Lista de Poemas

Monangamba

Naquela roça que não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;

Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.

O café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado!

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?
Quem trás pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de déndén?
Quem capina e em paga recebe desdém
fubá podre, peixe podre,
panos ruins, cinqüenta angolares
porrada se refilares?

Quem?

Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
— Quem?

Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter a barriga grande — ter dinheiro?
— Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
— Monangambéée...

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
— Monangambéée...
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Carta dum contratado

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta que dissesse
Deste anseio
De te ver
Deste receio
De te perder
Deste mais que bem querer que sinto
Deste mal indefinido que me persegue
Desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta de confidências íntimas,
Uma carta de lembranças de ti,
De ti
Dos teus lábios vermelhos como tacula
Dos teus cabelos negros como diloa
Dos teus olhos doces como macongue
Dos teus seios duros como maboque
Do teu andar de onça
E dos teus carinhos
Que maiores não encontrei por ai...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Que recordasse nossos dias na capopa
Nossas noites perdidas no capim
Que recordasse a sombra que nos caia dos jambos
O luar que se coava das palmeiras sem fim
Que recordasse a loucura
Da nossa paixão
E a amargura da nossa separação...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Que a não lesses sem suspirar
Que a escondesses de papai Bombo
Que a sonegasses a mamãe Kiesa
Que a relesses sem a frieza
Do esquecimento
Uma carta que em todo o Kilombo
Outra a ela não tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta que ta levasse o vento que passa
Uma carta que os cajus e cafeeiros
Que as hienas e palancas que os jacarés e bagres
Pudessem entender
Para que se o vento a perdesse no caminho
Os bichos e plantas
Compadecidos de nosso pungente sofrer
De canto em canto
De lamento em lamento
De farfalhar em farfalhar
Te levassem puras e quentes
As palavras ardentes
As palavras magoadas da minha carta
Que eu queria escrever-te amor

Eu queria escrever-te uma carta...

Mas, ah, meu amor, eu não sei compreender
Por que é, por que é, por que é, meu bem
Que tu não sabes ler
E eu - Oh! Desespero! - não sei escrever também!
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Declaração

As aves, como voam livremente
num voar de desafio!
Eu te escrevo, meu amor,
num escrever de libertção.

Tantas, tantas coisas comigo
adentro do coração
que só escrevendo as liberto
destas grades sem limitação.
Que não se frustre o sentimento
de o guardar em segredo
como liones, correm as águas do rio!
corram límpidos amores sem medo.

Ei-lo que to apresento
puro e simples - o amor
que vive e cresce ao momento
em que fecunda cada flor.

O meu escrever-te é
realização de cada instante
germine a semente, e rompa o fruto
da Mãe-Terra fertilizante.
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Castigo pró combioio malandro

Comboio malandro
O fogo que sai no corpo dele
Vai no capim e queima
Vai nas casas dos pretos e queima
Esse comboio malandro
Já queimou o meu milho

Se na lavra do milho tem pacacas
Eu faço armadilhas no chão,
Se na lavra tem kiombos
Eu tiro a espingarda de kimbundo
E mato neles
Mas se vai lá fogo do malandro
- Deixa!-
Uéuéué
Te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem
Só fica fumo,
Muito fumo mesmo.

Mas espera só
Quando esse comboio malandro descarrilar
E os brancos chamar os pretos p´ra empurrar
Eu vou
Mas não empurro
- Nem com chicote -
Finjo só que faço força
Aka!

Comboio malandro
Você vai ver só o castigo
Esse comboio malandro
passa
passa sempre com a força dele
ué ué ué
hii hii hii
te-quem-tem te-que-tem te-quem-tem

o comboio malandro
passa

Nas janelas muita gente
ai bo viaje
adeujo homéé
n'ganas bonitas
quitandeiras de lenço encarnado
levam cana no Luanda pra vender

hii hii hii

aquele vagon de grades tem bois
múu múu múu
tem outro
igual como este de bois
leva gente,
muita gente como eu
cheio de poeira
gente triste como os bois
gente que vai no contrato

Tem bois que morre no viaje
mas o preto não morre
canta como é criança
"Mulonde iá késsua uádibalé
uádibalé uádibalé...'"

esse comboio malandro
sòzinho na estrada de ferro
passa
passa
sem respeito
ué ué ué
com muito fumo na trás
hii hii hii
te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem
Vai dormir mesmo no meio do caminho.
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Era uma vez

Vovo Bartolomé, ao sol que se coava da mulembeira
por sobre a entrada da casa de chapa,
enlanguescido em carcomida cadeira
vivia
- relembrando-a -
a história de Teresa mulata

Teresa Mulata!

essa mulata Teresa
tirada lá do sobrado
por um preto d'Ambaca
bem vestido,
bem falante,
escrevendo que nem nos livros!

Teresa Mulata
- alumbramento de muito moço -
pegada por um pobre d'Ambaca
fez passar muitas conversas
andou na boca de donos e donas...

Quê da mulata Teresa?

A história da Teresa mulata...
Hum...
Vovo Bartolomé enlanguescido em carcomida cadeira adormeceu
o sol coando das mulembeiras veio brincar com as moscas nos lábios
ressequidos que sorriem
Chiu! Vovo tá dormindo!
O moço d'Ambaca sonhando...
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Vadiagem

Naquela hora já noite
quando o vento nos traz mistérios a desvendar
musseque em fora fui passear as loucuras
com os rapazes das ilhas:
Uma viola a tocar
o Chico a cantar
(que bem que canta o Chico!)
e a noite quebrada na luz das nossas vozes
Vieram também, vieram também
cheirando a flor de mato
- cheiro gravido de terra fértil -
as moças das ilhas
sangue moço aquecendo
a Bebiana, a Teresa, a Carminda, a Maria.
Uma viola a tocar
o Chico a cantar
a vida aquecida com o sol esquecido
a noite é caminho
caminho, caminho, tudo caminho serenamente negro
sangue fervendo
cheiro bom a flor de mato
a Maria a dançar
(que bem que dança remexendo as ancas!)
E eu a querer, a querer a Maria
e ela sem se dar
Vozes dolentes no ar
a esconder os punhos cerrados
alegria nas cordas da viola
alegria nas cordas da garganta
e os anseios libertados
das cordas de nos amordaçar
Lua morna a cantar com a gente
as estrelas se namorando sem romantismo
na praia da Boavista
o mar ronronante a nos incitar
Todos cantando certezas
a Maria a bailar se aproximando
sangue a pulsar
sangue a pulsar
mocidade correndo
a vida
peito com peito
beijos e beijos
as vozes cada vez mais bebadas de liberdade
a Maria se chegando
a Maria se entregando
Uma viola a tocar
e a noite quebrada na luz do nosso amor...
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Comentários (3)

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Juscelino Mateus
Juscelino Mateus

Gostei e de mais, é um poema super, super lindo de mais.

Dario
Dario

grande poeta

bobolo
bobolo

amoooo

Identificação e contexto básico

António Jacinto do Amador Real, mais conhecido como António Jacinto, nasceu em Angola. É uma figura central na poesia de língua portuguesa, especialmente no contexto da literatura africana de expressão portuguesa. A sua obra está intrinsecamente ligada às questões da identidade nacional, da luta pela liberdade e da valorização da cultura angolana.

Infância e formação

António Jacinto nasceu em Angola e teve uma infância marcada pelo ambiente colonial. A sua formação intelectual foi moldada pela leitura de autores portugueses e pela sua própria experiência de vida em África. Absorveu influências da cultura local e dos movimentos literários que buscavam uma expressão mais autêntica da realidade africana.

Percurso literário

O percurso literário de António Jacinto começou cedo, com a publicação dos seus primeiros poemas em jornais e revistas. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, refletindo as fases da luta pela independência de Angola e a busca por uma voz poética própria. Participou ativamente na vida cultural angolana, colaborando em diversas publicações e antologias que reuniam escritores comprometidos com a causa nacional.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de António Jacinto é caracterizada por um profundo lirismo e por uma forte veia social e política. Temas como a terra, a liberdade, a esperança e a dignidade humana são centrais na sua poesia. Utilizou frequentemente o verso livre, privilegiando a musicalidade e a força expressiva da palavra. A sua linguagem é densa, rica em imagens e com um ritmo envolvente, muitas vezes evocando a sonoridade das línguas africanas. O seu estilo pode ser associado ao movimento modernista africano, buscando inovar tanto na forma quanto no conteúdo, celebrando a identidade e a cultura angolana.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico António Jacinto viveu num período de intensas transformações sociais e políticas em Angola, incluindo a luta pela independência. A sua obra reflete este contexto, posicionando-se como uma voz de resistência e afirmação cultural. Foi um dos expoentes da chamada «Geração de 50» ou «Geração do Semba», um grupo de escritores angolanos que procuravam dar visibilidade à realidade e às aspirações do seu povo. Manteve diálogo com outros escritores africanos e portugueses da sua época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal António Jacinto dedicou grande parte da sua vida à causa da independência de Angola. A sua experiência pessoal como angolano sob o regime colonial influenciou profundamente a sua obra. As relações familiares e os laços com a sua terra natal são elementos que transparecem na sua poesia, conferindo-lhe uma autenticidade e uma força emocionais notáveis.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção António Jacinto é amplamente reconhecido como um dos maiores poetas de Angola e de língua portuguesa. A sua obra recebeu distinções e é estudada em contextos académicos nacionais e internacionais. A sua poesia é valorizada pela sua qualidade estética e pela sua importância histórica e cultural, sendo considerada um marco na literatura africana.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado António Jacinto foi influenciado pela poesia portuguesa e pelas correntes literárias que buscavam uma expressão mais autêntica da identidade africana. Por sua vez, o seu legado é imenso, tendo influenciado gerações posteriores de poetas angolanos e africanos. A sua obra é fundamental para a compreensão da literatura africana de expressão portuguesa e para a afirmação da identidade cultural angolana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de António Jacinto tem sido objeto de diversas interpretações, que destacam o seu lirismo, o seu compromisso social e a sua capacidade de evocar a alma angolana. As suas poesias exploram temas existenciais universais através da lente da experiência africana, levantando questões sobre liberdade, pertença e a busca por um futuro digno.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além da sua faceta de poeta, António Jacinto foi também professor e ativista político. A sua dedicação à causa da independência de Angola levou-o a enfrentar perseguições e dificuldades, as quais, contudo, não o afastaram da sua expressão artística. A sua poesia é um testemunho da resiliência e da força do espírito humano.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória António Jacinto faleceu, mas a sua obra continua viva e a sua memória é celebrada como um dos pilares da identidade cultural angolana. As suas poesias são frequentemente publicadas e recitadas, mantendo-se como um símbolo de inspiração e de orgulho nacional.