Lista de Poemas

Não Se Pode

Quando eu era menino andava em voga
A história da "Não se Pode",
Uma mulher esguia, que de toga
Como um fantasma, à toa, de pagode
Altas horas da noite então vagava.

E quando alguém seu nome perguntava
Invariavelmente respondia,
Com a voz cava e cheia de agonia:
"Não se Pode!" "Não se Pode!"

Era um fantasma esquisito e feio
De estatura comum, mas que crescia
Toda vez que cigarros acendia
Nos lampiões das esquinas e do passeio.

Escaveirada, de carão ossudo,
olhos sem brilho, sem nenhum clarão,
A "Não se Pode" era um duende mudo
Alma penada pela solidão.

Soldados de patrulha da cidade
Uma noite entenderam de segui-la.
Mas a "Não se Pode", como um cão de fila,
Evitava qualquer intimidade.

Suas pegadas no chão jamais se viu

E do velho quartel para o mercado,
Seus pontos preferidos,
Era como um vulto malfadado
Dos mistérios do além, desconhecidos...

E quando uma noite fugia pelo espaço
"Não se Pode" também no seu regaço
Em fumaças de pós se desfazia...

A minha alma também é assim
Se alguém sacode
Os sofrimentos que meu peito esconde
Pressurosa e bem triste ela responde:
"Não se Pode!" "Não se Pode!"

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Fim de Escola

Na escola toda vez, quando aparece
O exame final do fim do ano,
Nervoso cada qual faz uma prece,
Receando sofrer um desengano.

Boas notas só tem quem as merece,
E quem as obtém vaidoso e ufano,
Muitas vezes até depressa esquece,
Da professora e seu trabalho insano.

E o aluno fica alegre e mui contente,
Para gozar as férias bem feliz,
No lar para onde volta sorridente.

Mas acontece que o aluno mau,
Que de vadio estudar não quis,
Volta pra casa, mas só leva pau!...

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Valença do Piauí

200 anos! Como está velhinha!
mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com um diadema de fita,
Tendo no peito uma rosa,
Sobre o seu vestido novo,
Que te faz tão graciosa
Ao doce olhar do teu povo.

200 anos de deslumbramentos!
Mas que lutas meu Deus, quantos tormentos,
Para vencer a estrada caprichosa
Conquistando esta data gloriosa
Que hoje feliz com inusitado brilho
Mostra o progresso conquistado e forte,
Recebido do amor de cada filho
A quem tiveste confiada a sorte.

200 anos! Como está velhinha!
Mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com o seu vestido de chita
Fazendo inveja aos rapazes,
Que te querem namorar,
Mas que ainda não são capazes
De contigo se casar.

Minha querida e imortal Valença!
Hoje teus filhos com alegria imensa,
Glorificando o teu bicentenário,
Fazem de ti um talismã lendário,
Que lhes dará todo um porvir brilhante
Na tua gloriosa trajetória
Para que num futuro bem distante
Maiores loiros tenha a tua história!

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Identificação e contexto básico

João Ferry é um poeta português associado à geração surrealista em Portugal. O seu nome completo e a existência de pseudónimos ou heterónimos não são amplamente documentados na esfera pública. A sua nacionalidade é portuguesa e a língua de escrita é o português. O contexto histórico em que viveu e produziu a sua obra abrange grande parte do século XX, um período de significativas transformações sociais, políticas e culturais, incluindo a ditadura do Estado Novo e os movimentos de contestação cultural e artística.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de João Ferry são escassas. Sabe-se que a sua educação, tal como a de muitos artistas da sua geração, foi influenciada pelos ambientes culturais e intelectuais da época. É provável que tenha tido contacto com as vanguardas artísticas e literárias que começavam a despontar em Portugal.

Percurso literário

O percurso literário de João Ferry está intrinsecamente ligado ao movimento surrealista em Portugal. Iniciou a sua atividade poética num período de efervescência cultural, procurando romper com as formas e temas tradicionais. A sua obra evoluiu dentro dos preceitos surrealistas, explorando a exploração do inconsciente, do sonho e da irracionalidade. A sua atividade pode ter incluído colaborações em publicações ligadas às vanguardas, embora não haja registos extensivos sobre a sua participação em jornais ou antologias fora do círculo surrealista.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de João Ferry é marcada pelo surrealismo, com um forte enfoque na exploração do subconsciente, do onírico e do ilógico. Os temas recorrentes incluem a liberdade, o desejo, a transgressão e a crítica às normas sociais e morais. A forma poética em Ferry tende a ser livre, com um uso arrojado da linguagem, a quebra da sintaxe e a criação de imagens surpreendentes e transgressoras. A sua poesia é frequentemente caracterizada pela densidade imagética, pelo ritmo inesperado e pela musicalidade própria do surrealismo. A voz poética é muitas vezes transgressora, explorando o irracional e o fantástico. O estilo de Ferry procura a libertação da palavra e da imaginação, desafiando a lógica e a razão. Introduziu uma abordagem inovadora na poesia portuguesa, alinhando-se com as correntes surrealistas internacionais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico João Ferry emergiu num contexto cultural marcado pela repressão do Estado Novo e pela busca de novas formas de expressão artística que pudessem subverter essa ordem. O movimento surrealista em Portugal, embora minoritário, representou uma força de contestação e inovação. Ferry, ao lado de outros artistas, procurou criar um espaço de liberdade criativa, explorando temas proibidos ou marginalizados pela sociedade conservadora da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações sobre a vida pessoal de João Ferry são limitadas. Não há detalhes divulgados sobre as suas relações familiares, afetivas ou sobre a sua profissão. No entanto, a natureza da sua obra sugere um artista imerso nas correntes vanguardistas e possivelmente envolvido em círculos artísticos e intelectuais que partilhavam as suas visões sobre a arte e a vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de João Ferry, como a de muitos surrealistas, foi mais restrito e académico, não tendo alcançado a popularidade de outros poetas. A sua receção crítica em vida pode ter sido limitada ao círculo de especialistas e entusiastas do surrealismo. No entanto, a sua contribuição para a renovação da poesia portuguesa é reconhecida por estudiosos da área.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de João Ferry provêm, sem dúvida, dos mestres do surrealismo internacional, como André Breton, e das correntes vanguardistas europeias. O seu legado reside na sua ousadia poética e na sua contribuição para a diversificação das linguagens poéticas em Portugal, abrindo caminho para experimentações futuras. A sua obra, embora menos conhecida, é um testemunho da vitalidade do surrealismo no panorama literário português.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A interpretação da obra de João Ferry foca-se na sua dimensão surrealista, na exploração do inconsciente e na subversão da linguagem. As suas poesias podem ser analisadas como manifestações de um desejo de liberdade e de uma crítica às estruturas sociais e mentais impostas.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Devido à escassez de informações, existem poucos aspetos curiosos ou menos conhecidos sobre João Ferry. A sua figura permanece, em grande medida, associada ao mistério e à intensidade do movimento surrealista.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há informações disponíveis sobre a morte de João Ferry, nem sobre publicações póstumas que possam ter mantido a sua obra em evidência.