Lista de Poemas

Na ponta dos dedosbatem as palavras

sísmicas.E a testa abre-se profusamenteà força do
nome.Digo:aquele que escreve infunde o prodígio,respira ao
cimo com a luz nos pulmões,atravessa como se
florisse nos abismos.

de A Luz nos Pulmões(2000)

969

Trespassa a hegemonia da sombra

Trespassa a hegemonia da sombra

e descobrirás o ocluso

coração da luz.

O negro é apenas a cor

onde todas as cores repousam.

Não interrogues o dia

sobre a miríade de tons em que ele se imprime.

Procura a penumbra

e ela responder-te-á

com todo o contraste que lhe está negado.

de O Tempo de Foaron(1996)

800

A mulher borda

violentamente

o ventre contra o chão.

É este o centro do círculo da loucura,

e a luz está toda nos dedos.

O crime tem a idade do mundo,diz,

e recomeça a coser os pulsos

filho a filho.

A loucura é agora uma mão

cheia de sal

voltada para dentro.

Nenhum vaso se entorna

já em seu nome,

e sobre a mesa

os frutos estão fechados como pedras.

de Iniciação ao Remorso(1998)

831

Há a boca pisada de pedras,

e o remorso

é uma parede mordida pelo eco.

A mulher fechou-se no quarto

com a noite entre as mãos.

Está funda na casa.

Mas partidas todas as lâmpadas

a cegueira é ainda uma forma de ver.

de Iniciação ao Remorso(1998)

1 141

O homem inclinou-se para trás

e a sua fornte acendeu-se

nome a nome.

souberam então que morria,

e precipitaram-se sobre a sua cabeça

bebendo-lhe a luz.

Era um homem como um átrio,

transbordante,

à boca da casa.

de Iniciação ao Remorso(1998)

918

O poema são fogueiras levantadas na

gargantaou um sono inclinado sobre as facas.Alguém
diz,a prumotodos os nomes queimam,e há uma
deflagração assombrosa,a palavra acende-se com
uma àrvore de sangue ao centro.

de A Luz nos Pulmões(2000)

753

O homem está dobrado sobre a mesa,

as palmas das mãos presas ao tampo,

a morte na nuca.

Em redor as mulheres delimitam a casa,

são os pulsos da casa,

e há um silêncio como um pedra rasgada.

Mas hão-de apagar-se as mulheres

primeiro que o fogo.

de A Luz nos Pulmões(2000)

845

Roda em torno o bafo do nome,

e o homem está como um fole a prumo

sob o arco da língua.

Outras vezes é uma vara fincada

ao centro.

Abre a ideia,

sustenta o fogo nas mãos,

arde ao meio como um ofício puro.

de A Luz nos Pulmões(2000)

859

À beira das salinas os homens declinam,

as cabeças como cometas fulminantes.

De longe a longe vêm os filhos,

trazem a solidão como um metal aceso nas costas

trazem um enxame de dardos.

E a memória é um pulso atravessado.

Quando partem fecham atrás de si as portas,

e os homens voltam a sentar-se sobre as estacas

e brilham.

de A Luz nos Pulmões(2000)

882

Empurram-se dos olhos,

dividem-se pela casa.

Como grandes câmaras vazias sonham

ou enloquecem por detrás dos cântaros.

Cantam as mãos que cozem junto ao barro,

o azeite dormindo nas talhas.

Cantam o outono nos olhos húmidos dos cães.

de A Luz nos Pulmões(2000)

899

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Identificação e contexto básico

Jorge Manuel Dias Melícias é um poeta português. Nasceu em 1952. É licenciado em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Doutor em Literatura Comparada pela Universidade Nova de Lisboa. A sua obra poética é escrita em português e está inserida no contexto da poesia contemporânea portuguesa.

Infância e formação

A infância e juventude de Jorge Melícias decorreram em Portugal, num período de importantes transformações sociais e políticas. A sua formação académica, com especialização em Filologia Germânica e Literatura Comparada, moldou a sua visão crítica e a sua sensibilidade literária. A sua paixão pela literatura e pela poesia foi desenvolvida através de leituras intensivas e do contacto com diversas correntes literárias.

Percurso literário

O percurso literário de Jorge Melícias iniciou-se com a publicação dos seus primeiros poemas, que gradualmente foram conquistando um lugar na poesia contemporânea portuguesa. Ao longo do tempo, a sua obra tem vindo a consolidar-se, mostrando uma evolução constante em termos de temas e de forma. Para além da sua obra poética, Jorge Melícias tem uma atividade relevante no campo académico, o que lhe confere uma perspetiva crítica aprofundada.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Jorge Melícias é caracterizada por uma profunda reflexão existencial, pela exploração da memória e do tempo, e pela sua capacidade de evocar imagens através de uma linguagem cuidada e musical. Temas como a fugacidade da vida, a relação com a natureza, a busca por um sentido mais profundo da existência e a própria experiência da escrita são recorrentes. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com uma grande atenção ao ritmo e à sonoridade das palavras, conferindo à sua poesia uma musicalidade subtil. O tom da sua voz poética é, por vezes, lírico e contemplativo, outras vezes mais introspectivo e analítico. A linguagem é precisa, com um vocabulário rico, mas sem excessos, privilegiando a sugestão e a evocação. A sua obra dialoga com a tradição literária, mas insere-se claramente na modernidade, explorando as possibilidades da linguagem poética contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Jorge Melícias insere-se no contexto da poesia portuguesa contemporânea, um período marcado por uma grande diversidade de estilos e temáticas. A sua atividade académica, como professor universitário, coloca-o em contacto com debates intelectuais e culturais relevantes. A sua obra reflete uma consciência do mundo atual, embora a sua poesia se concentre mais em questões universais e existenciais do que em factos históricos imediatos.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Como académico e intelectual, a vida de Jorge Melícias tem sido marcada pelo estudo e pela dedicação às artes e às letras. As suas experiências pessoais, as suas leituras e a sua profunda sensibilidade para com o mundo refletem-se na sua obra poética, conferindo-lhe autenticidade e profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A poesia de Jorge Melícias tem sido reconhecida pela sua qualidade literária e pela sua profundidade reflexiva. A sua obra tem vindo a conquistar um lugar na literatura contemporânea portuguesa, sendo apreciada tanto por leitores como pela crítica especializada, que valoriza a sua mestria técnica e a sua capacidade de tocar em temas universais.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências literárias de Jorge Melícias incluem, certamente, a vasta tradição da poesia portuguesa e universal. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia contemporânea, marcada por uma voz autêntica e por uma reflexão profunda sobre a condição humana. A sua obra continua a ser um ponto de referência para a poesia que se faz em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Jorge Melícias oferece um vasto campo para a interpretação crítica, especialmente no que diz respeito às suas reflexões sobre a transitoriedade do tempo, a fragilidade da memória e a procura de sentido num mundo em constante mudança. A sua poesia convida à introspecção e à contemplação, estimulando o leitor a questionar a sua própria existência e a sua relação com o universo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sendo uma figura mais reservada no panorama público, os aspetos menos conhecidos da vida de Jorge Melícias residem talvez na sua jornada pessoal em busca da expressão poética e na forma como a sua atividade académica se entrelaça com a sua criação literária. A sua dedicação ao estudo da literatura e à escrita poética revela uma profunda paixão pela palavra e pelo conhecimento.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não aplicável no presente momento, pois o autor está vivo e a sua obra continua a ser produzida.