Lista de Poemas

Crepúsculo Plangente

...quando o sol da já declina...
Guerra Junqueira

Crepúsculo flamejante - nesta hora a minha avó Carmelina (há quanto tempo?)
entrava na nave escura da igreja matriz de Massapê. norte cearense, para rezar
ouvindo a "Ave Maria", de Charles Gounod, tocada, num harmônio, por sua
filha Enoi, cega e muda de nascença - neste crepúsculo de agora, não menos
rutilante, o sol meteu um raio através da vidraça e iluminou de face, duas pedras
postas ao pé da estante, bem junto da bengala avoenga, seixos rolados ornando
recanto desta sala sombria cheia de coisas e de recordações, como a da avó.

Uma das pedras, em forma de uma bola ovalada do tamanho de uma mão, veio
do rio Corumbá, Pirinópolis, apanhada depois da festa de ano novo de 1983,
a data deveria estar inscrita numa de suas rotundas faces, como lápide dos dias
idos a vagar soltos na memória esgarçada, sem registro lapidar.

A outra, menor, também branca e arredondada, mas chata, sem
qualquer grafia em suas faces, veio de longe, da praia do Camocim,
ali o rio Coreaú derramando suas poucas águas no Atlântico, no Ceará,
onde chorei meus primeiros desencantos, aos 10 anos.

Mas esta pedrinha a apanhei depois, bem depois, desiludido, quando lá fui,
Já velho, procurar ( não encontrei) os dias de eu menino. As duas pedras,
brancas como o leito dos rios que já foram, rememoram as idades, o sol
insiste em luz sobre suas faces mortas não inscritas, mas cheias de visões.

Enquanto há luz crepuscular e recordativa, a visão sobe e ilumina, na mesma
estante, alto do chão, um barco que nunca navegou: tem dois palmos, convés
baixo, imita rebocador: na coberta superior dá proa carrega, como únicos marujos,
dois copinhos; na meia nau, uma achatada garrafa de cristal, continente translúcido
de avinhados sonhos, lembrança de velhos dias e amoráveis encontros com meu pai
Raymundo Olavo que já se foi sem dizer adeus mas deixou a saudade feito barco
em miniatura navegando em minha estante me enchendo de etílicos sonhos, com
dois copos para mim mesmo que vivo e libo solitário.

Os raios do sol ainda me iludem e varam a vidraça mostrando uma coruja feia,
esculpida num tronco, e pousada em ilusórios livros também de madeira. Pássaro
de inaudita face, grandes asas fechadas sobre o tronco curto, sem vôo algum, veio
de longe. Seus cornos e seus olhos apagados são de depois dos amores praianos
da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, aí como dói ser antigo, vive-se olhando
para si mesmo a - fealdade da coruja - perdidos os encantos juvenis.

Atrás da coruja, em elegante moldura, o sol, que ainda insiste em iluminar esta
pequena sala em que abrigo meus desencantos, velhos e novos, mostra um antigo
retrato de dois jovens sob a chuva caminhando, metidos em capas de "shantung",
na Avenida Barão do Rio Branco, no Rio de Janeiro: eu mesmo quando ainda
freqüentava as alegres casas da rua Alice, metido num fato de casimira preta
riscado de listas brancas que a capa de todo não escondia, fumando o cigarro da
ilusão; e ao lado, meu inesquecível amigo Bolívar (Bolivár, como se dizia) Costa,
natural de Ubajara da Serra Grande, Ceará, mas o único cosmopolita que já vira,
capaz de dissertar sobre Arist6teles ou Platão e dizer quantas faces tem o universo,
curvo ou plano, medieval ou eisensteiniano e, por entre sabença, o gosto pela arte
literária, a recitar António Nobre, o "Auto das Ânsias": "Desde o Ódio ao Tédio.
Moléstias dAlma para as quais não há remédio". Igual só ao meu nojo de agora,
neste crepúsculo... Morreu, o Bolivár, quando não devia. deixando-me a imagem
de minha inovidável mocidade, o retrato na parede, perto da estante e da coruja,
mostrando minha antigüidade e a sua irreparável ausência.

O sol e seus persistentes raios vão subindo - quanto mais sobem mais vai se
indo para o poente o astro - e vejo um pássaro pousado sobre dicionários. Pequeno,
feito não sei de que matéria, veio da China, bico amarelo, cocuruto erguido em crista,
rabo longo, fecha as asas sobre altaneiro corpo, nunca voou desde que o comprei em
Manaus, quando lá fui com minha amada Neide, faz anos, ver como correm os rios e
como voam os pássaros, não este pousado em minhas ilusões. Não sei que música
tocando na eletrola, me diz: - Passarinhos são assim mesmo, só os vemos quando
pousados, se voam nunca mais os veremos, sonhos perdidos.

Perto do memorável passarinho quietíssimo, umas rubras rosas de plástico -
puros enganos - postas em esgalgados jarros, dois, de pedra sabão: tudo, sob os
últimos raios do sol, tediosas evocações - a avó encantadora da infância, o
sortilégio das pedras, dos rios, o barco navegando em seco nas recordações
paternas, a soturna coruja e o fascínio do pássaro imóvel, os rapazes do
retrato na parede, as rosas vermelhas dos sonhos, tudo se foi, tudo se vai,
o sol morrendo, eu vendo, pela janela, seu descair no horizonte fugidio e,
no escuro de agora, as incertezas de outro amanhecer, trevas, talvez, para
sempre ...

Brasília, ao crepúsculo do dia 21 de fevereiro de 1996.

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Identificação e contexto básico

José Hélder de Souza foi um poeta brasileiro, cuja obra poética se destacou pela sua sensibilidade lírica e pela exploração de temas profundos da experiência humana. Poucos detalhes sobre sua vida pessoal e contexto familiar são amplamente divulgados, o que confere à sua figura um certo mistério e concentra a atenção na sua produção literária.

Infância e formação

As informações sobre a infância e a formação de José Hélder de Souza são limitadas. Não há registos detalhados sobre sua educação formal ou sobre influências específicas que moldaram sua juventude. No entanto, a maturidade e a profundidade de sua poesia sugerem um percurso de leituras e reflexões pessoais que foram cruciais para o desenvolvimento de sua voz poética.

Percurso literário

O percurso literário de José Hélder de Souza é marcado por uma poesia que tende a explorar a introspecção e a subjetividade. Não há informações sobre um início específico para sua escrita, mas sua obra publicada revela uma maturidade na abordagem dos temas e na construção da linguagem. A evolução do seu estilo ao longo do tempo, se houver, não é facilmente rastreável devido à escassez de dados biográficos detalhados.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de José Hélder de Souza é marcada por uma forte veia lírica, abordando com frequência temas como o amor, a saudade, a passagem do tempo e a condição existencial do ser humano. Sua linguagem poética é rica em imagens e em musicalidade, buscando evocar emoções e sensações no leitor. O uso de metáforas e de recursos expressivos contribui para a densidade e a profundidade de seus versos. O tom de sua poesia pode ser classificado como lírico e, por vezes, elegíaco, com uma voz poética que se conecta com a universalidade dos sentimentos humanos. Embora sua obra possa não estar diretamente associada a um movimento literário específico, ela dialoga com a tradição da poesia lírica, renovando-a através de sua perspectiva singular.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico O contexto cultural e histórico em que José Hélder de Souza atuou não é detalhadamente documentado. A falta de informações sobre sua participação em círculos literários ou em movimentos específicos dificulta sua inserção em um quadro mais amplo da produção literária de sua época. No entanto, sua poesia aborda temas que são atemporais e universais, permitindo que sua obra dialogue com leitores de diferentes contextos.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações sobre a vida pessoal de José Hélder de Souza são escassas. Não há detalhes conhecidos sobre suas relações familiares, amizades ou envolvimento em outras atividades além da poesia. A sua dedicação à arte da palavra parece ter sido o foco principal de sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de José Hélder de Souza é, em grande parte, construído a partir da apreciação de sua poesia por leitores e críticos que valorizam a expressão lírica e a profundidade temática. A sua contribuição para a literatura reside na força emotiva e na beleza formal de seus poemas.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências exatas que moldaram a poesia de José Hélder de Souza são difíceis de determinar sem mais dados biográficos. Contudo, seu legado reside na capacidade de expressar, de forma sensível e artísticamente elaborada, sentimentos e reflexões inerentes à condição humana, oferecendo aos leitores uma experiência poética enriquecedora.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de José Hélder de Souza convida a uma análise centrada na sua capacidade de transpor para o verso a complexidade dos sentimentos. A leitura de sua obra pode revelar camadas de significado relacionadas à busca humana por sentido, à beleza encontrada na efemeridade da vida e à força do amor e da saudade. A crítica tende a valorizar a sua habilidade em criar atmosferas e em tocar em emoções universais.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Devido à escassez de informações, muitos aspetos da vida e do processo criativo de José Hélder de Souza permanecem como curiosidades não desvendadas. Sua obra é o principal portal para o conhecimento de sua sensibilidade e de sua visão de mundo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há informações disponíveis sobre as circunstâncias da morte de José Hélder de Souza, nem sobre qualquer publicação póstuma que possa ter ampliado o acesso à sua obra.