Lourenço

Lourenço

n. 1953 PT PT

Lourenço é um nome artístico que remete para a figura literária criada por Adolfo Luxúria Canibal. Este pseudónimo é utilizado para explorar uma faceta poética mais introspectiva e lírica, distinta do universo mais experimental e performativo dos UHF. A poesia de Lourenço aborda temas como o amor, a solidão, a cidade e as suas mazelas, com uma linguagem direta, mas carregada de sensibilidade.

n. 1953-01-01

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Muito Te Vejo, Lourenço, Queixar

- Muito te vejo, Lourenço, queixar
pola cevada e polo bever,
que to nom mando dar a teu prazer;
mais eu to quero fazer melhorar:
pois que t'agora citolar oí
e cantar, mando que to dem assi
bem como o tu sabes merecer.

- Joam Garcia, se vos en pesar
de que me queix[e] em vosso poder,
o melhor que podedes i fazer:
nom mi mandedes a cevada dar
mal, nen'o vinho, que mi nom dam i
tam bem com[o m']eu sempre mereci,
ca vos seria grave de fazer.

- Lourenço, a mim grave nom será
de te pagar tanto que mi quiser:
pois ante mi fezisti teu mester,
mui bem entendo e bem vejo já
como te pagu'; e logo o mandarei
pagar a [um] gram vilão que hei,
se um bom pao na mão tever.

- Joam Garcia, tal paga achará
em vós o jograr, quand'a vós veer,
mais outr'a quem [meu] mester fezer,
que m'en entenda, mui bem [mi] fará,
que panos ou algo merecerei;
e vossa paga ben'a leixarei
e pagad'[a] outro jograr qualquer.

- Pois, Lourenço, cala-t'e calar-m'-ei
e todavia tigo mi averrei,
e do meu filha quanto chi m'eu der.

- Joam Garcia, nom vos filharei
algo, e mui bem vos citolarei,
e conhosco mui bem [o] trobar.

- O chufar, Dom Lourenço, [o] chufar!
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Biografia

Identificação e contexto básico

Lourenço é o pseudónimo poético de Adolfo Luxúria Canibal, músico, poeta e escritor português, conhecido principalmente como vocalista da banda UHF. O nome Lourenço surge como uma entidade literária distinta, permitindo a exploração de uma vertente mais lírica e intimista da poesia, em contraste com a energia rock dos UHF. A sua escrita em português caracteriza-se pela crueza das imagens, pela observação atenta do quotidiano e pela exploração de temas universais como o amor, a morte, a cidade e a condição humana.

Infância e formação

Adolfo Luxúria Canibal nasceu em 1955. A sua formação e desenvolvimento pessoal ocorreram no contexto da ditadura salazarista e da transição para a democracia em Portugal. A sua juventude foi marcada pela efervescência cultural e política que antecedeu e seguiu o 25 de Abril de 1974. A leitura e a música foram desde cedo pilares importantes na sua formação, influenciando a sua sensibilidade e o seu desejo de expressão.

Percurso literário

O percurso literário de Lourenço, enquanto pseudónimo de Adolfo Luxúria Canibal, iniciou-se com a publicação de livros de poesia que foram gradualmente ganhando reconhecimento. A sua obra poética é uma extensão da sua visão artística, marcada pela força das palavras e pela capacidade de criar imagens vívidas. Para além da poesia, Adolfo Luxúria Canibal tem uma vasta obra escrita que inclui romances, contos e artigos de opinião, demonstrando a sua versatilidade como autor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Lourenço, explorada por Adolfo Luxúria Canibal, distingue-se pela sua linguagem crua e direta, mas simultaneamente lírica e carregada de emoção. Os temas centrais da sua poesia incluem o amor em todas as suas facetas, a melancolia urbana, a reflexão sobre o tempo e a mortalidade, e a observação das complexidades da vida quotidiana. Utiliza frequentemente o verso livre, privilegiando a espontaneidade e a expressividade. O seu estilo é marcado por uma forte componente imagética, com metáforas que ressoam no leitor, e por um tom que oscila entre o confessional e o universal. A voz poética de Lourenço é profundamente pessoal, mas alcança uma ressonância coletiva ao abordar sentimentos e experiências comuns.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Adolfo Luxúria Canibal emergiu na cena cultural portuguesa num período de grande efervescência pós-revolucionária. A sua obra poética, tal como a sua música com os UHF, reflete a inquietação e as transformações sociais e culturais de Portugal nas últimas décadas do século XX e início do século XXI. Está associado ao movimento do rock português, mas a sua poesia transcende essa categorização, dialogando com sensibilidades literárias diversas. A sua posição como figura pública e artista multifacetado permite-lhe ter uma visão privilegiada do contexto em que a sua obra se insere.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Adolfo Luxúria Canibal tem sido marcada pela sua dedicação às artes, tanto na música como na escrita. A sua experiência de vida, as suas relações e a sua visão do mundo refletem-se diretamente na sua obra poética, conferindo-lhe autenticidade e profundidade. A sua capacidade de observação e a sua sensibilidade para com as dores e alegrias humanas são elementos cruciais no seu processo criativo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Adolfo Luxúria Canibal, enquanto poeta, tem vindo a conquistar um lugar no panorama literário português. A sua obra poética, para além de ter uma forte base de fãs, tem sido reconhecida pela sua originalidade e pela força expressiva. A receção crítica tem destacado a sua capacidade de conectar-se com o público através de uma linguagem autêntica e de temas universais, conferindo-lhe um reconhecimento crescente no meio literário.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Adolfo Luxúria Canibal na poesia são diversas, mas a sua obra também tem um impacto notório em gerações mais novas de escritores e músicos. O seu legado reside na sua autenticidade e na sua capacidade de expressar a condição humana de forma visceral e honesta. A sua contribuição para a literatura portuguesa reside na ponte que estabelece entre a cultura popular, a música rock e a expressão poética mais formal, abrindo caminhos para novas formas de criação.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra poética de Lourenço é frequentemente interpretada como um espelho da alma urbana e das suas contradições. As suas explorações do amor e da solidão, da esperança e do desespero, oferecem um terreno fértil para a análise crítica. A densidade imagética e a crueza dos temas convidam a uma reflexão sobre a natureza humana e sobre os desafios da existência na sociedade contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além do seu trabalho com os UHF, Adolfo Luxúria Canibal tem mantido uma atividade literária prolífica e discreta. A dualidade entre a figura pública e enérgica dos UHF e o poeta Lourenço, mais introspectivo, é um dos aspetos mais fascinantes do seu percurso. Os seus hábitos de escrita e a forma como recolhe inspiração do quotidiano são elementos que revelam a sua profunda ligação com a realidade que o rodeia.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não aplicável no presente momento, pois o autor está vivo e a sua obra continua a ser produzida e a influenciar.

Poemas

17

Muito Te Vejo, Lourenço, Queixar

- Muito te vejo, Lourenço, queixar
pola cevada e polo bever,
que to nom mando dar a teu prazer;
mais eu to quero fazer melhorar:
pois que t'agora citolar oí
e cantar, mando que to dem assi
bem como o tu sabes merecer.

- Joam Garcia, se vos en pesar
de que me queix[e] em vosso poder,
o melhor que podedes i fazer:
nom mi mandedes a cevada dar
mal, nen'o vinho, que mi nom dam i
tam bem com[o m']eu sempre mereci,
ca vos seria grave de fazer.

- Lourenço, a mim grave nom será
de te pagar tanto que mi quiser:
pois ante mi fezisti teu mester,
mui bem entendo e bem vejo já
como te pagu'; e logo o mandarei
pagar a [um] gram vilão que hei,
se um bom pao na mão tever.

- Joam Garcia, tal paga achará
em vós o jograr, quand'a vós veer,
mais outr'a quem [meu] mester fezer,
que m'en entenda, mui bem [mi] fará,
que panos ou algo merecerei;
e vossa paga ben'a leixarei
e pagad'[a] outro jograr qualquer.

- Pois, Lourenço, cala-t'e calar-m'-ei
e todavia tigo mi averrei,
e do meu filha quanto chi m'eu der.

- Joam Garcia, nom vos filharei
algo, e mui bem vos citolarei,
e conhosco mui bem [o] trobar.

- O chufar, Dom Lourenço, [o] chufar!
626

Lourenço Jograr, Hás Mui Gram Sabor

- Lourenço jograr, hás mui gram sabor
de citolares, ar queres cantar,
des i ar filhas-te log'a trobar
e teens-t'ora já por trobador;
e por tod'esto ũa rem ti direi:
Deus me confonda, se hoj'eu i sei
destes mesteres qual fazes melhor!

- Joam Garcia, sõo sabedor
de meus mesteres sempre deantar,
e vós andades por mi os desloar;
pero nom sodes tam desloador
que, com verdade, possades dizer
que meus mesteres nom sei bem fazer;
mais vós nom sodes i conhocedor.

- Lourenço, vejo-t'agora queixar:
pola verdade que quero dizer,
metes-me já por de mal conhocer,
mais en nom quero tigo pelejar;
e teus mesteres conhocer-tos-ei,
e dos mesteres verdade direi:
ess'é que foi com os lobos arar.

- Joam Garcia, no vosso trobar
acharedes muito que correger;
e leixade mi, que sei bem fazer
estes mesteres que fui começar;
ca no vosso trobar sei-m'eu com'é:
i há de correger, per bõa fé,
mais que nos meus, em que m'ides travar.

- Vês, Lourenç[o], ora m'assanharei,
pois mal i entenças, e tod'o farei
o citolom na cabeça quebrar.

- Joam Garcia, se Deus mi perdom,
mui gram verdade dig'eu na tençom;
e vós fazed'o que vos semelhar.
710

Amiga, Des Que Meu Amigo Vi

Amiga, des que meu amigo vi,
el por mi morr'e eu ando des i
       namorada.

Des que o vi primeir'e lhi falei
el por mi morre e eu del fiquei
       namorada.

Des que nos vimos, assi nos avém:
el por mi morr'e eu ando por en
       namorada.

Des que nos vimos, vêde'lo que faz:
el por mi morr'e eu and[o] assaz
       namorada.
729

Rodrig'eanes, Queria Saber

- Rodrig'Eanes, queria saber
de vós por que m'ides sempre travar
em meus cantares; ca sei bem trobar;
e a vós nunca vos vimos fazer
cantar d'amor nem d'amigo; e por en,
se querede'lo que eu faço bem
danar, terrám-vos por sem conhocer.

- Lourenço, tu fazes i teu prazer
em te quereres tam muito loar,
ca nunca te vimos fazer cantar
que ch'en querrá nen'o Demo dizer.
Com'esso dizes, ar di ũa rem:
que és homem mui comprido de sem
e bom meestr'[e] que sabes leer.

- Rodrig'Eanes, sempr'eu loarei
os cantares que mui bem feitos viir,
quaes eu faço; e quem os oír
pagar-s'-á deles; mais vos eu direi:
dos sarilhos sodes vós trobador,
ca nom faredes um cantar d'amor
por nulha guisa qual eu [o] farei.

- Lourenç', enas terras u eu andei,
nom vi vilam tam mal departir;
e vejo-te [em] trobares cousir
e loar-te; mais ũa cousa sei:
de tod'homem que entendudo for,
nom haverá em teu cantar sabor,
nem cho colherám em casa del-rei.

- Rodrig'Eanes, u meu cantar for,
nom acharei rei nem emperador
que o nom colha - mui bem eu o sei.

- Lourenço, tenho que és chufador;
e vejo-t'ora mui gram loador
de pouco sem, [e] nom cho creerei.
630

Lourenço, Soías Tu Guarecer

- Lourenço, soías tu guarecer
como podias, per teu citolom,
ou bem ou mal, nom ti dig'eu de nom,
e vejo-te de trobar trameter;
e quero-t'eu desto desenganar:
bem tanto sabes tu que é trobar
bem quanto sab'o asno de leer.

- Joam d'Avoim, já me cometer
veerom muitos por esta razom
que mi diziam, se Deus mi perdom,
que nom sabia 'm trobar entender;
e veerom por en comig'entençar,
e figi-os eu vençudos ficar;
e cuido-vos deste preito vencer.

- Lourenço, serias mui sabedor
se me vencesses de trobar nem d'al,
ca bem sei eu quem troba bem ou mal,
que nom sabe mais nẽum trobador;
e por aquesto te desenganei;
e vês, Lourenço, onde cho direi:
quita-te sempre do que teu nom for.

- Joam d'Avoim, por Nostro Senhor,
por que leixarei eu trobar atal
que mui bem faç'e que muito mi val?
Des i ar gradece-mi-o mia senhor,
por que o faç'; e, pois eu tod'est'hei,
o trobar nunca [o] eu leixarei,
poilo bem faç'e hei [i] gram sabor.
726

Ir-Vos Queredes, Amigo

- Ir-vos queredes, amigo,
mais viinde-vos mui cedo.
- Ai mia senhor, hei gram medo
de tardar, bem vo-lo digo:
       ca nunca tam cedo verrei
       que eu nom cuide que muito tardei.

- Amigo, rogo-vos aqui
que mui cedo vos venhades.
- Senhor, por que me rogades?
Ca sei bem que será assi:
       ca nunca tam cedo verrei
       que eu nom cuide que muito tardei.

- Amigo, vossa prol será,
pois vos ides, de nom tardar.
- Senhor, que prol mi há de jurar?
Ca sei bem quanto mi averrá:
       ca nunca tam cedo verrei
       que eu nom cuide que muito tardei.

E, senhor, sempre cuidarei
que tardo muito; e que farei?

- Meu amigo, eu vo-lo direi:
se assi for, gracir-vo-lo-ei.
696

Assaz É Meu Amigo Trobador

Assaz é meu amigo trobador:
ca nunca s'home defendeu melhor,
quanto se torna em trobar,
do que s'el defende por meu amor
dos que vam com el entençar.

Pero o muitos vẽem cometer,
tam bem se sab'a todos defender
em seu trobar, per bõa fé,
que nunca o trobadores vencer
poderom, tam trobador é.

Muitos cantares há feitos por mi;
mais o que lh'eu sempre mais gradeci:
de como se bem defendeu
nas entenções que eu del oí
- sempre por meu amor venceu.

E aquesto non'[o] sei eu per mi,
senom porque o diz quem quer assi
que o em trobar cometeu.
586

Pedr'amigo Duas Sobérvias Faz

Pedr'Amigo duas sobérvias faz
ao trobar, e queixa-se muit'en
o trobar, aquesto sei eu mui bem;
ca diz que lhi faz ende mal assaz:
com seus cantares vai-o escarnir;
ar diz que o leix'eu, que sei seguir
o trobar e todo quant'en'el jaz!

E aquestas sobêrvias duas som,
que Pedr'Amigo em trobar vai fazer:
ena ũa vai-o escarnecer
com seus cantares sempre em seu som,
ena outra vai i mim de[s]loar:
desto se queixa mui mal o trobar
ca tem comigo em tod'a razom.

Mais dizede porque lho sofrerei
a Pedr'Amigo, se me mal disser
de meus mesteres, poilos bem fezer,
e o trobar de mi já partirei?
S' el sem conhocer [é], per ficará
do que me diz; [e] quem quer veerá
que faço bem est'a que me filhei.
517

Senhor Fremosa, Oí Eu Dizer

Senhor fremosa, oí eu dizer
que vos levarom d'u vos eu leixei;
e d'u os meus olhos de vós quitei,
aquel dia fora bem de morrer
       eu e nom vira atam gram pesar
       qual mi Deus quis de vós amostrar.

Porque vos forom, mia senhor, casar
e nom ousastes vós dizer ca nom;
por en, senhor, assi Deus mi perdom,
mais mi valera já de me matar
       eu e nom vira atam gram pesar
       qual mi Deus quis de vós amostrar.
441

Quero Que Julguedes, Pero Garcia

- Quero que julguedes, Pero Garcia,
d'antre mim e tôdolos trobadores
que de meu trobar som desdezidores:
pois que eu hei mui gram sabedoria
de trobar e de o mui bem fazer,
se hei culpa no que me vam dizer,
julgade-o, sem tod'a bandoria.

- Dom Lo[urenço], muito me cometedes,
e em trobar muito vos ar loades;
e dizem esses com que vós trobades
que de trobar nulha rem nom sabedes,
nem rimades nem sabedes iguar;
e pois vos assi travam em trobar,
de vos julgar, senhor, nom me coitedes.

- Dom Pedro, em como vos ouç'i falar,
ou vós bem nom sabedes julgar,
ou já dos outros ofereçom havedes.

- Dom Lourenço, vejo i vos posfaçar;
mais quem nom rima nem sabe iguar,
se eu juizo dou, queixar-vos-edes.
645

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