Jorge de Sena

Jorge de Sena

1919–1978 · viveu 58 anos PT PT

Jorge de Sena foi um poeta, tradutor, ensaísta e professor universitário de grande relevância na literatura de língua portuguesa. A sua obra poética é marcada pela erudição, pela reflexão existencial e pela experimentação formal, abordando temas como o amor, a morte, o tempo, a história e a condição humana com uma linguagem intensa e complexa. Distinguido pela sua inteligência crítica e pela vasta cultura, Jorge de Sena deixou um legado significativo, não só na poesia, mas também nos seus estudos literários e na sua atuação cívica, sendo uma figura incontornável do panorama intelectual do século XX.

n. 1919-11-02, Lisboa · m. 1978-06-04, Santa Bárbara

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Beijo

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mas beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Jorge de Sena, nome completo Jorge de São Romão Sequeira de Sena, nasceu no dia 2 de novembro de 1919 e faleceu em 4 de junho de 1978. Era de nacionalidade portuguesa e escrevia em português.

Infância e formação

Nasceu numa família de classe média alta. A sua infância foi marcada por uma saúde frágil e por uma intensa atividade intelectual. Frequentou o ensino secundário no Liceu Passos Manuel e o Liceu Camões em Lisboa. Licenciou-se em Engenharia Civil pela Universidade de Coimbra em 1945, mas a sua vocação literária sempre foi preponderante. Absorveu influências da literatura clássica, da filosofia e do pensamento existencialista. Um evento marcante foi a sua experiência como bolseiro na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde aprofundou os seus estudos literários e contactou com a efervescência cultural americana.

Percurso literário

O início da sua escrita poética remonta à adolescência. O seu percurso literário é marcado por uma evolução contínua, transitando por diferentes fases estilísticas, sempre com um fio condutor de erudição e reflexão profunda. Publicou a sua obra poética a partir da década de 1940, com coletâneas como "Páginas" (1946) e "Os Poetas e os Dias" (1955). Colaborou ativamente em diversas publicações literárias e culturais, tanto em Portugal como no estrangeiro. Foi também um notável tradutor e um influente crítico literário e ensaísta.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras poéticas principais incluem "Metamorfoses" (1963), "Fidelidade" (1971) e "Perguntas e Respostas" (1978). Os temas dominantes na sua obra são o amor, a morte, o tempo, a história, a condição humana, a identidade e a pátria. Sena explorou diversas formas poéticas, desde o soneto à experimentação com o verso livre e estruturas métricas inovadoras. Caracteriza-se por um ritmo intenso, musicalidade e um uso abundante de metáforas e recursos retóricos. O tom da sua poesia pode variar do lírico ao elegíaco, do confessional ao reflexivo, com uma voz poética que procura uma universalidade através da experiência individual. A sua linguagem é densa, erudita e precisa, marcada por uma forte carga imagética. Introduziu inovações formais e temáticas, dialogando com a tradição clássica e com a modernidade literária, associando-se frequentemente ao Modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Jorge de Sena viveu e escreveu num período de grande agitação histórica e política, incluindo a ditadura do Estado Novo em Portugal. A sua obra reflete uma profunda consciência crítica sobre a realidade social e política, e a sua posição antifascista levou ao seu exílio. Pertenceu a uma geração de intelectuais que procuravam renovar a cultura portuguesa. A sua obra dialoga com contemporâneos como Sophia de Mello Breyner Andresen e Miguel Torga, mas também com a tradição literária universal.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Casou com a escritora e crítica literária Mértis Machado. A sua vida foi marcada por experiências de exílio voluntário e pelas crises existenciais que moldaram a sua visão de mundo e a sua poesia. Foi professor universitário em diversas instituições nos Estados Unidos, dedicando a sua vida ao ensino e à investigação literária, para além da sua própria criação.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Jorge de Sena é considerado um dos maiores poetas portugueses do século XX, com um lugar de destaque na literatura lusófona e internacional. Recebeu vários prémios e distinções ao longo da sua carreira. A sua receção crítica tem sido consistentemente elevada, reconhecendo a profundidade e a qualidade da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Jorge de Sena foi influenciado por poetas como Fernando Pessoa, Luís de Camões e pela poesia clássica greco-latina. Influenciou gerações posteriores de poetas e escritores pela sua erudição, pela complexidade temática e pela inovação formal. A sua obra faz parte do cânone literário português e tem sido amplamente estudada e traduzida.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Jorge de Sena tem sido objeto de inúmeras análises críticas, que destacam a sua profundidade filosófica e existencial, a complexidade da sua linguagem e a universalidade das suas preocupações. Debates críticos centram-se frequentemente na relação entre a sua vida pessoal e a sua produção literária.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sena era conhecido pela sua inteligência viva e pela sua capacidade de argumentação. Um aspeto curioso da sua vida é a sua formação em engenharia, que contrasta com a sua profunda dedicação às humanidades. Os seus manuscritos e correspondência revelam um processo criativo intenso e uma constante procura pela perfeição.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Jorge de Sena faleceu de cancro em Santa Bárbara, Califórnia. As suas obras continuam a ser publicadas e a sua memória é preservada através de estudos, edições críticas e eventos culturais dedicados à sua figura e obra.

Poemas

45

Ode ao Surrealismo por Conta Alheia

Que levas ao colo,
embrulhado em sarrafaçais transcritos mau olhado
abomináveis trutas e outros preconceitos?
Um sacerdote? Um gato? A timidez?

Que transportas silencioso, imóvel, como dormindo, no xaile
pespontado a verde com que limpas o suor, o sêmen, as fezes,
tudo o que abandonas, ofereces, vendes, expulsas, injetas,
convocas, reprovas, descreves, etc.?
Embalas e não respondes.
Temes a polícia, os tapetes, o capacho, o telefone, as campainhas
de porta, as pessoas paradas pelas esquinas reparando
em por de baixo das roupas das outras que passam?
Temes as palavras?
Temes que saiam versos, lágrimas, casamentos,
satisfações apressadas em campos de arrabalde?
Temes os partidos, os artigos de fundo, os banqueiros, os capelistas,
a inflação, as úlceras do estômago ou sociais?
Que transportas ao colo
em silêncio e num xaile?
É a vida? Anúncios luminosos? Casas econômicas? O mar? Irmãos?
Reivindicações? Um livro?
Embalas e não respondes.

É a vida? A noite que cai? As luzes distantes? Um gesto? Um olhar?
Um quadro? Uma poesia lírica?

(Oportunamente interrompida pela chegada de uma pessoa conhecida)

3 903

Panfleto

Fere-me esta idolatria mais do que todos os crimes:
Tanto fervor desviado e perdido!
Tanta gente ajoelhando à passagem do tempo
e tão poucos lutando para lhe abrir caminho!

Há uma vida inteira a jogar e gastar
no pano verde imenso das campinas do mundo.
Há desertos cativos de uma ausência dos povos.
Há uma guerra devastando a vida,
enquanto a supuserem redimida!

E em nós a redenção quase perdida!...

Vamos rasgar, ó poetas, esta mentira da alma,
vamos gritar aos homens que os enganam,
que não é a força, que não é a glória,
que não é o sol nem a lua nem as estrelas,
nem os lares nem os filhos, nem os mares floridos,
nem o prazer nem a dor nem a amizade,
nem o indivíduo só compreendendo as causas,
nem os livros nem os poemas, nem as audácias heróicas,
— a redenção sou eu, se formos nós sem forma,
sem liberdade ou corpo, sem programas ou escolas!

Aqui está a redenção. Tomai-a toda.
E se é verdade a fome,
se é verdade o abismo,
se é verdade o pensamento úmido
que pestaneja ansioso nos cortejos públicos,
se são verdade as redenções que mentem:

Matem essa gente para salvar a Vida!
E matem-me com elas para que as queime ainda!

3 476

Conheço o sal

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.
Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.
Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.
Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.
Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.
A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.
1 926

Glosa à chegada do outono

O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera: este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.

.
.
.
1 606

Em Louvor da Promiscuidade

Quem tem de amor,
físico amor, ideia
que os olhos não possuem qual amor façamos
e que ele não vive do que os outros façam
ante os curiosos olhos com que bebamos
o ritmo das ancas como as formas
enlaçadas por mãos e pernas, sexos e bocas,
de pudicícia desastrada e matrimónica
com prostituta ou esposa. ou vive
de imaginar paixões por um só corpo
que não são mais que tê-lo tido e o hábito
de continuar a tê-lo. amor-amor
é uma outra coisa, mas não isto
nem o prazer que é feito de um prazer alheio
feito só de prazer sem pensamento
- que no promiscuo amor o imaginar
é só imaginar-se o que varia em acto.
3 904

Livros

90
Homenagem a Arthur Rimbaud

Homenagem a Arthur Rimbaud

1942

Perseguição

Perseguição

1942

Coroa da terra

Coroa da terra

1946

Florbela Espanca ou a expressão do feminino na poesia portuguesa

Florbela Espanca ou a expressão do feminino na poesia portuguesa

1947

Pedra filosofal

Pedra filosofal

1950

📚

O indesejado (António, Rei)

1951

📚

As evidências : poema em vinte e um sonetos

1955

Fidelidade

Fidelidade

1958

Da poesia portuguesa

Da poesia portuguesa

1959

Andanças do demónio

Andanças do demónio

1960

A noite que fora de Natal

A noite que fora de Natal

1961

📚

O poeta é um fingidor

1961

O reino da estupidez

O reino da estupidez

1961

Poesia I

Poesia I

1961

📚

A literatura inglesa : ensaio de interpretação e de história

1963

📚

Estudos de História e de Cultura

1963

Metamorfoses : seguidas de quatro sonetos a Afrodite Anadiómena

Metamorfoses : seguidas de quatro sonetos a Afrodite Anadiómena

1963

Novas andanças do demónio

Novas andanças do demónio

1966

Uma canção de Camões

Uma canção de Camões

1966

📚

Arte de música : trinta e duas metamorfoses musicais e um prelúdio, seguidos de um pot-pourri

1968

Os sonetos de Camões e o soneto quinhentista peninsular

Os sonetos de Camões e o soneto quinhentista peninsular

1969

📚

Peregrinatio ad loca infecta : 70 poemas... com um epílogo altamente filosófico...

1969

📚

A estrutura de «Os Lusíadas» : e outros estudos camonianos e de poesia peninsular do século XVI

1970

Dialécticas teóricas da literatura

Dialécticas teóricas da literatura

1970

📚

Observações sobre «As mãos e os frutos» de Eugénio de Andrade

1971

📚

Realism and Naturalism in Western Literatures, with Special References to Portugal and Brasil

1971

📚

Vinte e Um Ensaios sobre Eugénio de Andrade

1971

📚

Estudos sobre o vocabulário de «Os Lusíadas» : com notas sobre o humanismo e o exoterismo de Camões

1972

📚

Exorcismos

1972

Trinta anos de poesia

Trinta anos de poesia

1972

📚

Camões dirige-se aos seus contemporâneos : outros textos

1973

Dialécticas da literatura

Dialécticas da literatura

1973

Conheço o sal... e outros poemas

Conheço o sal... e outros poemas

1974

📚

Francisco de la Torre e D. João de Almeida

1974

Maquiavel e outros estudos

Maquiavel e outros estudos

1974

📚

Mater imperialis : Amparo de mãe e mais 5 peças em 1 acto seguido de um Apêndice

1974

Os grão-capitães : uma sequência de contos

Os grão-capitães : uma sequência de contos

1976

O físico prodigioso

O físico prodigioso

1977

Régio, Casais, a «Presença» e outros afins

Régio, Casais, a «Presença» e outros afins

1977

📚

Sobre esta praia... : oito meditações à beira do Pacífico

1977

Dialécticas Aplicadas  da Literatura

Dialécticas Aplicadas da Literatura

1978

📚

O Reino da Estupidez - II

1978

Poesia - II

Poesia - II

1978

Poesia - III

Poesia - III

1978

Sinais de fogo

Sinais de fogo

1978

40 anos de servidão

40 anos de servidão

1979

Sequências

Sequências

1980

Trinta anos de Camões : 1948-1978 : estudos camonianos e correlatos

Trinta anos de Camões : 1948-1978 : estudos camonianos e correlatos

1980

Correspondência [de] Jorge de Sena, Guilherme de Castilho

Correspondência [de] Jorge de Sena, Guilherme de Castilho

1981

Estudos de literatura portuguesa - I

Estudos de literatura portuguesa - I

1982

Fernando Pessoa & Ca heterónima : estudos coligidos, 1940-1978

Fernando Pessoa & Ca heterónima : estudos coligidos, 1940-1978

1982

Génesis

Génesis

1982

Isto tudo que nos rodeia : cartas de amor

Isto tudo que nos rodeia : cartas de amor

1982

Visão perpétua

Visão perpétua

1982

Post-scriptum II

Post-scriptum II

1985

Inglaterra revisitada : duas palestras e seis cartas de Londres

Inglaterra revisitada : duas palestras e seis cartas de Londres

1986

📚

Jorge de Sena / José Régio

1986

Sobre o romance : ingleses, norte-americanos e outros

Sobre o romance : ingleses, norte-americanos e outros

1986

Jorge de Sena / Vergílio Ferreira

Jorge de Sena / Vergílio Ferreira

1987

Estudos de Cultura e Literatura Brasileira

Estudos de Cultura e Literatura Brasileira

1988

Estudos de literatura portuguesa - II

Estudos de literatura portuguesa - II

1988

Estudos de Literatura Portuguesa - III

Estudos de Literatura Portuguesa - III

1988

Sobre cinema

Sobre cinema

1988

Do teatro em Portugal

Do teatro em Portugal

1989

Eduardo Lourenço/ Jorge de Sena

Eduardo Lourenço/ Jorge de Sena

1991

Amor e outros verbetes

Amor e outros verbetes

1992

Monte cativo e outros projectos de ficção

Monte cativo e outros projectos de ficção

1994

📚

O dogma da trindade poética (Rimbaud) e outros ensaios

1994

📚

Dante Moreira Leite / Jorge de Sena

1996

Antologia poética

Antologia poética

1999

Dedicácias : poemas e desenhos

Dedicácias : poemas e desenhos

1999

O fantasma de Camões e outros textos camonianos

O fantasma de Camões e outros textos camonianos

2002

A Arte de Jorge de Sena : uma antologia

A Arte de Jorge de Sena : uma antologia

2004

Diários

Diários

2004

Homenagem ao papagaio verde e outros contos

Homenagem ao papagaio verde e outros contos

2004

Poesia e cultura

Poesia e cultura

2005

Sobre literatura e cultura britânicas

Sobre literatura e cultura britânicas

2005

Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena : correspondência : 1959-1978

Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena : correspondência : 1959-1978

2006

Jorge de Sena, José-Augusto França

Jorge de Sena, José-Augusto França

2007

Jorge de Sena / Raul Leal, Correspondência 1957-1960

Jorge de Sena / Raul Leal, Correspondência 1957-1960

2010

América, América

América, América

2011

Rever Portugal : textos políticos e afins

Rever Portugal : textos políticos e afins

2011

Correspondência 1952-1978 [de] António Ramos Rosa, Jorge de Sena

Correspondência 1952-1978 [de] António Ramos Rosa, Jorge de Sena

2012

Jorge de Sena / Delfim Santos, Correspondência 1943-1959

Jorge de Sena / Delfim Santos, Correspondência 1943-1959

2012

Correspondência Jorge de Sena e Mécia de Sena ‘Vita Nuova’, Brasil

Correspondência Jorge de Sena e Mécia de Sena ‘Vita Nuova’, Brasil

2013

Entrevistas 1958-1978

Entrevistas 1958-1978

2013

📚

Jorge de Sena / João Gaspar Simões, Correspondência 1943-1977, incluíndo o carteio com Mécia de Sena

2013

📚

Jorge de Sena e Carlo Vittorio Cattaneo : Correspondência

2013

Poesia 1

Poesia 1

2013

Poesia 2

Poesia 2

2015

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