O Ódio — Mathieu Kassowitz (1995)
Os adolescentes armados da Libéria e da Serra Leoa
não sabem quem lhes pôs um gatilho na vida.
Eu faço uma ideia, mas não digo nada. Prefiro
comprar em DVD O Bom, O Mau e o Vilão.
As mortes de urânio enriquecido que disparamos
na Sérvia são fabricadas pela Boeing e pela General
Motors. Mas eu gosto de ir a Londres, a Paris,
a Nova Iorque, e o meu automóvel é bastante fiável.
É verdade que não voto no bloco liberal, mas
nem por isso sou menos culpado pelo íntimo
holocausto dos vitelos sociais. Basta ver
as sapatilhas que ofereci ao meu sobrinho no Natal
Não fui eu que negociei com o régulo o despejo
de resíduos tóxicos no mar da Somália, é verdade.
No entanto, tenho luz em casa, água quente, combustível...
e sexta-feira à tarde lá vou eu com a Joana para o Alto Douro.
O sofrimento dos outros, enfim, é relativo. Não vale a pena,
só por isso, interromper o sol. A mim, pessoalmente,
nada me dói: tenho para livros, discos, preservativos,
e a vida que levo convém-me lindamente. Aprecio sobretudo,
e cada vez mais, as quietas florações da vida interior,
a doméstica lida. Mas não vou dizer que não sei onde fica
a Chechénia ou o Bairro do Cerco. Nisto sou como tu,
leitor: custa-me ver, de manhã, o meu sorriso ao espelho.
Colheita de 98
Comprei ontem no supermercado
uma garrafa de maduro tinto do Ribatejo.
Se o rótulo não mente, estou perante
um vinho de cor granada, um corpo excelente,
sabor e aroma muito acentuados,
com alguma evolução e persistência.
Talvez não seja o Bem, a Beleza, a Verdade,
mas é melhor do que a minha vida incorpórea,
caprichosa, sem evolução,
de cor avinagrada e aroma nenhum.
Além disso é garantido por testes laboratoriais,
enquanto eu - quem me garante o quê?
Ladrões de Bicicletas — Vittorio de Sica (1948)
Mil quilómetros por dia pedalava meu pai, desde
a cama junto ao Douro até à próspera Cerâmica
de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta inimigos por hora,
imaginem a jornada de um operário ciclista.
Tudo são despesas para ele: o rosário de geada
nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor
da Primavera, a poalha do suor em cada mão.
Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto
de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos
de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho
em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,
erguido nos pedais do seu veículo de sombra,
solitário trepador pela encosta de Avintes. Não
trabalha em nenhum matadouro. E nesse reconforto
passa à Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,
sente já o rumor de fumacentos camiões na nacional,
onde tudo, depois, será muito mais plano.
Via del Corno
O primeiro tema do sentimento cristão é a compaixão,
que podia ter fundado a equidade, se a Igreja
não tivesse para os homens um projecto faraónico
/semita de poder, humilhação e dependência.
Tinha tudo, a compaixão (essa réplica possível
ao desastre natural) para coser a lei de Zeus
Hospitaleiro à promissão comutadora da justiça,
traduzida na sensata isonomia mundial e
no empenho de aumentar a produção do tempo
livre (de maneira a que chegasse para todos).
Desterrada, todavia, para dentro, deformada
em caridade, sem efeitos no real que sobrelevem
o regalo duma lágrima local, a compaixão reduz-se
ao gosto complacente duma liberalidade baratucha
- toda feita de moções, duplicidades, emoções
e florações de lavadinha consciência. E, assim,
para que serve, que adianta a compaixão?
Sinopse
Nem martelo nem bigorna, como sempre
desejei: as tardes à janela, sem vizinhos nem
ardis, a injustiça reduzida ao mecanismo
natural da bicharada, o lavradio do amor
a tempo inteiro.
Só me falta, para tudo
proteger em cobardia, uma campânula
de cego na cabeça, aprender a fechar olhos
e ouvidos ao avanço hertziano da desdita.
Então serei feliz e integral como um cadáver.
Hades
Quem não ama o seu deserto
pode amar o colectivo?
São onze da manhã e já a rua
me pergunta:
que te fez sair de casa?
Vagueio pela margem
deste rio sulfuroso, cruzo-me
convosco, dou ouvidos a carteiros,
vendedores de talismãs,
de histórias mal feridas,
de tapetes que ninguém desenrolou.
Acompanham-me os gemidos
emitidos pela tarde.
Contorno os infelizes
automóveis, dou a Lázaro
(que nem se chama Lázaro)
o cigarro do costume, retribuo
a piedade que me olha.
Continuo noite fora, pela borda dos cafés
onde as cartas são batidas por azar
e a morte, triunfante,
convida a novo copo de veneno.
Quando a luz luciferina da manhã
já se comenta nas vielas,
subo a gola do casaco,
procuro uma parede imaculada
e deixo a gotejar esta pergunta:
AQUILES, ONDE ESTÁS?
8 MM — Joel Schumacher (1998)
Só o mal pode vencer o mal, pois o bem não tem
poder; tem apenas compaixão, fadiga e compaixão.
É por isso que um polícia não consegue
manter limpos os sapatos. E quando chega a casa
nenhum filho o felicita. Ouve da mulher:
«Patife - a carpete! - estragaste a minha vida!»
Não sei se a culpa é minha ou de ninguém,
mas romperam-se as comportas e a lama
corre livre na cidade do homem.
Quem tem asas pode talvez salvar-se;
mas quem for sozinho, que vontade de morrer.
Fogo-Fátuo — Louis Malle (1963)
Se cada um fizesse a sua parte, o mundo seria
um lugar perfeito: a despovoada alegria
dos montes, as ruas esmaltadas de verdura,
os séculos sem rumo nem História.
Utopia menos dúbia não conheço do que esta.
E era tão simples: bastava que cada um
abdicasse um pouco do nó cego
a que chamamos eu, dessa falsa confiança,
uma vida a conta-gotas. Bastava
um tiro certeiro, um nó corredio, um saco
de plástico a fechar no pescoço. Mas não,
deixemo-nos de sonhos revolucionários:
a paz na Terra só virá por acidente
(vascular-cerebral, ao volante, o que for).
Somos todos egoístas, frívolos, vivos,
incapazes de um gesto despoluidor.
Eu próprio, que devia dar o exemplo
estou sentado na cozinha a tentar decidir-me
entre pão com manteiga e bolachas de centeio,
enquanto a chaleira, no fogão, assobia para o ar.
Não sei se são os trinta anos
Não sei o que se passa comigo:
cada vez me assusta mais a solidão.
Aos vinte anos, aos vinte e cinco,
figurava o paraíso como um quarto vazio,
onde o silêncio de um livro ressoava
pela noite dentro. Protegia dos amigos
minhas horas, dos irmãos, dos apelos
do telefone. Como um cego de nascença,
estudava a escuridão. Sonhava-me
recluso numa ilha de fragais, rodeado
de trincheiras, distante de pracetas,
acenos, convites para jantar:
O lamento era o meu hobby preferido.
Não sei se são os trinta anos, a chuva,
o sabor de mais um dia derrubado
nos transportes colectivos,
A queda maligna das primeiras folhas;
não sei o que é, talvez o teu amor
comece, pouco a pouco, a civilizar-me.
Agora, se chego a casa e tu não estás,
corro a pôr música, abro janelas,
agarro-me ao telefone, como um náufrago,
incapaz de suportar por um segundo
o terror emboscado debaixo da cama,
atrás das estantes, dentro de mim.
Salão de beleza (1ª impressão)
Divertidas aporias alimentam os diários
de quem vive o abandono das cidades.
O que fazes, terra vã, nesse passo movediço
de carreta funerária, os lábios uma taça
esbotenada, os olhos como duas pás de cinza,
o que esperas tu à porta da Beleza?
Ditirâmbica ilusão, descordoada lira
cujo timbre nenhum salmo recupera,
por que tintas queres vestir-te para o baile,
se a morte, esse fácil D. Juan, que não sabe
dizer não, é o único galã que permanece
na penumbra do salão e tu própria
já não sabes muito bem
a que santo encomendar as tuas pernas.