Luis Fernando Verissimo

Luis Fernando Verissimo

1936–2025 · viveu 88 anos BR BR

Luís Fernando Verissimo é um escritor, jornalista, cartunista e publicitário brasileiro, conhecido por seu humor inteligente, crônicas perspicazes e personagens icônquicos. Sua obra abrange diversos gêneros, desde a literatura infantojuvenil até a ficção para adultos, sempre com um olhar aguçado sobre os costumes, a política e o cotidiano do Brasil. Verissimo se destaca pela linguagem acessível, pelo ritmo ágil e pela capacidade de transformar situações banais em reflexões cômicas e profundas.

n. 1936-09-26, Porto Alegre · m. 2025-08-30, Porto Alegre

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A Invenção do o

A Invenção do o

Na era da pedra lascada
da língua falada
antes de inventarem a letra
que imitava a lua
as palavras diziam nada
e nada levava a nada
(aliás, nem precisava rua).
A frase ficava estática
de maneira majestática
a grandes falas presumíveis
permaneciam indizíveis
- imagens invisíveis
a distâncias invencíveis.
Vivia-se em cavernas mentais
numa inércia dramática.
Ir e vir, nem pensar
ninguém mudava de lugar
que dirá de sintática.
Aí inventaram o O
e foi algo portentoso.
Assombroso, maravilhoso.
Tudo começou a rolar
e a se movimentar.
O Homem ganhou horizontes
e palavras viraram pontes
e hoje existe a convicção
que sem a sua invenção
não haveria Civilização.
Um dia, como o raio inaugural
sobre aquela célula no pantanal
que deu vida a tudo,
veio o acento agudo.
E o homem pôde cantar vitória.
E começou a História.
(Depois ficamos retóricos
e até um pouco gongóricos).

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Biografia

Identificação e contexto básico

Luís Fernando Verissimo nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. É escritor, jornalista, cartunista e publicitário. Escreve em português. Sua obra está intrinsecamente ligada ao contexto cultural e social brasileiro, especialmente o do Rio Grande do Sul, mas com projeção nacional e internacional. Viveu e vive em um período de intensas transformações políticas e sociais no Brasil, desde a ditadura militar até a redemocratização e os desafios da sociedade contemporânea.

Infância e formação

Filho do escritor Érico Verissimo e de Mafalda Lefèvre, Luís Fernando Verissimo teve contato com o mundo das letras desde cedo. Sua formação intelectual foi marcada pela obra do pai e pela leitura ampla e diversificada. Embora não tenha seguido uma formação acadêmica estritamente literária, desenvolveu um senso crítico aguçado e um domínio da linguagem através de sua atuação no jornalismo e na publicidade.

Percurso literário

Verissimo iniciou sua carreira no jornalismo, escrevendo para diversos jornais e revistas. Sua veia humorística e de observador social logo o levou às crônicas, gênero em que se tornou mestre. Paralelamente, começou a publicar livros de ficção, tanto para adultos quanto para o público infantojuvenil. A criação de personagens icônquicos como a "Velhinha", o "Analista de Bagé" e as suas próprias crônicas sobre o "Bonde" e o cotidiano de Porto Alegre solidificaram seu percurso. Sua atividade como cartunista, especialmente no jornal "O Estado de S. Paulo", também é um marco importante.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as obras mais conhecidas de Verissimo estão "O Analista de Bagé" (1977), "O Cowboy de Látex" (1978), "O Chacal de Nova York" (1979), "Gigolô de Sapatos" (1984), "A Máquina de Caixa" (1993), "O Homem que Comprou o Rio de Janeiro" (1993), "As Mentiras que os Homens Contam" (1997) e "O Sétimo Guardião" (2002). Seus temas centrais incluem o cotidiano, as relações humanas, a política brasileira, os costumes sociais e as pequenas absurdidades da vida. Utiliza uma linguagem clara, direta e extremamente acessível, com um ritmo ágil que prende o leitor. O humor é o recurso predominante, variando entre a sátira social, a ironia fina e o absurdo cômico. Sua voz poética é a de um observador irónico e afetuoso da realidade, que transforma o banal em fonte de reflexão e riso. Verissimo é um mestre da crônica, um gênero que ele ajudou a popularizar e a elevar a um alto nível literário no Brasil, dialogando com a tradição de cronistas como Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, mas com um toque marcadamente contemporâneo e humorístico.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Verissimo é um cronista privilegiado do Brasil contemporâneo. Sua obra reflete as mudanças sociais, políticas e culturais do país, desde os anos da ditadura militar, com um humor muitas vezes velado, até a redemocratização e os desafios da modernidade. Ele dialoga com outros escritores, jornalistas e artistas brasileiros, participando ativamente do cenário cultural nacional. Sua posição como um dos mais lidos e admirados escritores brasileiros o insere como uma figura central na compreensão da identidade e do humor nacional.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Luís Fernando Verissimo é filho do renomado escritor Érico Verissimo, o que lhe proporcionou um ambiente familiar propício à literatura. Casado e pai de filhos, a vida pessoal do autor é marcada pela discrição, mas seu humor e suas observações sobre família e cotidiano permeiam sua obra. A sua atuação paralela como cartunista e publicitário demonstra uma versatilidade criativa que se reflete em sua escrita, sempre dinâmica e multifacetada.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Luís Fernando Verissimo é um dos escritores brasileiros mais lidos e admirados de sua geração. Sua obra é traduzida para diversos idiomas e seu reconhecimento se estende para além das fronteiras brasileiras. Recebeu inúmeros prêmios e distinções ao longo de sua carreira, consolidando-se como um autor popular e respeitado pela crítica. Sua capacidade de conectar-se com um vasto público, através de um humor inteligente e acessível, garante sua presença constante nas listas de mais vendidos e em debates sobre a literatura brasileira contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Verissimo bebeu, direta ou indiretamente, na obra de seu pai, Érico Verissimo, e em outros grandes cronistas brasileiros. Ele, por sua vez, influenciou gerações de escritores, jornalistas e humoristas no Brasil, tanto pela maestria na crônica quanto pela forma como abordou o humor e a crítica social. Seu legado reside em ter popularizado o gênero da crônica, em ter criado personagens inesquecíveis e em ter oferecido ao Brasil um espelho de suas próprias contradições e alegrias, através de um humor que diverte e faz pensar.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Verissimo é frequentemente analisada sob a ótica do humor como forma de crítica social e política. Seus personagens e situações oferecem um retrato perspicaz da sociedade brasileira, permitindo leituras que vão além do mero entretenimento. Os críticos destacam sua habilidade em transitar entre o riso e a reflexão, abordando temas profundos com leveza e inteligência. As suas crônicas, em particular, são vistas como um termômetro do Brasil contemporâneo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Luís Fernando Verissimo é um talentoso cartunista, e seus desenhos frequentemente acompanham suas crônicas, adicionando uma camada visual ao seu humor. Ele é conhecido por sua paixão por jazz e por sua habilidade em tocar clarinete. Embora sua obra seja amplamente reconhecida, ele mantém uma postura discreta quanto à sua vida pessoal, preferindo que seu trabalho fale por si.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Luís Fernando Verissimo encontra-se vivo e continua a produzir obras, o que o mantém como uma figura relevante e ativa na literatura brasileira. Sua memória é construída diariamente através de sua obra acessível e sempre atual, garantindo seu lugar como um dos pilares da literatura e do humor no Brasil.

Poemas

7

A Invenção do o

A Invenção do o

Na era da pedra lascada
da língua falada
antes de inventarem a letra
que imitava a lua
as palavras diziam nada
e nada levava a nada
(aliás, nem precisava rua).
A frase ficava estática
de maneira majestática
a grandes falas presumíveis
permaneciam indizíveis
- imagens invisíveis
a distâncias invencíveis.
Vivia-se em cavernas mentais
numa inércia dramática.
Ir e vir, nem pensar
ninguém mudava de lugar
que dirá de sintática.
Aí inventaram o O
e foi algo portentoso.
Assombroso, maravilhoso.
Tudo começou a rolar
e a se movimentar.
O Homem ganhou horizontes
e palavras viraram pontes
e hoje existe a convicção
que sem a sua invenção
não haveria Civilização.
Um dia, como o raio inaugural
sobre aquela célula no pantanal
que deu vida a tudo,
veio o acento agudo.
E o homem pôde cantar vitória.
E começou a História.
(Depois ficamos retóricos
e até um pouco gongóricos).

1 992

Tu e Eu

Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça
e a sabedoria de só saber crescer
até dar pé.
En não sei onde quero chegar
e só sirvo para uma coisa
- que não sei qual é!
És de outra pipa
e eu de um cripto.
Tu, lipa
Eu, calipto.

Gostas de um som tempestade
roque lenha
muito heavy
Prefiro o barroco italiano
e dos alemães
o mais leve.
És vidrada no Lobão
eu sou mais albônico.
Tu,fão.
Eu,fônico.

És suculenta
e selvagem
como uma fruta do trópico
Eu já sequei
e me resignei
como um socialista utópico.
Tu não tens nada de mim
eu não tenho nada teu.
Tu,piniquim.
Eu,ropeu.

Gostas daquelas festas
que começam mal e terminam pior.
Gosto de graves rituais
em que sou pertinente
e, ao mesmo tempo, o prior.
Tu és um corpo e eu um vulto,
és uma miss, eu um místico.
Tu,multo.
Eu,carístico.

És colorida,
um pouco aérea,
e só pensas em ti.
Sou meio cinzento,
algo rasteiro,
e só penso em Pi.
Somos cada um de um pano
uma sã e o outro insano.
Tu,cano.
Eu,clidiano.

Dizes na cara
o que te vem a cabeça
com coragem e ânimo.
Hesito entre duas palavras,
escolho uma terceira
e no fim digo o sinônimo.
Tu não temes o engano
enquanto eu cismo.
Tu,tano.
Eu,femismo.
2 026

Que Este Amor Não Me Cegue Nem Me Siga

Que este
amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.
1 569

Declaração de Amor

Tentei
dizer quanto te amava, aquela vez, baixinho
mas havia um grande berreiro, um enorme burburinho
e, pensado bem, o berçário não era o melhor lugar.

Você de fraldas, uma graça, e eu pelado lado a lado,
cada um recém-chegado você em saber ouvir, eu sem saber falar.

Tentei de novo, lembro bem, na escola.

Um PS no bilhete pedindo cola interceptado pela
professora como um gavião.

Fui parar na sala da diretora e depois na rua
enquanto você, compreensivelmente, ficou na sua.

A vida é curta, longa é a paixão.
Numa festinha, ah, nossas festinhas, disse tudo:
"Eu te adoro, te venero, na tua frente fico mudo"
E você não disse nada. E você não disse nada.

Só mais tarde, de ressaca, atinei.
Cheio de amor e Cuba, me enganei e disse tudo para uma almofada.

Gravei, em vinte árvores, quarenta corações.
O teu nome, o meu, flechas e palpitações:

No mal-me-quer, bem-me-quer, dizimei jardins.

Resultado: sou persona pouco grata corrido a gritos de
"Mata! Mata!" por conservacionistas, ecólogos e afins.

Recorri, em desespero, ao gesto obsoleto:
"Se não me segurarem faço um soneto"
E não é que fiz, e até com boas rimas?
Você não leu, e nem sequer ficou sabendo.
Continuo inédito e por teu amor sofrendo
Mas fui premiado num concurso em Minas.

Comecei a escrever com pincel e piche num muro branco, o asseio que se
lixe, todo o meu amor para a tua ciência.

Fui preso, aos socos, e fichado.

Dias e mais dias interrogado: era PC, PC do B ou alguma dissidência?

Te escrevi com lágrimas , sangue, suor e mel
(você devia ver o estado do papel)
uma carta longa, linda e passional.
De resposta nem uma carinha
nem um cartão, nem uma linha!
Vá se confiar no Correio Nacional.

Com uma serenata, sim, uma serenata como nos tempos da Cabocla Ingrata
me declararia, respeitando a métrica.
Ardor, tenor, a calçada enluarada...
havia tudo sob a tua sacada
menos tomada pra guitarra elétrica.

Decidi, então, botar a maior banca no céu escrever com
fumaça branca: "Te amo, assinado.." e meu nome bem
legível. Já tinha avião, coragem, brevê, tudo
para
impressionar você mas veio a crise, faltou o combustível.

Ontem você me emprestou seu ouvido e na discoteca, em
meio do alarido, despejei meu coração.
Falei da devoção ha anos entalada e você disse "Não
escuto banda". Disse "eu não escuto nada".
Curta é a vida, longa é a paixão.

Na velhice, num asilo, lado a lado em meio a um silêncio
abençoado direi o que sinto, meu bem.
O meu único medo é que então empinando a orelha com
a mão você me responda só: "Hein?"
1 927

Esse é o mote: Vote

Este
é o mote: vote.
Estamos todos no mesmo bote.
Vote.
Escolha o menos fracote
e vote.
Já não se votou no Lott?
Pois vote.
Não anule nem faça trote.
Vote.
Pelas barbas do Quixote,
vote!
Não picote o papelote.
Vote.
Tire os nomes de um pote.
Ou do decote.
Mas vote.
Não passa na glote?
Não faz mal.
Vote.
Você preferia ficar em casa ouvindo o Concerto em Dó Maior
de
Gottfried Munthel para Orquestra, Baixo Contínuo e Fagote?
Tomando um scotch?
Esquece.
Vote.
Vote em sacerdote,
Ou em hotentote.
Mas vote.
Vote em cocote.
(Mas não em iscariote.)
Mas vote.
Não fique aí pensando "to be or not".
Vote!
E, se no fim faltar rima, não se apague.
Sufrague.
1 252

Este é o mote: vote

Este é o mote: vote.

Este é o mote: vote.
Estamos todos no mesmo bote.
Vote.
Escolha o menos fracote
e vote.
Já não se votou no Lott?
Pois vote.
Não anule nem faça trote.
Vote.
Pelas barbas do Quixote,
vote!
Não picote o papelote.
Vote.
Tire os nomes de um pote.
Ou do decote.
Mas vote.
Não passa na glote?
Não faz mal.
Vote.
Você preferia ficar em casa ouvindo o Concerto em Dó Maior de
Johann Gottfried Munthel para Orquestra, Baixo Contínuo e
Fagote?
Tomando um scotch?
Esquece.
Vote.
Vote em sacerdote,
Ou em hotentote.
Mas vote.
Vote me cocote.
(Mas não em iscariote.)
Mas vote.
Não fique aí pensando to be or not.
Vote!
E, se no fim faltar rima, não se apague.
Sufrague.

1 073

Declaração de Amor

Declaração de Amor

Tentei dizer quanto te amava, aquela vez, baixinho
mas havia um grande berreiro, um enorme burburinho
e, pensado bem, o berçário não era o melhor lugar.

Você de fraldas, uma graça, e eu pelado lado a lado,
cada um recém-chegado você em saber ouvir, eu sem saber
falar.

Tentei de novo, lembro bem, na escola.

Um PS no bilhete pedindo cola interceptado pela
professora como um gavião.

Fui parar na sala da diretora e dpois na rua
enquanto você, compreensivelmente, ficou na sua.

A vida é curta, longa é a paixão.
Numa festinha, ah, nossas festinhas, disse tudo:
Eu te adoro, te venero, na tua frente fico mudo
E você não disse nada. E você não disse nada.

Só mais tarde, de resaca, atinei.
Cheio de amor e Cuba, me enganei e disse tudo para uma
almofada.

Gravei, em vinte árvores, quarenta corações.
O teu nome, o meu, flechas e palapitações:

No mal-me-quer, bem-me quer, dizimei jardins.

Resultado: sou persona pouco grata corrido a gritos de
Mata! Mata! por conservacionistas, ecólogos e afins.

Recorri, em desespero, ao gesto obsoleto:

Se não me segurarem faço um soneto
E não é que fiz, e até com boas rimas?
Você não leu, e nem sequer ficou sabendo.
Continuo inédito e por teu amor sofrendo
Mas fui premiado num concurso em Minas.

Comecei a escrever com pincel e piche num muro branco, o
asseio que se lixe, todo o meu amor para a tua ciência.

Fui preso, aos socos, e fichado.

Dias e mais dias interrogado: era PC
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