João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

João Airas de Santiago foi um trovador galego-português, ativo no século XIII. Pertence ao período da lírica medieval em língua galego-portuguesa, sendo conhecido pelas suas cantigas, especialmente as de amor e de amigo. Sua obra, embora pertencente a um contexto literário específico, reflete as convenções da poesia trovadoresca, explorando temas como o amor cortês e a saudade, e contribuindo para o património da literatura medieval da Península Ibérica.

n. Séc. XIII, Santiago de Compostela

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Ua Dona, Nom Dig'eu Qual

Ũa dona, nom dig'eu qual,
nom aguirou ogano mal:
polas oitavas de Natal,
ia por sa missa oir,
e [houv'] um corvo carnaçal,
       e nom quis da casa sair.

A dona, mui de coraçom,
oíra sa missa entom,
e foi por oír o sarmom,
e vedes que lho foi partir:
houve sig'um corv'a carom,
       e nom quis da casa sair.

A dona disse: - Que será?
E i o clérig'está já
revestid'e maldizer-m'-á
se me na igreja nom vir.
E diss'o corvo: – Quá, cá;
       e nom quis da casa sair.

Nunca taes agoiros vi
des aquel dia em que naci
com'aquest'ano houv'aqui;
e ela quis provar de s'ir
e houv'um corvo sobre si
       e nom quis da casa sair.
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Biografia

Identificação e contexto básico

João Airas de Santiago foi um trovador galego-português, cuja atividade poética se situou no século XIII. É uma figura proeminente da chamada "Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Santiago de Compostela", o que sugere uma forte ligação à região da Galiza. O seu nome indica uma origem familiar ou uma afiliação à Ordem de Santiago.

Infância e formação

A informação sobre a infância e formação de João Airas de Santiago é escassa, como é comum para a maioria dos trovadores medievais. Presume-se que, como outros trovadores de renome, tenha tido acesso a uma educação que lhe permitisse dominar a arte da composição poética e musical, no contexto da sociedade cortesã da época.

Percurso literário

O percurso literário de João Airas de Santiago está centrado na produção de cantigas, que são o género poético característico da lírica galego-portuguesa medieval. A sua obra é composta por cantigas de amor e de amigo, demonstrando a maestria nas formas e nos temas convencionais da poesia trovadoresca.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de João Airas de Santiago incluem um conjunto de cantigas, das quais se destacam algumas cantigas de amor, que seguem o modelo do amor cortês, e cantigas de amigo, que expressam a voz feminina e a saudade. O seu estilo é caracterizado pela musicalidade, pela elegância formal e pela expressão de sentimentos de forma convencional, mas sincera, dentro dos preceitos da lírica trovadoresca. A sua obra contribui para o corpus da poesia galego-portuguesa medieval, revelando as sensibilidades e os temas que moldavam a produção literária daquele período.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico João Airas de Santiago viveu durante o século XIII, um período marcado pela expansão dos reinos cristãos na Península Ibérica e pela consolidação de uma cultura cortesã onde a poesia trovadoresca florescia. A sua ligação a Santiago de Compostela insere-o num importante centro cultural e religioso da época. A poesia galego-portuguesa era a língua de expressão literária privilegiada para a lírica na Península Ibérica nesse período.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe sobre a vida pessoal de João Airas de Santiago. A sua afiliação à Ordem de Santiago e a sua ligação a Compostela são os aspetos mais conhecidos da sua biografia, sugerindo uma vida ligada a atividades religiosas ou militares, além da sua atividade como trovador.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de João Airas de Santiago advém do seu lugar como um dos trovadores da lírica galego-portuguesa. A sua obra foi preservada em cancioneiros medievais, o que permitiu a sua sobrevivência até aos dias de hoje e o seu estudo por parte de investigadores da literatura medieval.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Como trovador, João Airas de Santiago insere-se na tradição da poesia lírica cortesã que se desenvolveu na Europa medieval. O seu legado reside na contribuição para o repertório da poesia galego-portuguesa, um património literário fundamental para a história da língua e da literatura em Portugal e na Galiza.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A análise crítica da obra de João Airas de Santiago foca-se na sua adesão às convenções da cantiga de amor e de amigo, bem como na sua capacidade de expressar as emoções humanas dentro de um quadro formal específico.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A sua ligação à Ordem de Santiago e a cidade de Compostela confere-lhe um interesse particular, sugerindo uma vida que conjugava a prática religiosa ou militar com a arte poética.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória As circunstâncias da morte de João Airas de Santiago são desconhecidas, tal como a data exata da sua morte. A sua memória perdura através das suas cantigas, preservadas nos cancioneiros medievais.

Poemas

81

Par Deus, Amigo, Nom Sei Eu Que É

Par Deus, amigo, nom sei eu que é,
mais muit'há já que vos vejo partir
de trobar por mi e de me servir,
mais ũa destas é, per bõa fé:
       ou é per mi, que vos nom faço bem,
       ou é sinal de morte que vos vem.

Mui gram temp'há, e tenho que é mal,
que vos nom oí já cantar fazer,
nem loar-mi, nem meu bom parecer,
mais ũa destas é, u nom ja[z] al:
       ou é per mi, que vos nom faço bem,
       ou é sinal de morte que vos vem.

Já m'eu do tempo acordar nom sei
que vos oísse fazer um cantar,
como soíades, por me loar,
mais ũa destas é que vos direi:
       ou é per mi, que vos nom faço bem,
       ou é sinal de morte que vos vem.

Se é per mi, que vos nom faço bem,
dizede-mi-o, e já quê farei en.
654

Meu Amigo, Quero-Vos Preguntar

- Meu amigo, quero-vos preguntar.
- Preguntade, senhor, ca m'[é] en bem.
- Nom vos há mester de mi rem negar.
- Nunca vos eu, senhor, negarei rem.
       - Tantos cantares por que fazedes?
       - Senhor, ca nunca mi escaecedes.

- Preguntar-vos quero, per bõa fé.
- Preguntade, ca hei en gram sabor.
- Nom mi neguedes rem, pois assi é.
- Nunca vos rem negarei, mia senhor.
       - Tantos cantares por que fazedes?
       - Senhor, ca nunca mi escaecedes.

- Nom vos pês de qual pregunta fez[er].
- Nom, senhor, ante vo-lo gracirei.
- Nem m'ar neguedes o que vos disser.
- Nunca vos eu, senhor, rem negarei.
       - Tantos cantares por que fazedes?
       - Senhor, ca nunca mi escaecedes.

- [E] este bem por mi o fazedes?
- Por vós, mia senhor, que o valedes.
632

Ai Mia Filha, de Vós Saber Quer'eu

- Ai mia filha, de vós saber quer'eu
porque fezestes quanto vos mandou
voss'amigo, que vos nom ar falou.
- Par Deus, mia madre, direi-vo-lo eu:
       cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
       e semelha-mi que nom est assi.

- Por que fezestes, se Deus vos dê bem,
filha, quanto vos el vẽo rogar?
Ca des entom nom vos ar quis falar.
- Direi-vo-l[o] eu, se Deus mi dê bem:
       cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
       e semelha-mi que nom est assi.

- Por que fezestes, se Deus vos perdom,
filha, quanto vos el vẽo dizer?
Ca des entom nom vos ar quis veer.
- Direi-vo-l[o] eu, se Deus mi perdom:
       cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
       e semelha-mi que nom est assi.

[E] bom dia naceu, com'eu oí,
que[m] se doutro castiga e nom de si.
721

Meu Amigo, Vós Morredes

Meu amigo, vós morredes
porque vos nom leixam migo
falar e moir'eu, amigo,
por vós e, fé que devedes,
       algum conselh'i hajamos
       ante que assi moiramos.

Ambos morremos, sem falha,
por quanto nós nom podemos
falar e, pois que morremos,
amigo, se Deus vos valha,
       algum conselh'i hajamos
       ante que assi moiramos.

De mia madr'hei gram queixume
porque nos anda guardando
e morremos i cuidando;
ai meu amig'e meu lume,
       algum conselh'i hajamos
       ante que assi moiramos.

E por que o nom guisamos,
pois nós tant'o desejamos?
664

A Meu Amigo Mandad'enviei

A meu amigo mandad'enviei
a Toled', amiga, per boa fé,
e mui bem creo que já co el é;
preguntad', e gradecer-vo-lo-ei,
       em quantos dias poderá chegar
       aqui de Toledo quem bem andar.

Ca do mandadeiro sei eu mui bem
que, depois que lh'o mandado disser,
que se verrá mais cedo que poder;
e, amiga, sabede vós d'alguém
       em quantos dias poderá chegar
       aqui de Toledo quem bem andar.

E sempre catam estes olhos meus
per u eu cuido que há de viir
o mandadeir', e moiro por oír
novas del, e preguntade, por Deus,
       em quantos dias poderá chegar
       aqui de Toledo quem bem andar.
681

Dizem-Mi a Mi Quantos Amigos Hei

Dizem-mi a mi quantos amigos hei
que nunca perderei coita d'amor,
se m'eu nom alongar de mia senhor;
e digo-lhis eu como vos direi:
       - Par Deus, sempr'eu alongado vevi
       dela e do seu bem, e nom vos perdi

coita d'amor. Pero dizem que bem
farei eu mia fazenda de viver
longi dela, que mi nom quer valer;
mais de tal guisa lhis dig'eu por en:
       - Par Deus, sempr'eu alongado vevi
       dela e do seu bem, e nom vos perdi

coita d'amor. Pero dizem que nom
poss'eu viver se me nom alongar
de tal senhor, que se nom quer nembrar
de mim; mais digo-lhis eu log'entom:
       - Par Deus, sempr'eu alongado vevi
       dela e do seu bem, e nom vos perdi

coita d'amor; nem alhur nem ali
nom lhi guarrei, ca muito lhi guari.
317

Nom Hei Eu Poder do Meu Amigo

Nom hei eu poder do meu amigo
partir, amigas, de mi querer bem,
e, pero m'eu queixo, prol nom mi tem,
e quando lh'eu rogo muit'e digo
       que se parta de mi tal bem querer,
       tanto mi val come nom lho dizer.

Se mi quer falar, digo-lh'eu logo
que mi nom fale, ca mi vem gram mal
de sa fala, mais mui pouco mi val;
e quando lh'eu digo muit'e rogo
       que se parta de mi tal bem querer,
       tanto mi val come nom lho dizer.

Sempre mi pesa com sa companha,
porque hei medo de mi crecer prez
com el, com'outra vegada já fez;
e, pero lhi dig'em mui gram sanha
       que se parta de mi tal bem querer,
       tanto mi val come nom lho dizer.
612

Amigo, Quando Me Levou

Amigo, quando me levou
mia madr', [a] meu pesar, daqui,
nom soubestes novas de mi,
e por maravilha tenho
por nom saberdes quando vou
nem saberdes quando venho.

Pero que vos [ch]amades meu
amigo, nom soubestes rem
quando me levarom daquém,
e maravilho-me ende
por nom saberdes quando m'eu
venh'ou quando vou daquende.

Catei por vós quand'a partir-
-m'houve daqui e pero nom
vos vi nem veestes entom,
e mui queixosa vos ando
por nom saberdes quando m'ir
quer'ou se verrei já quando.

E por amigo nom tenho
o que nom sabe quando vou
nem sabe quando me venho.
535

Queredes Ir, Meu Amigo, Eu o Sei

Queredes ir, meu amigo, eu o sei,
buscar outro conselh'e nom o meu;
porque sabedes que vos desej'eu,
queredes-vos ir morar com el-rei,
       mais id'ora quanto quiserdes ir,
       ca pois a mi havedes a viir.

Ides-vos vós e fico eu aqui
que vos hei sempre muit'a desejar;
e vós queredes com el-rei morar
porque cuidades mais valer per i;
       mais id'ora quanto quiserdes ir,
       ca pois a mi havedes a viir.

Sabor havedes, a vosso dizer,
de me servir, amig', e pero nom
leixades d'ir al-rei por tal razom;
nom podedes el-rei e mim haver,
       mais id'ora quanto quiserdes ir,
       ca pois a mi havedes a viir.

E, amigo, querede-lo oir?
Nom podedes dous senhores servir
que ambos hajam rem que vos gracir.
692

Vedes, Amigo, Ond'hei Gram Pesar

Vedes, amigo, ond'hei gram pesar:
sei muitas donas que sabem amar
seus amigos e soem-lhis falar
e nom lho sabem, assi lhis avém;
e nós sol que o queiramos provar,
       log'é sabud'e nom sei eu per quem.

Tal dona sei eu, quando quer veer
seu amigo, a que sabe bem querer,
que lho nom podem per rem entender
o[s] que cuidam que a guarda[m] mui bem;
e nós sol que o queiramos fazer,
       log'é sabud'e nom sei eu per quem.

Com'eu querria, nom se guis'assi:
falar vosco, que morredes por mi,
com'outras donas falam, e des i
nunca lhis mais podem entender rem;
e nós [sol] ante que cheguemos i,
       log'é sabud'e nom sei eu per quem.

Coita lhi venha qual ora a nós vem
per quem nos a nós tod'este mal vem.
551

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