Lista de Poemas

Timor

Lavam-se os olhos nega-se o beijo
do labirinto escolhe-se o mar
no cais deserto ficam desejos
da terra quente por conquistar

Nobre soldado que vens senhor
por sobre as asas do teu dragão
beijas os corpos no chão queimado
nunca serás o nosso perdão

Ai Timor
calam-se as vozes
dos teus avós
Ai Timor
se outros calam
cantemos nós

Salgas os ventres que não tiveste
ceifando os filhos que não são teus
nobre soldado nunca sonhaste
ver uma espada na mão de Deus

Da cruz se faz uma lança em chamas
que sangra o céu no sol do meio dia
do meio dos corpos a mesma lama
leito final onde o amor nascia

Ai Timor
calam-se as vozes
dos teus avós
Ai Timor
se outros calam
cantemos nós

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Senta-te aí

Está na hora de ouvires o teu pai
Puxa para ti essa cadeira
Cada qual é que escolhe aonde vai
Hora-a-hora e durante a vida inteira

Podes ter uma luta que é só tua
Ou então ir e vir com as marés
Se perderes a direcção da Lua
Olha a sombra que tens colada aos pés

Estou cansado. Aceita o testemunho
Não tenho o teu caminho pra escrever
Tens de ser tu, com o teu próprio punho
Era isto o que te queria dizer

Sou uma metade do que era
Com mais outro tanto de cidade
Vou-me embora que o coração não espera
À procura da mais velha metade

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Aerograma

Deus queira que esta
Vos mate a fome aos sentidos
Por agora

Deus queira que esta
Vos guarde a dor aos gemidos
Noite fora

Dançamos fandangos
Sobre uma navalha
Pássaros em bando
Em nuvens de limalha

E assim eu cá vou indo.

Vem-me o fel à boca
As tripas ao coração
A noite trás a forca pela sua mão

Sonho com fantasmas
De pele preta e luzidia
Com manuais de coragem e cobardia

Dizem que há sempre
Um barco azul para partir
Nosso hino
Embarca a alma
E os restos de um rosto a sorrir
Do destino

Põe o meu retrato
No altar de S. João
E uma vela com formato de canhão

Cansa-se esta escrita
Com dois dedos num baraço
Assim o quis a desdita
Vai um abraço.

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Identificação e contexto básico

João Monge é um poeta, ensaísta e investigador português. Nascido em Lisboa, a 26 de julho de 1961, a sua obra literária desenvolve-se predominantemente em língua portuguesa. A sua formação e percurso profissional estão intrinsecamente ligados ao universo da poesia e da cultura.

Infância e formação

João Monge cresceu num ambiente que lhe permitiu desenvolver uma sensibilidade para as artes e para o conhecimento. A sua formação académica em Filosofia, na Universidade Nova de Lisboa, foi fundamental para a abordagem de temas existenciais e metafísicos na sua obra poética e ensaística.

Percurso literário

O seu percurso literário começou a consolidar-se a partir do final do século XX. Publicou diversos livros de poesia, que lhe valeram reconhecimento no meio literário. Para além da sua obra autoral, tem desenvolvido um importante trabalho como ensaísta, crítico literário e investigador da poesia, nomeadamente de Fernando Pessoa, o que lhe confere uma perspetiva alargada sobre a tradição poética.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de João Monge é marcada por um lirismo profundo, um tom contemplativo e uma procura incessante pelo sentido da existência. Temas como a natureza, o tempo, a memória, a espiritualidade, o amor e o mistério do ser ocupam um lugar central. O seu estilo caracteriza-se por um rigor formal, com frequente recurso a métricas e formas mais tradicionais, mas sempre com uma abordagem contemporânea e pessoal. A linguagem é evocativa, rica em imagens e com uma musicalidade subtil, convidando o leitor a uma imersão reflexiva. A sua poesia pode ser associada a uma linha de continuidade com a tradição poética portuguesa, mas com uma voz autoral inconfundível, marcada pela ponderação filosófica e pela busca de uma transcendência.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico João Monge insere-se no panorama cultural e literário português contemporâneo. O seu trabalho como investigador da obra de Fernando Pessoa e da poesia em geral coloca-o num diálogo constante com a história literária, ao mesmo tempo que as suas obras refletem as inquietações e os desafios do mundo atual.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Embora os detalhes específicos da sua vida pessoal sejam guardados com discrição, o seu percurso académico em Filosofia e a sua profunda ligação à poesia sugerem uma vida dedicada ao estudo, à reflexão e à expressão artística.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de João Monge tem sido acolhida com apreço pela crítica e pelo público interessado em poesia de qualidade. O seu trabalho como ensaísta e a sua dedicação à poesia também contribuem para o seu reconhecimento no meio intelectual português.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As suas influências são diversas, abrangendo a tradição filosófica ocidental e a grande poesia universal, com um destaque especial para a obra de Fernando Pessoa. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia contemporânea em língua portuguesa, enriquecendo-a com a sua visão filosófica e lírica, e no seu papel como estudioso e divulgador da poesia.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de João Monge é frequentemente objeto de análise pela sua profundidade filosófica e pela forma como articula a experiência individual com questões universais. A sua obra convida a meditações sobre a condição humana, a relação entre o finito e o infinito, e a busca por um sentido último.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sendo um autor com uma atividade académica e de investigação proeminente, para além da criação literária, o seu perfil abrange diversas áreas do saber, revelando uma mente curiosa e multifacetada.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória João Monge é um autor contemporâneo, pelo que as questões de morte e publicações póstumas não se aplicam neste momento. A sua memória está associada à sua obra em criação e ao seu legado como poeta e estudioso da poesia.