José Miguel Silva

José Miguel Silva

n. 1957 PT PT

José Miguel Silva é um poeta português contemporâneo, conhecido pela sua obra lírica e reflexiva. A sua poesia explora temas como a memória, o tempo, a identidade e a relação do indivíduo com o mundo, com uma linguagem cuidada e uma sensibilidade apurada. É uma voz relevante na poesia portuguesa atual, com uma obra que se destaca pela profundidade e pela originalidade.

n. 1957-01-01, Montevidéu

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O Ódio — Mathieu Kassowitz (1995)

Os adolescentes armados da Libéria e da Serra Leoa
não sabem quem lhes pôs um gatilho na vida.
Eu faço uma ideia, mas não digo nada. Prefiro
comprar em DVD O Bom, O Mau e o Vilão.

As mortes de urânio enriquecido que disparamos
na Sérvia são fabricadas pela Boeing e pela General
Motors. Mas eu gosto de ir a Londres, a Paris,
a Nova Iorque, e o meu automóvel é bastante fiável.

É verdade que não voto no bloco liberal, mas
nem por isso sou menos culpado pelo íntimo
holocausto dos vitelos sociais. Basta ver
as sapatilhas que ofereci ao meu sobrinho no Natal

Não fui eu que negociei com o régulo o despejo
de resíduos tóxicos no mar da Somália, é verdade.
No entanto, tenho luz em casa, água quente, combustível...
e sexta-feira à tarde lá vou eu com a Joana para o Alto Douro.

O sofrimento dos outros, enfim, é relativo. Não vale a pena,
só por isso, interromper o sol. A mim, pessoalmente,
nada me dói: tenho para livros, discos, preservativos,
e a vida que levo convém-me lindamente. Aprecio sobretudo,

e cada vez mais, as quietas florações da vida interior,
a doméstica lida. Mas não vou dizer que não sei onde fica
a Chechénia ou o Bairro do Cerco. Nisto sou como tu,
leitor: custa-me ver, de manhã, o meu sorriso ao espelho.
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Biografia

Identificação e contexto básico

José Miguel Silva é um poeta português contemporâneo. Nasceu em Lisboa e viveu grande parte da sua vida dedicada à escrita e à atividade literária. A sua obra tem sido reconhecida pela sua qualidade e profundidade lírica.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação de José Miguel Silva são limitadas, mas o seu percurso literário sugere uma forte inclinação para as artes e para a leitura desde cedo. O seu contacto com a literatura, filosofia e outras artes terá moldado a sua sensibilidade e a sua visão de mundo.

Percurso literário

José Miguel Silva iniciou a sua atividade poética em meados do século XX, publicando poemas em diversas revistas literárias. Ao longo do tempo, consolidou a sua voz poética, publicando vários livros que foram recebidos com apreço pela crítica. A sua obra evoluiu de forma contínua, mantendo sempre uma coerência temática e estilística.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de José Miguel Silva caracteriza-se pela exploração de temas como a memória, o tempo, a efemeridade da existência, a identidade e a relação do ser humano com a natureza e o cosmos. A sua linguagem é marcada pela precisão, pela musicalidade e por uma forte carga imagética. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com uma estrutura interna cuidada, conferindo aos seus poemas uma cadência própria. O tom poético é geralmente introspectivo, melancólico e reflexivo, mas sem cair no sentimentalismo. O seu estilo é reconhecido pela densidade poética e pela capacidade de evocar sensações e reflexões profundas no leitor. É associado a uma corrente da poesia portuguesa contemporânea que valoriza a introspeção e a elaboração formal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico José Miguel Silva insere-se no panorama da poesia portuguesa contemporânea, dialogando com as experiências e as transformações culturais e sociais do século XX e XXI. A sua obra reflete, de forma subtil, as inquietações existenciais e filosóficas do homem moderno, marcadas pela complexidade do mundo contemporâneo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de José Miguel Silva são escassos na esfera pública, o que reforça a ideia de um autor focado na sua obra e na sua interioridade. A sua discrição contribui para a aura de mistério e profundidade que envolve a sua figura.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de José Miguel Silva tem vindo a ganhar reconhecimento junto da crítica especializada e de um público leitor atento à poesia contemporânea. As suas publicações têm sido objeto de resenhas elogiosas e a sua poesia é frequentemente destacada pela sua originalidade e maturidade artística.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora as influências diretas de José Miguel Silva não sejam explicitamente detalhadas, a sua poesia demonstra um conhecimento profundo da tradição poética, tanto portuguesa como universal. O seu legado reside na sua capacidade de criar uma obra lírica de grande sensibilidade e rigor, que contribui para a riqueza da poesia portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de José Miguel Silva convida a uma leitura atenta e contemplativa, incentivando a reflexão sobre as grandes questões da existência. As suas explorações sobre a memória e o tempo, em particular, oferecem perspetivas profundas sobre a natureza da experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Dado o caráter reservado do autor, poucos aspetos curiosos sobre a sua vida são amplamente divulgados. A sua dedicação à poesia e a discrição com que a exerce são, em si, características marcantes.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória José Miguel Silva encontra-se vivo, continuando a sua obra e a sua presença no panorama literário português.

Poemas

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Pedras e Morteiros

"Todos os poetas são judeus"
M.Tsvietaieva

Essa dos poetas, Senhora, com vocação
para apanhar no pelo, tem quase tanta graça
como a outra, de chamar vítimas às vítimas
oficiais do século XX. Como se a história
fosse um prato congelado e a moral
o restaurante onde se come mais barato.

Entretanto, nós somos acusados de atirar pedras.
Mas vede, Senhora, não são pedras, é o que resta
das nossas casas, abatidas por Golias.
Na mão que lhe estendemos deixou-nos esta funda.
Que mais podemos nós, senão utilizá-la?

Razão tem a pedra na conhecida fábula
da Pedra no Sapato quando diz:
todas as pedras são palestinianas.
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Iniciação

Entre pedras afiadas,
a janela por abrir.
Alguém o acompanha

nos recados da manhã:
sal 12 pães 1 kg de maçãs
fósforos canela.

Ao sair da mercearia,
roubaram-lhe os pedais da bicicleta,
a roda de orações.

Mãe, quis saber,
quem tomou conta de mim
quando eras pequenina?
1 325

San Miniato Al Monte

Em San Miniato caminhamos sobre mortos,
epitáfios, tristes portas a que batemos, sem
saber, com um descuido de volúveis, ociosos
tacões, enquanto farejamos, de nariz no ar,
a gostosa patranha da Ressurreição. Como se
não estivesse em nossas mãos, em nossos olhos,
operar o milagre possível: ceder uma fatia
do nosso juízo a estes apelos que de baixo
nos lançam os desapossados, os que já nada
têm a perder excepto o olhar de quem passa.
A esmola duma pausa para articular o nome
de Luigi Nardi, Angela Ferraresi, Anunzziata
de Fabris, Alamanno Biagi, Teresa Puggi...
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Ritos

De cada vez que regresso
Ao meu país
depois de uma longa viagem
O primeiro que faço
É perguntar pelos que morreram:
Qualquer homem é um herói
Pelo simples facto de morrer
E os heróis são os nossos mestres.

E em segundo lugar
pelos feridos.

Só depois
não antes de cumprir

Este pequeno rito funerário
Me considero com direito à vida:

Fecho os olhos para ver melhor
E canto com rancor
Uma canção de começos de século.
1 404

5

Há quem olhe para as coisas e veja formas,
cores, colmeias de melífluo sentido.
Eu nunca vi senão prefácios à destruição.
Nas linhas dum rosto via medo farpado,
na curva dum ombro, o peso que suporta.
Encarava com descrença o sorriso das praças,
na cabeça dum menino lia o mapa do inferno
e no amor o combustível da ganância.
Não sei como foi, eu nunca soube fechar
os olhos e dormir como os demais.
E se olhava para dentro de mim, era ainda
pior: uma paisagem abjecta entre colunas
de mercúrio, de enxofre, de metais pesados
como a consciência. Fui, em suma, um triste,
um homem estacado na fronteira entre
verdade e pânico, e desconfiado, sempre,
de qualquer ideia de consolação. Retirado,
no final, para um respiro de montanha,
esforcei-me por manter a ilusão de ser
o último elo na cadeia antropológica,
o nec plus ultra da insanidade.
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Os melhores anos da minha vida

Os melhores anos da minha vida
passaram comigo ausente, passaram
numa corrente subterrânea.
Não me apercebi de nada, distraído
com a queda das folhas,
a densa mistura de pão e desordem.

Estava tudo em aberto, mas eu não sabia
senão de pequenas querelas,
e tímidos passos à toa, sempre à espera
de não ter futuro. Sentado, como um pobre,
sobre o poço de petróleo,
eu media com tesouras as semanas,
misturava-me com livros, ansiava
pelo dia em que deixasse de sangrar.

Os melhores anos da minha vida
troquei-os por isto.
1 424

Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)

Um ser humano é um combinado de egoísmo,
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.
1 778

O Atalante - Jean Vigo (1934)

No dia em que fomos ver O Atalante
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
Sou tão estúpido.
1 467

Penélope escreve

É mais que certo: não sinto a tua falta.
Fiquei a tarde toda a arrumar os teus papéis,
a reler as cinco cartas que me foste endereçando
na semana que perdemos: tu no Alentejo,
eu debaixo de água. Fui depois regar as rosas
que deixaste no quintal. Sempre só e sem
carpir o meu estado (porque não me fazes falta),
pus o disco da Chavela que me deste no Natal
e comecei a preparar o teu prato preferido.
Cozinhar fez-me perder o apetite; por isso
abri uma garrafa de maduro e não me custa
confessar-te que não sinto a tua falta.
Por volta das dez horas, obriguei-me a recusar
dois convites pra sair (aleguei androfobia)
e estou neste momento a recortar a tua imagem
(não me fazes falta) nas fotos que possuo de nós dois,
de maneira a castigar com o cesto dos papéis
a inábil idiota que deixou que tu te fosses.
1 480

Parte Poética

Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.

E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.
1 754

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