José Craveirinha

José Craveirinha

1922–2003 · viveu 80 anos MZ MZ

José Craveirinha foi um poeta moçambicano, considerado um dos maiores nomes da literatura africana de língua portuguesa. Sua obra, fortemente marcada pela identidade moçambicana, pela luta contra o colonialismo e pela celebração da cultura e das gentes de Moçambique, é caracterizada por uma linguagem vibrante e expressiva, que mescla o português com elementos das línguas locais. É conhecido como o "Poeta do Povo".

n. 1922-05-28, Maputo · m. 2003-02-06, Maputo

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Quero Ser Tambor

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

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Biografia

Identificação e contexto básico

José Craveirinha nasceu em Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique, a 28 de março de 1922, e faleceu em Durban, África do Sul, a 24 de fevereiro de 2010. Foi um poeta moçambicano de renome internacional. Filho de pai português e mãe moçambicana, enfrentou os desafios da identidade e do preconceito racial numa sociedade colonial. Escreveu em português, mas a sua obra está imbuída da oralidade e das línguas moçambicanas.

Infância e formação

Cresceu em Moçambique, imerso na cultura local e nas contradições do regime colonial. Teve uma formação escolar limitada, mas desenvolveu um grande conhecimento da língua e da cultura moçambicanas através da vivência e da oralidade. A sua experiência pessoal com a discriminação racial moldou profundamente a sua visão de mundo e a sua escrita.

Percurso literário

Começou a escrever poesia na adolescência, mas o seu percurso literário foi interrompido por atividades políticas e por perseguições do regime colonial. Foi preso e torturado pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) na década de 1960, devido ao seu ativismo contra o colonialismo. Após a independência de Moçambique, em 1975, a sua obra ganhou maior reconhecimento e ele tornou-se uma figura proeminente da nova nação. Foi editor e cronista em diversos jornais.

Obra, estilo e características literárias

As suas obras mais conhecidas incluem "Xigubo" (1964), "Karingana wa karingana" (1974), "Obra Poética" (1991) e "Cela 7" (1992). Os temas centrais da sua poesia são a identidade moçambicana, a resistência à opressão colonial, a exploração do povo, a saudade da terra, a beleza e a dignidade africana, e a celebração da cultura e da oralidade. A sua linguagem é forte, expressiva, rítmica e musical, incorporando termos e construções das línguas moçambicanas, como o Changana. Utiliza o verso livre e explora a sonoridade das palavras, aproximando-se da poesia oral.

Contexto cultural e histórico

Craveirinha viveu e escreveu durante o período colonial português em Moçambique e foi uma voz ativa na luta pela independência. A sua obra é um reflexo direto do contexto histórico de exploração, racismo e busca por identidade nacional. Foi uma figura central na afirmação da literatura moçambicana como expressão da realidade africana.

Vida pessoal

Sua vida foi marcada pela luta política e pela perseguição. Enfrentou dificuldades financeiras e pessoais devido ao seu ativismo. O seu amor por Moçambique e o seu povo foi a força motriz da sua vida e obra.

Reconhecimento e receção

José Craveirinha é amplamente reconhecido como um dos maiores poetas africanos de língua portuguesa. Recebeu diversos prémios e distinções, incluindo o Prémio Camões em 1991, o mais prestigiado prémio literário da língua portuguesa. É considerado o "Poeta do Povo" em Moçambique.

Influências e legado

Influenciado pela poesia oral africana, pela cultura moçambicana e pela literatura de resistência, Craveirinha influenciou gerações de escritores africanos e lusófonos. O seu legado reside na sua capacidade de dar voz ao sofrimento, à resistência e à dignidade do povo moçambicano, e na sua contribuição para a afirmação da identidade cultural africana na literatura.

Interpretação e análise crítica

A crítica tem destacado a força expressiva da sua poesia, a sua capacidade de retratar a alma moçambicana e a sua importância como voz de resistência e afirmação cultural. A fusão entre o português e as línguas moçambicanas é vista como um dos seus maiores trunfos literários.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Craveirinha tinha um forte vínculo com a cidade de Maputo e com as tradições locais. A sua poesia é frequentemente declamada e musicada, demonstrando a sua profunda ligação com a oralidade e a cultura popular.

Morte e memória

Faleceu em 2010, após uma doença. A sua morte gerou grande comoção em Moçambique e nos países de língua portuguesa. É lembrado como um herói nacional e um dos maiores poetas da lusofonia, com a sua obra a continuar a inspirar e a emocionar leitores em todo o mundo.

Poemas

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Quero Ser Tambor

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

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Grito Negro

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

28 057

Reza, Maria

Suam no trabalho as curvadas bestas
e não são bestas
são homens, Maria!

Corre-se a pontapés os cães na fome dos ossos
e não são cães
são seres humanos, Maria!

Feras matam velhos, mulheres e crianças
e não são feras, são homens
e os velhos, as mulheres e as crianças
são os nossos pais
nossas irmãs e nossos filhos, Maria!

Crias morrem á míngua de pão
vermes na rua estendem a mão a caridade
e nem crias nem vermes são
mas aleijados meninos sem casa, Maria!

Do ódio e da guerra dos homens
das mães e das filhas violadas
das crianças mortas de anemia
e de todos os que apodrecem nos calabouços
cresce no mundo o girassol da esperança

Ah! Maria
põe as mãos e reza.
Pelos homens todos
e negros de toda a parte
põe as mãos
e reza, Maria!
24 584

Um homem não chora

Acreditava naquela historia
do homem que nunca chora.

Eu julgava-me um homem.

Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.

Agora tremo.
E agora choro.

Como um homem treme.
Como chora um homem!
21 659

Fábula

Menino gordo comprou um balão
e assoprou
assoprou com força o balão amarelo.

Menino gordo assoprou
assoprou
assoprou
o balão inchou
inchou
e rebentou!

Meninos magros apanharam os restos
e fizeram balõezinhos.
9 650

Aforismo

Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.

Estávamos iguais
com duas diferenças:

Não era interrogada
e por descuido podiam pisa-la.

Mas aos dois intencionalmente
podiam por-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.
8 567

Ao Meu Belo Pai Ex-emigrante

Pai:
As maternas palavras de signos
vivem e revivem no meu sangue
e pacientes esperam ainda a época de colheita
enquanto soltas já são as tuas sentimentais
sementes de emigrante português
espezinhadas no passo de marcha
das patrulhas de sovacos suando
as coronhas de pesadelo.

E na minha rude e grata
sinceridade não esqueço
meu antigo português puro
que me geraste no ventre de uma tombasana
eu mais um novo moçambicano
semiclaro para não ser igual a um branco qualquer
e seminegro para jamais renegar
um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue.

E agora
para além do antigo amigo Jimmy Durante a cantar
e a rir-se sem nenhuma alegria na voz roufenha
subconsciência dos porquês de Buster keaton sorumbático
achando que não valia a pena fazer cara alegre
e um Algarve de amendoeiras florindo na outra costa
Ante os meus sócios Bucha e Estica no "écran" todo branco
e para sempre um zinco tap-tap de cacimba no chão
e minha Mãe agonizando na esteira em Michafutene
enquanto tua voz serena profecia paternal: - "Zé:
quando eu fechar os olhos não terás mais ninguém."

Oh, Pai:
Juro que em mim ficaram laivos
do luso-arábico Algezur da tua infância
mas amar por amor só amo
e somente posso e devo amar
esta minha bela e única nação do Mundo
onde minha mãe nasceu e me gerou
e contigo comungou a terra, meu Pai.
E onde ibéricas heranças de fados e broas
se africanizaram para a eternidade nas minhas veias
e teu sangue se moçambicanizou nos torrões
da sepultura de velho emigrante numa cama de hospital
colono tão pobre como desembarcaste em África
meu belo Pai ex-português.

Pai:
O Zé de cabelos crespos e aloirados
não sei como ou antes por tua culpa
o "Trinta-Diabos" de joelhos esfolados nos mergulhos
à Zamora nas balizas dos estádios descampados
avançado-centro de "bicicleta" à Leónidas no capim
mortífera pontaria de fisga na guerra aos gala-galas
embasbacado com as proezas do Circo Pagel
nódoas de cajú na camisa e nos calções de caqui
campeão de corridas no "xituto" Harley-Davidson
os fundilhos dos calções avermelhados nos montes
do Desportivo nas gazetas à doca dos pescadores
para salvar a rapariga Maureen OSullivan das mandíbulas
afiadas dos jacarés do filme de Trazan Weissmuller
os bolsos cheios de tingolé da praia
as viagens clandestinas nas traseiras gã-galhã-galhã
do carro eléctrico e as mangas verdes com sal
sou eu, Pai, o "Cascabulho" para ti
e Sontinho para minha Mãe
todo maluco de medo das visões alucinantes
de Lon Chaney com muitas caras.

Pai:
Ainda me lembro bem do teu olhar
e mais humano o tenho agora na lucidez da saudade
ou teus versos de improviso em loas à vida escuto
e também lágrimas na demência dos silêncios
em tuas pálpebras revejo nitidamente
eu Buck Jones no vaivém dos teus joelhos
dez anos de alma nos olhos cheios da tua figura
na dimensão desmedida do meu amor por ti
meu belo algarvio bem moçambicano!

E choro-te
chorando-me mais agora que te conheço
a ti, meu pai vinte e sete anos e três meses depois
dos carros na lenta procissão do nosso funeral
mas só Tu no caixão de funcionário aposentado
nos limites da vida
e na íris do meu olhar o teu lívido rosto
ah, e nas tuas olheiras o halo cinzento do Adeus
e na minha cabeça de mulatinho os últimos
afagos da tua mão trémula mas decidida sinto
naquele dia de visitas na enfermaria do hospital central.

E revejo os teus longos dedos no dirlim-dirlim da guitarra
ou o arco da bondade deslizando no violino da tua aguda tristeza
e nas abafadas noites dos nossos índicos verões
tua voz grave recitando Guerra Junqueiro ou Antero
e eu ainda Ricardino, Douglas Fairbanks e Tom Mix
todos cavalgando e aos tiros menos Tarzan analfabeto
e de tanga na casa de madeira e zinco
da estrada do Zichacha onde eu nasci.

Pai:
Afinal tu e minha mãe não morreram ainda bem
mas sim os símbolos Texas Jack vencedor dos índios
e Tarzan agente disfarçado em África
e a Shirley Temple de sofisma nas covinhas da face
e eu também Ee que musámos.
E alinhavadas palavras como se fossem versos
bandos de se´´cuas ávidos sangrando grãos de sol
no tropical silo de raivas eu deixo nesta canção
para ti, meu Pai, minha homenagem de caniços
agitados nas manhãs de bronzes
chorando gotas de uma cacimba de solidão nas próprias
almas esguias hastes espetadas nas margens das úmidas
ancas sinuosas dos rios.

E nestes versos te escrevo, meu Pai
por enquanto escondidos teus póstumos projectos
mais belos no silêncio e mais fortes na espera
porque nascem e renascem no meu não cicatrizado
ronga-ib´´rico mas afro-puro coração.
E fica a tua prematura beleza realgarvia
quase revelada nesta carta elegia para ti
meu resgatado primeiro ex-português
número UM Craveirinha moçambicano!

8 382

Outra beleza

Uns exibem insólitos perfis
de outra beleza
maquilhada
no mato.

ou
do viés
ou de frente
perfeitos modelos de caveira
desfilam sem nariz.
6 467

Sementeira

Cresce a semente
lentamente
debaixo da terra escura.

Cresce a semente
enquanto a vida se curva no chicomo
e o grande sol de África
vem amadurecer tudo
com o seu calor enorme de revelação.

Cresce a semente
que a povoação plantou curvada
e a estrada passa ao lado
macadamizada quente e comprida
e a semente germina
lentamente no matope
imperceptível
como um caju em maturação.

E a vida curva as suas milhentas mãos
geme e chora na sina
de plantar nosso suor branco
enquanto a estrada passa ao lado
aberta e poeirenta até Gaza e mais além
camionizada e comprida.

Depois
de tanga e capulana a vida espera
espiando no céu os agoiros que vão
rebentar sobre as campinas de África
a povoação toda junta no eucalipto grande
nos corações a mamba da ansiedade.

Oh! Dia de colheita vai começar
na terra ardente do algodão!
6 305

Moçambiquicida

Das incursões bem sucedidas aos povoados
sobressaem na paisagem as patrícias
sacarinas capulanas de fumaça
e uma fervura de cinco
tabuadas e uns onze
- ou talvez só dez -
cadernos e um giz
espólio das escolas destruídas.


Sobrevivos moçambiquicidas
imolam-se mesclados
no infuturo.
6 913

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Tremenda beleza em versos de uma guerra , que se tornou um canto universal. do Poeta José Craveirinha. esta é uma verdade dolorida da humanidade.

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