi meu,
e diz gram dereito, per bõa fé,
e nom lhi fiz bem, e tem que mal é,
mais dizede-lhi vós que lhi dig'eu
       que se venha mui ced'e, se veer
       cedo, que será como Deus quiser.

E nom se queixe, ca nom lh'há mester,
e filhe o bem quando lho Deus der.
513

Quand'eu Fui Um Dia Vosco Falar

Quand'eu fui um dia vosco falar,
meu amigo, figi-o eu por bem,
e enfengestes-vos de mim por en;
mais, se vos eu outra vez ar falar,
       logo vós dizede[s] ca fezestes
       comigo quanto fazer quisestes.

Ca, meu amigo, falei eu ũa vez
convosco, por vos de morte guarir,
e fostes-vos vós de mim enfingir;
mais, se vos eu [ar] falar outra vez,
       logo vós dizede[s] ca fezestes
       comigo quanto fazer quisestes.

Ca mui bem sei eu que nom fezestes
o meio de quanto vós dissestes.
724

Ai Mia Filha, Por Deus, Guisade Vós

Ai mia filha, por Deus, guisade vós
que vos veja [e]sse fustam trager
voss'amig'e, tod'a vosso poder,
veja-vos bem com el estar em cós;
       ca, se vos vir, sei eu ca morrerá
       por vós, filha, ca mui bem vos está.

Se vo'lo fustam estevesse mal,
nom vos mandaria ir ant'os seus
olhos, mais guisade cedo, por Deus,
que vos veja, nom façades end'al;
       ca, se vos vir, sei eu ca morrerá
       por vós, filha, ca mui bem vos está.

E como quer que vos el[e] seja
sanhudo, pois que vo'lo fustam vir,
haverá gram sabor de vos cousir,
e guisade vós como vos veja;
       ca, se vos vir, sei eu ca morrerá
       por vós, filha, ca mui bem vos está.
689

Algum Bem Mi Deve Ced'a Fazer

Algum bem mi deve ced'a fazer
Deus, e fará-mi-o quando Lh'aprouguer:
sempr'ando led'e quem mi falar quer
em pesar, nom lho posso padecer,
mais fuj'ant'el e nom lho quer'oir;
des i ar hei gram sabor de guarir
com quem sei que quer falar em prazer.

Ca todos andam cuidando em haver
e outra rem nom querem cuidar já,
e morrem ced'e fica tod'acá;
mais esto migo nom podem põer
- que trob'e cant'e cuido sempr'em bem,
e tenh'amiga que faz mui bom sem,
[e] pod'o tempo passar em prazer.

Nostro Senhor, que há mui gram poder,
é sempre ledo no seu coraçom,
e som mui ledos quantos com El som;
por en faz mal, quant'é meu conhocer,
o que trist'é, que sempre cuida mal,
ca um pobre ledo mil tanto val
ca rico triste em que nom há prazer.
562

Alguém Vos Diss', Amig', E Sei-O Eu

Alguém vos diss', amig', e sei-o eu,
por mi miscrar convosco, que falei
com outr'homem, mais nunca o cuidei,
e, meu amig', e direi-vo-l[o] eu:
       de mentira nom me poss'eu guardar,
       mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.

Alguém sabe que mi queredes bem
e pesa-lh'end'e nom pod'al fazer
senom que mi quer mentira põer;
[e] meu amig'e meu lum'e meu bem
       de mentira nom me poss'eu guardar,
       mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.

E bem sei de quem tam gram sabor há
de mentir e nom teme Deus nem al,
que mi assaca tal mentira e al,
[e], meu amig', e vedes quant'i há:
       de mentira nom me poss'eu guardar,
       mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.

De fazer mentira sei-m'eu guardar,
mais nom de quem me mal quer assacar.
914

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.