José Miguel Silva

José Miguel Silva

n. 1957 PT PT

José Miguel Silva é um poeta português contemporâneo, conhecido pela sua obra lírica e reflexiva. A sua poesia explora temas como a memória, o tempo, a identidade e a relação do indivíduo com o mundo, com uma linguagem cuidada e uma sensibilidade apurada. É uma voz relevante na poesia portuguesa atual, com uma obra que se destaca pela profundidade e pela originalidade.

n. 1957-01-01, Montevidéu

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Ladrões de Bicicletas — Vittorio de Sica (1948)

Mil quilómetros por dia pedalava meu pai, desde
a cama junto ao Douro até à próspera Cerâmica
de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta inimigos por hora,
imaginem a jornada de um operário ciclista.
Tudo são despesas para ele: o rosário de geada
nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor
da Primavera, a poalha do suor em cada mão.

Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto
de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos
de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho
em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,
erguido nos pedais do seu veículo de sombra,
solitário trepador pela encosta de Avintes. Não
trabalha em nenhum matadouro. E nesse reconforto
passa à Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,
sente já o rumor de fumacentos camiões na nacional,
onde tudo, depois, será muito mais plano.
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Biografia

Identificação e contexto básico

José Miguel Silva é um poeta português contemporâneo. Nasceu em Lisboa e viveu grande parte da sua vida dedicada à escrita e à atividade literária. A sua obra tem sido reconhecida pela sua qualidade e profundidade lírica.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação de José Miguel Silva são limitadas, mas o seu percurso literário sugere uma forte inclinação para as artes e para a leitura desde cedo. O seu contacto com a literatura, filosofia e outras artes terá moldado a sua sensibilidade e a sua visão de mundo.

Percurso literário

José Miguel Silva iniciou a sua atividade poética em meados do século XX, publicando poemas em diversas revistas literárias. Ao longo do tempo, consolidou a sua voz poética, publicando vários livros que foram recebidos com apreço pela crítica. A sua obra evoluiu de forma contínua, mantendo sempre uma coerência temática e estilística.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de José Miguel Silva caracteriza-se pela exploração de temas como a memória, o tempo, a efemeridade da existência, a identidade e a relação do ser humano com a natureza e o cosmos. A sua linguagem é marcada pela precisão, pela musicalidade e por uma forte carga imagética. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com uma estrutura interna cuidada, conferindo aos seus poemas uma cadência própria. O tom poético é geralmente introspectivo, melancólico e reflexivo, mas sem cair no sentimentalismo. O seu estilo é reconhecido pela densidade poética e pela capacidade de evocar sensações e reflexões profundas no leitor. É associado a uma corrente da poesia portuguesa contemporânea que valoriza a introspeção e a elaboração formal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico José Miguel Silva insere-se no panorama da poesia portuguesa contemporânea, dialogando com as experiências e as transformações culturais e sociais do século XX e XXI. A sua obra reflete, de forma subtil, as inquietações existenciais e filosóficas do homem moderno, marcadas pela complexidade do mundo contemporâneo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de José Miguel Silva são escassos na esfera pública, o que reforça a ideia de um autor focado na sua obra e na sua interioridade. A sua discrição contribui para a aura de mistério e profundidade que envolve a sua figura.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de José Miguel Silva tem vindo a ganhar reconhecimento junto da crítica especializada e de um público leitor atento à poesia contemporânea. As suas publicações têm sido objeto de resenhas elogiosas e a sua poesia é frequentemente destacada pela sua originalidade e maturidade artística.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora as influências diretas de José Miguel Silva não sejam explicitamente detalhadas, a sua poesia demonstra um conhecimento profundo da tradição poética, tanto portuguesa como universal. O seu legado reside na sua capacidade de criar uma obra lírica de grande sensibilidade e rigor, que contribui para a riqueza da poesia portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de José Miguel Silva convida a uma leitura atenta e contemplativa, incentivando a reflexão sobre as grandes questões da existência. As suas explorações sobre a memória e o tempo, em particular, oferecem perspetivas profundas sobre a natureza da experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Dado o caráter reservado do autor, poucos aspetos curiosos sobre a sua vida são amplamente divulgados. A sua dedicação à poesia e a discrição com que a exerce são, em si, características marcantes.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória José Miguel Silva encontra-se vivo, continuando a sua obra e a sua presença no panorama literário português.

Poemas

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Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)

Um ser humano é um combinado de egoísmo,
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.
1 769

San Miniato Al Monte

Em San Miniato caminhamos sobre mortos,
epitáfios, tristes portas a que batemos, sem
saber, com um descuido de volúveis, ociosos
tacões, enquanto farejamos, de nariz no ar,
a gostosa patranha da Ressurreição. Como se
não estivesse em nossas mãos, em nossos olhos,
operar o milagre possível: ceder uma fatia
do nosso juízo a estes apelos que de baixo
nos lançam os desapossados, os que já nada
têm a perder excepto o olhar de quem passa.
A esmola duma pausa para articular o nome
de Luigi Nardi, Angela Ferraresi, Anunzziata
de Fabris, Alamanno Biagi, Teresa Puggi...
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Salão de beleza (2ª impressão)

Dorida visão esta pobre velha
à saída do salão de beleza.
Apesar dos muitos e pesados passos
que deixou na terra, do lastro insuportável
de seus anos movediços,
ainda encontra forças para arrastar a alma
até ao reverso de um espelho e desenhar,
de memória, o sanguíneo traço dos lábios,
armar o cabelo para mais uma ilusão.
Admirável a tenacidade das ervas
que à enxurrada opõem a verdura de um grito
e resistem à lição de Marco Aurélio,
ao prolongado cerco da realidade.
Admiráveis porque vestem de gala
para mais uma dança, já solitária,
num baile de fantasmas, todo mental,
sem dar crédito à melancolia nem ouvidos
ao tirânico juízo da crua, da falsa
da estúpida carreta fúnebre.
546

Iniciação

Entre pedras afiadas,
a janela por abrir.
Alguém o acompanha

nos recados da manhã:
sal 12 pães 1 kg de maçãs
fósforos canela.

Ao sair da mercearia,
roubaram-lhe os pedais da bicicleta,
a roda de orações.

Mãe, quis saber,
quem tomou conta de mim
quando eras pequenina?
1 313

Resposta possível à pergunta anterior

Os amigos, a família mais próxima,
esta língua que nos coube, a timidez
alcandorada em cerimónia, o SG,
o vinho bom, a francesinha, os varandins
da burguesia duriense, o Alentejo,
a tradição arquitectónica da pedra,
da modéstia, do adobe, a cortesia
de ser pobre. A quietude remissiva
dos lugares frequentados p'la renúncia.
1 302

Estela Funerária

Era um rapaz sem vocação para o caminho,
um arco sem arqueiro.
Chama-se Elpenor.

Mais do que a palavra preocupava-o a lama
na sandália do poeta,
a mancha no tapete.

Movia-o a coragem de estar só,
divisão dos que celebram
o massacre da esperança.

Caiu a sua casa, vendeu as suas veias,
partiu para o desastre,
chegou à nossa frente.
1 068

Centro Comercial

Irrompem no elevador. São quatro,
fogem de um, fecham-lhe a porta,
riem-se juntos. O outro, eixo moído,
embate na vida, força a entrada,
acaba no chão: eu não sei o caminho
de casa! De nada lhe serve chamar
as Erínias, largam a trote os netos
de Zeus, o vinho da força responde
por eles, esconde de todos a destruição.

E eu, o que faço? Não faço nada.
Um pouco mais velho, um pouco
mais sonso, tal como vós,
escolho o caminho da loja seguinte.
1 372

Too big to fail

Como pode um investimento tão fiável
garantir este rendimento crescente, numa
diária distribuição de beijos e outras mais-
valias, ainda por cima livres de impostos?

Embora confiasse na tua competência
para criar valor, confesso que não esperava
tanto quando decidi aplicar nos teus títulos
sensíveis os meus parcos activos emocionais.

O mais estranho no mundo actual, é ser este
um negócio sem perdedores, aparentemente
imune ao nervosismo das tuas acções
ou às flutuações do meu comércio libidinal.

O meu único receio é que despertemos
a inveja dos deuses, no Olimpo de Bruxelas,
e que Mercado, o monstruoso titã, decida
baixar para lixo o "rating" da nossa relação,

deixando-nos sem crédito na praça romanesca
e em "default" o coração. Mas não sejamos
pessimistas. Aliás, ambos sabemos que Cupido
nos ampara com sua mão invisível. E mesmo

que entrássemos ambos em depressão, tenho
a certeza de que o Estado português nos daria
todo o apoio, concordando que um amor como
este é simplesmente demasiado grande para falir.
1 306

Catorze

A alma dum rapaz é naturalmente
fascista. Não se deixa levar
pelo brado da justiça. Conhece bem
as pedras e a força que as anima.
Sabe a que distância um insulto fere bem.
Não precisa de estudar o ADN, a lei
do mais feroz. Esmurra quem lhe foge,
conjuga sempre os verbos no presente,
acende numa sarça o cigarro inicial.
1 048

8 MM — Joel Schumacher (1998)

Só o mal pode vencer o mal, pois o bem não tem
poder; tem apenas compaixão, fadiga e compaixão.
É por isso que um polícia não consegue
manter limpos os sapatos. E quando chega a casa
nenhum filho o felicita. Ouve da mulher:
«Patife - a carpete! - estragaste a minha vida!»
Não sei se a culpa é minha ou de ninguém,
mas romperam-se as comportas e a lama
corre livre na cidade do homem.
Quem tem asas pode talvez salvar-se;
mas quem for sozinho, que vontade de morrer.
1 234

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