Lista de Poemas

Origem

Vestir a camisa
de um poeta negro
- espetar seu coração
com uma fina
ponta de faca
- dessas antigas,
marca Curvelo,
em aço sem corte,
feito para a morte

- E acomodar
no exíguo espaço
de uma bainha
sua dor-senzala.
2 237

Negro forro

minha carta de alforria
não me deu fazendas,
nem dinheiro no banco,
nem bigodes retorcidos.

minha carta de alforria
costurou meus passos
aos corredores da noite
de minha pele.

14 287

Faça sol ou faça tempestade

faça sol ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.

faça sol ou faça tempestade
meu corpo é cercado
por estes muros altos,
— currais
onde ainda se coagula
o sangue dos escravos.

faça sol
ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.

3 582

Agora

É hora
de amolar a foice
e cortar o pescoço do cão.

— Não deixar que ele rosne
nos quintais
da África.

É hora
de sair do gueto/eito
senzala
e vir para a sala
— nosso lugar é junto ao Sol.

3 378

Alfabetização

Papai
levava tempo
para redigir uma carta

Já mamãe Sebastiana de José Teodoro
teve a emoção de assinar seu
                                nome completo
já quase aos setenta anos
936

Poemas da morte de um pai

a José Ferreira dos Reis (1905 - 1988)

- Que cesse o barulho das enxadas,
das cantigas de eito
- que a madrinha da tropa
interrompa o curso
de seus passos
em territórios do Serro,
Santo Antônio do Itambé,
Baguari, Folha Larga,
Itapanhoacanga
e São Miguel & Almas de Guanhães.

E José,
novamente menino,
descalço, chapeuzinho de palha,
aguilhada na mão
a se encontrar
com seu Teodoro da Fazenda.

1 528

Zumbi

Eu-Zumbi
Rei de Palmares
tenho terreiros e tambores
e danço a dança do Sol.

Eu-Zumbi enfrento o vento
que ainda tarda
dessas cartas de alforria.

Eu-Zumbi jogo por terra
a caneta de ouro
de todas as Leis-Áureas.

Eu-Zumbi
Rei de Palmares
Tenho terreiros
e tambores
e danço a dança do Sol.


.
.
.

1 874

Para um negro

para um negro
a cor da pele
é uma sombra
muitas vezes mais forte
que um soco.

para um negro
a cor da pele
é uma faca
         que atinge
muito mais em cheio
         o coração.
1 274

Eu, pássaro preto

eu,
pássaro preto,
cicatrizo
queimaduras de ferro em brasa,
fecho o corpo de escravo fugido
e
monto guarda
na porta dos quilombos.
1 180

Das biografias (1)

em negro
teceram-me a pele.
enormes correntes
amarram-me ao tronco
de uma Nova África.

carrego comigo
a sombra de longos muros
tentando impedir
que meus pés
cheguem ao final
dos caminhos.

mas o meu sangue
está cada vez mais forte,
tão forte quanto as imensas pedras
que os meus avós carregaram
para edificar os palácios dos reis .

1 934

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Identificação e contexto básico

Adão Francisco Ventura é um proeminente poeta, escritor e pedagogo angolano. Nasceu em Angola e escreve em português.

Infância e formação

Adão Ventura teve uma infância marcada pela vivência da cultura angolana, que viria a influenciar profundamente a sua obra. A sua formação académica e a sua experiência como educador permitiram-lhe desenvolver uma sensibilidade aguçada para as questões sociais e culturais de Angola.

Percurso literário

Adão Ventura iniciou o seu percurso literário com uma forte ligação à poesia, mas também se dedicou à escrita de contos e obras infantojuvenis. É reconhecido pela sua participação ativa na vida cultural angolana, contribuindo para a divulgação da literatura e da cultura do país. A sua obra poética é frequentemente associada à chamada 'Geração de 70' ou à geração pós-independência.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Adão Ventura é caracterizada por uma linguagem acessível, mas rica em sonoridade e imagética, frequentemente inspirada na tradição oral e nos ritmos da música angolana. Os temas centrais incluem o amor, a pátria, a identidade angolana, a mulher, a infância e a relação com a terra. A sua poesia é marcada por um lirismo terno e por um forte sentido de pertença. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com uma musicalidade intrínseca.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Adão Ventura é um representante importante da literatura angolana pós-independência. A sua obra reflete as aspirações, as dificuldades e as conquistas de Angola nesse período, abordando a construção da identidade nacional e a valorização da cultura moçambicana. Participou ativamente na vida cultural e associativa em Angola.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Além da sua carreira literária, Adão Ventura dedicou-se à pedagogia, sendo um educador influente. A sua vida pessoal está intrinsecamente ligada ao seu compromisso com a cultura e a educação em Angola.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Adão Ventura é um autor respeitado em Angola e reconhecido internacionalmente pela sua contribuição para a literatura em língua portuguesa. A sua obra é estudada em escolas e universidades, e é frequentemente convidado para festivais de literatura.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A sua obra é uma ponte entre a oralidade africana e a escrita literária, influenciando novas gerações de poetas angolanos que buscam valorizar as suas raízes culturais. O seu legado reside na preservação e celebração da identidade angolana através da arte.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Adão Ventura é frequentemente analisada sob a ótica da sua representação da cultura e da sociedade angolana, bem como pela sua capacidade de evocar sentimentos universais através de uma linguagem profundamente enraizada no contexto africano.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Adão Ventura é também conhecido pelo seu trabalho com a literatura infantil e juvenil, adaptando temas e linguagens para públicos mais jovens.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória