Lista de Poemas

Poema para Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra.
C.D.A.
É útil redizer as coisas
as coisas que tu não viste
no caminho das coisas
no meio de teu caminho.

Fechaste os teus dois olhos
ao bouquet de palavras
que estava a arder na ponta do caminho
o caminho que esplende os teus dois olhos.

Anuviaste a linguagem de teus olhos
diante da gramática da esperança
escrita com as manchas de teus pés descalços
ao percorrer o caminho das coisas.

Fechaste os teus dois olhos
aos ombros do corpo do caminho
e apenas viste apenas uma pedra
no meio do caminho.

No caminho doloroso das coisas.
1 729

A Nelson Mandela

(Descer os degraus da Humanidade. Ver o mar escuro do fenómeno
errante do atrito de armas. Sentir com as palavras presas nos lábios
o perfume da discriminação distribuído a preço derrisório em Durban,
Pretória, Soweto...Olhar na propagação de sinais sombrios o desenho
da desunião e de outras dores inspiradas que nos vigiam enquanto
os homens degrau a degrau sobem o horizonte cruel. E assim surgimos
na árvore do quotidiano, quotidiano vivo, ingrediente da nossa tragédia.)
1 528

Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas

Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas

no quadragésimo aniversário
da explosão de Hiroshima

1. Nascemos quase pelas horas quase
iluminadas pelas cortinas que
ocultam a ausência humana. E
falecemos entre as sombras da
presença humana. A palavra sentida
há de calar a dor. Devíamos ter dito
duas vezes a oração bordada - a
estreita oração que nos ensinou a
bíblia de pedra. Da palavra sentida
há de nascer o amor. As avenidas
cantam e dizem lagartos para
escurecer as noites que nos vêm da
madrugada. Na palavra sentida há de
crescer a flor. Os leões inventam
microfones que em duas línguas
dizem tudo em duas palavras para os
ouvidos de dois mundos que se
ajoelham em dois caminhos. Temos
de conhecer o mar. Temos de dançar
ao pé das janelas. E crepúsculo
estará na neve do crepúsculo que há
de vir congregado em pedras do
crepúsculo.

2. O velho continente acordou e
deixou de sonhar com as estátuas de
cinza. A América se levantou e se
contorce de recessão espacial nos
pastos que enchem os peitos do gado
com o qual havemos de alimentar os
silêncios da África. As Américas
colecionam lembranças da
escravatura. E África coleciona
lábios para beijar folhas e árvores
perdidas no deserto por habitar. Aqui
os dias caem no chão e ninguém os
quer contar. Mas de noite cantamos
os dias que se abrem. Estendidos no
chão. Espiados pela mão que para a
noite vai. A carne, a flor, o sal, o
sangue e a água se misturam para
soprar felicidade ao mar e às
janelas. Temos de conhecer o mar.
Temos de dançar ao pé das janelas.
E o crepúsculo estará na neve do
crepúsculo que há de vir congregado
em pedras de crepúsculo.

1 073

Memória

Baloiçando nos escombros de teu itinerário
saberás que os gados constroem estradas.
E quando a mão deslizar pela margem
das cicatrizes que se afundam na noite
saberás que a tua mão viaja para a
colina dos dias sem escombros
e saberás que no berço da noite jaz a luz
drogada e ouvida pela cruz sobre quem viajaste.
1 256

As Muralhas da Noite

A mão ia para as costas da madrugada.
As mulheres estendiam as janelas da alegria
nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.

Entre os dentes do mar acendiam-se braços.

Os dias namoravam sob a barca do espelho.
Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.
E da chuva de barcos chegavam colchões,
camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas
onde cantavam soldados de capacetes
por pintar no coração da meia-noite.

Eram os barcos que guardavam as muralhas
da noite que a mão ouvia nas costas
da madrugada entre os dentes do mar.
1 218

Arte poética

Que erosão
no choque genésico das marés
de encontro às pedras habitadas.

Cai areia na areia.

Assim o gasto da palavra
limando os duros conformismos
libertando as verdades mais remotas
tão necessárias ao fruir dos gestos.
1 440

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Identificação e contexto básico

João Maimona é um poeta contemporâneo.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de João Maimona não estão amplamente disponíveis.

Percurso literário

O percurso literário de João Maimona é marcado por uma poesia com forte carga social e existencial, expressando uma visão crítica e emotiva da realidade.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de João Maimona caracteriza-se pela força expressiva e pela abordagem de temas sociais e existenciais. A sua poesia reflete vivências e observações sobre a realidade, utilizando uma linguagem direta e emotiva. Temas como a identidade, a condição humana e as relações sociais são frequentemente explorados. Acredita-se que a sua escrita possa incluir o uso de verso livre e uma forte musicalidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico João Maimona insere-se no contexto da poesia contemporânea, dialogando com as questões sociais e culturais do seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de João Maimona não são facilmente acessíveis.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de João Maimona tem vindo a crescer, impulsionado pela autenticidade e pertinência dos temas abordados na sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado O legado de João Maimona na poesia contemporânea assenta na sua capacidade de traduzir a realidade e as emoções humanas em versos impactantes.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Maimona pode ser interpretada como um espelho das complexidades sociais e existenciais, convidando à reflexão sobre a humanidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos sobre João Maimona não são publicamente divulgados.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Sendo um autor contemporâneo, a morte e a memória póstuma de João Maimona não são aplicáveis no presente.