Lista de Poemas

Em cem anos, tudo estará esquecido

Reviro-me insone por noites a fio,
qual náufrago num barco adernando,
e tudo por que tanto tenho sofrido
ao fim sempre vem dar em pranto.
Mas por que sofrer tanto?
Em cem anos, tudo estará esquecido.

Num sobressalto me vejo cantando
personagem da própria labuta.
Comungo com Deus qual gigante desperto
e a mesa com o diabo divido.
Por que, afinal, tamanha disputa?
Em cem anos, tudo estará esquecido.

Eis que então cessa enfim o conflito
e de alma enlevada ao mar eu me faço.
Nas vagas amargas me lanço
e assisto a meu mundo ser engolido.
Por que preferir um tal ranço?
Em cem anos, tudo estará esquecido.

Oh, não, antes flanar pela vida,
lançar um livro a cada Natal,
ombrear-se com os grandes poetas
e morrer como um lorde das letras.
É isto então que me faz decidido:
Em cem anos, tudo estará esquecido.

Trad.: Leonardo Pinto Silva

Knut Hamsun – Om Hundrede År Er Alting Glemt

Jeg driver i aften og tænker og strider,
jeg synes jeg er som en kantret båt,
og alt hvad jeg jamrer og alt hvad jeg lider
det ender vel gjerne med gråt.
Men hvi skal jeg være så hårdt beklemt?
Om hundrede år er alting glemt.

Da hopper jeg heller og synger en vise
og holder mit liv for en skjøn roman.
Jeg æter ved Gud som en fuldvoksen rise
og drikker som bare fan.
Men hvi skal jeg fare med al den skjæmt?
Om hundrede år er alting glemt.

Så stanser jeg virkelig heller striden
og ganger til sjøs med min pinte sjæl.
Der finder nok verden mig engang siden
så bitterlig druknet ihjæl.
Men hvi skal jeg ende så altfor slemt?
Om hundrede år er alting glemt.

Å nei, det er bedre at rusle og leve
og skrive en bok til hver kommende jul
og stige tilslut til en versets greve
og dø som en romanens mogul.
Da er det nu dette som gjør mig forstemt:
Om hundrede år er alting glemt.
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Identificação e contexto básico

Knut Hamsun, nascido Knud Pedersen, foi um dos mais importantes e influentes escritores noruegueses do final do século XIX e início do século XX. Adotou o pseudónimo Hamsun, nome de uma aldeia onde passou parte da sua infância. Nasceu em Vågå, Noruega, em 4 de agosto de 1859, e faleceu em Nørholm, Noruega, em 19 de fevereiro de 1952. Originário de uma família de agricultores com dificuldades económicas, a sua classe social de origem e o contexto cultural rural moldaram profundamente a sua visão de mundo e a sua obra. Hamsun foi cidadão norueguês e escreveu predominantemente em norueguês.

Infância e formação

A infância de Hamsun foi marcada pela pobreza e por um ambiente familiar rigoroso. Criado numa quinta isolada em Hamarøy, no norte da Noruega, frequentou poucas escolas formais e foi em grande parte autodidata. As suas leituras iniciais incluíam a Bíblia, contos populares e literatura romântica. A sua formação foi também influenciada por leituras de filósofos como Schopenhauer e Nietzsche, e pelas ideias de Rousseau sobre o estado natural. Eventos marcantes na sua juventude incluem a sua saída de casa aos 17 anos e as suas primeiras experiências de trabalho precário e viagens.

Percurso literário

Hamsun começou a escrever cedo, mas o seu reconhecimento literário veio mais tarde. O seu percurso literário pode ser dividido em várias fases, notando-se uma evolução do romantismo para um realismo psicológico e, posteriormente, para uma abordagem mais existencial e crítica. A publicação de "Fome" (Sult) em 1890 marcou o seu grande avanço. Colaborou em diversas publicações e antologias. Foi também crítico literário e teatral, e dedicou-se à tradução.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Hamsun incluem "Fome" (1890), "Misterios" (1892), "Pan" (1894), "Victoria" (1898), "Beneath the Autumn Star" (1906), "A Wanderer Plays a Muted String" (1909) e "The Road Leads On" (1910). Temas dominantes na sua obra são a solidão, a alienação, a pobreza, a loucura, a decadência, a relação do homem com a natureza e a crítica à sociedade moderna. O seu estilo é marcado pela experimentação formal, especialmente o uso do fluxo de consciência, permitindo um acesso direto aos pensamentos e sentimentos das suas personagens. Utiliza uma linguagem vívida e imagética, com um tom frequentemente lírico, melancólico e por vezes irónico. Hamsun é considerado um precursor do modernismo literário e influenciou profundamente escritores como James Joyce, Ernest Hemingway e Franz Kafka.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Hamsun viveu numa época de grandes transformações na Europa, incluindo o declínio do romantismo e o surgimento de novas correntes como o naturalismo e o simbolismo, que ele, por sua vez, ajudou a transcender. As suas obras refletem as tensões sociais e culturais da Noruega em transição para a modernidade. Embora inicialmente crítico do materialismo e da industrialização, as suas posições políticas tornaram-se mais complexas e controversas nas décadas de 1930 e 1940, quando expressou simpatia pelo regime nazi, um facto que manchou o seu legado.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Hamsun casou duas vezes. A sua primeira esposa foi Bergljot Bech, com quem teve uma filha. Mais tarde, casou-se com Marie Andersen, com quem teve quatro filhos. As suas relações familiares e pessoais foram complexas e, por vezes, conflituosas. Foi um homem de temperamento forte e apaixonado, o que se refletia nas suas interações e também na sua obra. Profissionalmente, viveu da sua escrita e de outras atividades literárias. As suas crenças filosóficas, influenciadas por Nietzsche, evoluíram ao longo da vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Knut Hamsun recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1920 "pela sua monumental obra "Growth of the Soil"". Foi amplamente reconhecido na Noruega e internacionalmente como um dos grandes inovadores da prosa moderna. No entanto, a sua reputação sofreu um abalo significativo devido às suas posições políticas pró-nazis durante a Segunda Guerra Mundial, o que levou a um julgamento e a uma multa após a guerra. O reconhecimento académico da sua obra hoje coexiste com o debate sobre o seu alinhamento político.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Hamsun foi influenciado por autores como Dostoievski, Strindberg e Poe. O seu legado é imenso, tendo influenciado gerações de escritores modernistas e pós-modernistas em todo o mundo com a sua técnica narrativa e a sua profunda exploração psicológica. Entrou firmemente no cânone literário mundial. A sua obra continua a ser traduzida e estudada, embora a sua figura permaneça objeto de debate crítico devido às suas controvérsias políticas.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Hamsun é frequentemente analisada sob a perspetiva da psicologia e da filosofia existencial. As suas personagens, muitas vezes em conflito com a sociedade e consigo mesmas, oferecem um campo fértil para a interpretação sobre temas como a liberdade, o isolamento e a busca de identidade. O debate crítico sobre Hamsun centra-se frequentemente na complexa relação entre a sua genialidade literária e as suas visões políticas extremistas.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto curioso é a contradição entre a sua obra, que por vezes critica a sociedade e o progresso, e a sua posterior admiração por figuras autoritárias. Hamsun era conhecido por ser um agricultor apaixonado e pela sua vida rural em Nørholm, onde tentou criar uma vida isolada e autossuficiente. Os seus hábitos de escrita eram intensos, dedicando longos períodos à criação literária. Manuscritos e correspondência revelam a profundidade das suas reflexões e, por vezes, a sua personalidade volátil.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Knut Hamsun faleceu aos 92 anos, em Nørholm. Após a guerra, a sua reputação foi manchada pelas suas ligações políticas, mas a sua obra literária continuou a ser reconhecida pelo seu valor artístico e inovador. Publicações póstumas e estudos sobre a sua vida e obra continuam a surgir, procurando equilibrar a apreciação do seu génio literário com a crítica às suas escolhas políticas.