José Miguel Silva

José Miguel Silva

n. 1957 PT PT

José Miguel Silva é um poeta português contemporâneo, conhecido pela sua obra lírica e reflexiva. A sua poesia explora temas como a memória, o tempo, a identidade e a relação do indivíduo com o mundo, com uma linguagem cuidada e uma sensibilidade apurada. É uma voz relevante na poesia portuguesa atual, com uma obra que se destaca pela profundidade e pela originalidade.

n. 1957-01-01, Montevidéu

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Colheita de 98

Comprei ontem no supermercado
uma garrafa de maduro tinto do Ribatejo.
Se o rótulo não mente, estou perante
um vinho de cor granada, um corpo excelente,
sabor e aroma muito acentuados,
com alguma evolução e persistência.


Talvez não seja o Bem, a Beleza, a Verdade,
mas é melhor do que a minha vida incorpórea,
caprichosa, sem evolução,
de cor avinagrada e aroma nenhum.


Além disso é garantido por testes laboratoriais,
enquanto eu - quem me garante o quê?
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Biografia

Identificação e contexto básico

José Miguel Silva é um poeta português contemporâneo. Nasceu em Lisboa e viveu grande parte da sua vida dedicada à escrita e à atividade literária. A sua obra tem sido reconhecida pela sua qualidade e profundidade lírica.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação de José Miguel Silva são limitadas, mas o seu percurso literário sugere uma forte inclinação para as artes e para a leitura desde cedo. O seu contacto com a literatura, filosofia e outras artes terá moldado a sua sensibilidade e a sua visão de mundo.

Percurso literário

José Miguel Silva iniciou a sua atividade poética em meados do século XX, publicando poemas em diversas revistas literárias. Ao longo do tempo, consolidou a sua voz poética, publicando vários livros que foram recebidos com apreço pela crítica. A sua obra evoluiu de forma contínua, mantendo sempre uma coerência temática e estilística.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de José Miguel Silva caracteriza-se pela exploração de temas como a memória, o tempo, a efemeridade da existência, a identidade e a relação do ser humano com a natureza e o cosmos. A sua linguagem é marcada pela precisão, pela musicalidade e por uma forte carga imagética. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com uma estrutura interna cuidada, conferindo aos seus poemas uma cadência própria. O tom poético é geralmente introspectivo, melancólico e reflexivo, mas sem cair no sentimentalismo. O seu estilo é reconhecido pela densidade poética e pela capacidade de evocar sensações e reflexões profundas no leitor. É associado a uma corrente da poesia portuguesa contemporânea que valoriza a introspeção e a elaboração formal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico José Miguel Silva insere-se no panorama da poesia portuguesa contemporânea, dialogando com as experiências e as transformações culturais e sociais do século XX e XXI. A sua obra reflete, de forma subtil, as inquietações existenciais e filosóficas do homem moderno, marcadas pela complexidade do mundo contemporâneo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de José Miguel Silva são escassos na esfera pública, o que reforça a ideia de um autor focado na sua obra e na sua interioridade. A sua discrição contribui para a aura de mistério e profundidade que envolve a sua figura.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de José Miguel Silva tem vindo a ganhar reconhecimento junto da crítica especializada e de um público leitor atento à poesia contemporânea. As suas publicações têm sido objeto de resenhas elogiosas e a sua poesia é frequentemente destacada pela sua originalidade e maturidade artística.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora as influências diretas de José Miguel Silva não sejam explicitamente detalhadas, a sua poesia demonstra um conhecimento profundo da tradição poética, tanto portuguesa como universal. O seu legado reside na sua capacidade de criar uma obra lírica de grande sensibilidade e rigor, que contribui para a riqueza da poesia portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de José Miguel Silva convida a uma leitura atenta e contemplativa, incentivando a reflexão sobre as grandes questões da existência. As suas explorações sobre a memória e o tempo, em particular, oferecem perspetivas profundas sobre a natureza da experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Dado o caráter reservado do autor, poucos aspetos curiosos sobre a sua vida são amplamente divulgados. A sua dedicação à poesia e a discrição com que a exerce são, em si, características marcantes.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória José Miguel Silva encontra-se vivo, continuando a sua obra e a sua presença no panorama literário português.

Poemas

44

Não sei se são os trinta anos

Não sei o que se passa comigo:
cada vez me assusta mais a solidão.
Aos vinte anos, aos vinte e cinco,
figurava o paraíso como um quarto vazio,
onde o silêncio de um livro ressoava
pela noite dentro. Protegia dos amigos
minhas horas, dos irmãos, dos apelos
do telefone. Como um cego de nascença,
estudava a escuridão. Sonhava-me
recluso numa ilha de fragais, rodeado
de trincheiras, distante de pracetas,
acenos, convites para jantar:
O lamento era o meu hobby preferido.

Não sei se são os trinta anos, a chuva,
o sabor de mais um dia derrubado
nos transportes colectivos,
A queda maligna das primeiras folhas;
não sei o que é, talvez o teu amor
comece, pouco a pouco, a civilizar-me.
Agora, se chego a casa e tu não estás,
corro a pôr música, abro janelas,
agarro-me ao telefone, como um náufrago,
incapaz de suportar por um segundo
o terror emboscado debaixo da cama,
atrás das estantes, dentro de mim.
1 384

O Grande Circo de Montekarl

Não gosto especialmente de circo, mas como não há
mais nada e uma pessoa tem de se entreter com alguma
coisa, cá vim. Confesso que me atraiu sobretudo o número
da Grande Conflagração do Capitalismo, anunciado
em letras vermelhas no cartaz. A questão que se põe é:
a que horas começa? Pergunto, ninguém sabe.

Francamente, isto nem parece uma produção americana.
Estamos aqui de pé há sei lá quantas horas e nada sai
do ramerrão: entram palhaços, saem palhaços, uns mais
ricos, outros menos, mas todos iguais, todos sem graça.
Já nem os posso ver. E domadores de caniches,
burricos, cantilenas de latão. Isto põe-me doente.

Agora são os comedores de fogo. Que seca do caralho.
Só nos falta um mágico - pronto, para que é que eu falei.
Mais valia ter ficado em casa. Mas a culpa é minha -
bilhetes tão baratos, devia ter desconfiado. Podia tentar sair,
mas como, se nem consigo ver a porta? E sair para onde?
Para o frio da noite? Estamos bem fodidos.
1 055

Os melhores anos da minha vida

Os melhores anos da minha vida
passaram comigo ausente, passaram
numa corrente subterrânea.
Não me apercebi de nada, distraído
com a queda das folhas,
a densa mistura de pão e desordem.

Estava tudo em aberto, mas eu não sabia
senão de pequenas querelas,
e tímidos passos à toa, sempre à espera
de não ter futuro. Sentado, como um pobre,
sobre o poço de petróleo,
eu media com tesouras as semanas,
misturava-me com livros, ansiava
pelo dia em que deixasse de sangrar.

Os melhores anos da minha vida
troquei-os por isto.
1 419

Uffizi

Que faz um céptico hedonista e quezilento
no país da arte sacra? Como pode
libertar-se da noção de que estes jogos
de volumes, estes planos vivamente
coloridos, representam tudo aquilo em
que não crê: o fanatismo, a videiterna,
o sacrifício do corpo? Deambula
pelas salas como um cão esfomeado
por um campo de tremoço, sem achar
em tão exótica e senil mitologia
firme carne onde ferrar o pensamento.
Irritado, estuga o passo, cada vez
mais insensível à seráfica beleza
das madonas parideiras, de sorriso
complacente, ao intérmino desfile
de agonias, ascensões e pietás,
procurando avidamente as belas damas
de Bronzino, as doces Vénus ou até
o rosto duro (mas humano, pelo menos)
de burgueses, mercenários e fidalgos:
emissários do real, da violência
do desejo deturpado em senhorio.
À saída é contemplado pelo ébrio
sorriso dum velhaco sem futuro,
p'lo olhar esfomeado duma Maggie
de cem quilos, por dois cacos à procura
duma cola essencial. E promete
a São Vermeer cometer a breve trecho
expiatória romagem ao terreno,
liberal e nivelado mundo novo
da pintura de seiscentos holandesa.
1 179

Fogo-Fátuo — Louis Malle (1963)

Se cada um fizesse a sua parte, o mundo seria
um lugar perfeito: a despovoada alegria
dos montes, as ruas esmaltadas de verdura,
os séculos sem rumo nem História.

Utopia menos dúbia não conheço do que esta.
E era tão simples: bastava que cada um
abdicasse um pouco do nó cego
a que chamamos eu, dessa falsa confiança,

uma vida a conta-gotas. Bastava
um tiro certeiro, um nó corredio, um saco
de plástico a fechar no pescoço. Mas não,
deixemo-nos de sonhos revolucionários:

a paz na Terra só virá por acidente
(vascular-cerebral, ao volante, o que for).
Somos todos egoístas, frívolos, vivos,
incapazes de um gesto despoluidor.

Eu próprio, que devia dar o exemplo
estou sentado na cozinha a tentar decidir-me
entre pão com manteiga e bolachas de centeio,
enquanto a chaleira, no fogão, assobia para o ar.
1 358

No Way Back

"Como sair daqui?" Perguntas bem, amigo.
Diógenes diria "à catanada, vivamente",
Lichtenberg "à gargalhada", se o conheço.
Thomas Bernhard proporia "num rectângulo
de tábuas" e Machado que o caminho de saída
se descobre ao caminhar. Beckett é provável
que dissesse "rastejando".
Diderot aventaria
"pela rua do liceu", Tcheckov "pela viela
mais escura, à tua esquerda". Séneca diria,
muito sonso, "pelo passeio das Virtudes",
Vaneigem "pelo jardim das Belas-Artes".
Bashô responderia (e eu com ele) "é muito cedo,
fica mais um pouco, ainda há vinho na garrafa".
1 392

Onze

Alguém, por exemplo, descuidou a beleza,
cresceu demasiado, não atou as sapatilhas.
Assim se constitui o perfeito cenário
para uma infância de subtracções.
É fechado numa caixa, recebe a desfeita
do seu socorro, sofre as mais cruéis comparações.
Minado por peguilhas, volta-se para Jesus.
Jesus diz-lhe: não te fiques, fode-lhe as trombas.
Mas a vítima não sabe karaté, não sabe
onde lhe dói. Vai ter que ser diferente, que aprender,
de costas para a luz, a arte de fintar o agressor.
Pode ser que tenha sorte.
1 409

Não é tarde

O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.

Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.

Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão de que a vida

não se esgota, como os saldos de Verão.
E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.
1 238

8 MM — Joel Schumacher (1998)

Só o mal pode vencer o mal, pois o bem não tem
poder; tem apenas compaixão, fadiga e compaixão.
É por isso que um polícia não consegue
manter limpos os sapatos. E quando chega a casa
nenhum filho o felicita. Ouve da mulher:
«Patife - a carpete! - estragaste a minha vida!»
Não sei se a culpa é minha ou de ninguém,
mas romperam-se as comportas e a lama
corre livre na cidade do homem.
Quem tem asas pode talvez salvar-se;
mas quem for sozinho, que vontade de morrer.
1 243

O Atalante - Jean Vigo (1934)

No dia em que fomos ver O Atalante
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
Sou tão estúpido.
1 466

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