Tudo Muda, Tudo Cansa
Tudo Muda, Tudo Cansa
Aos poucos,
os longos anos de amor tudo muda
Aos poucos,
também, tudo cansa
À conta-gotas,
lá se foi o que era doce
Aí, a cama fica estreita
Aí, você sonha em ter uma só para você
Daí, as noites de amor são só de vez em quando
Eu sei
Eu sei
Toda mulher sabe os limites do seu amor
O meu é daqueles que parece não ter fim
Sobrevive a mares, tempestades, invernadas
e a longos períodos de estiagem
Toda mulher sabe os limites do seu amor
E o meu é daqueles que resiste à luz ou à escuridão,
à paz ou à guerra
Não é um amor resignado
É daqueles que a gente carrega anos e anos a fio e nem sente o fardo
Cacto e Violeta
Cacto e Violeta
Ele se parece com as violetas, pela delicadeza
E eu com os cactos, mais pelos espinhos do que pela resistência
Não sabia que cactos pudessem amar tanto as violetas
Mas cacto, por amor, também muda a natureza
Aprende a podar seus espinhos
para encurtar o caminho entre ele e as violetas
Um Dia
Um Dia
Eu pedi um dia
E um dia é tanto tempo que não da nem pra contar
Um dia pode demorar horas, meses, anos...
Custa a passar
Um dia, por si só, soa o distante, o quase inatingível
Um dia é tão indefinido que tanto pode estar muito perto
como pode estar muito longe
Demore ou não a chegar, não importa
Um dia é o fim da espera derradeira
E se é para esperar por esse beijo eu espero
a minha vida inteira
Sóis
Sóis
São três estrelas, ímpares
Singulares
São lindas: de longe e de perto
Uma é por demais sedutora
Encanta, mas pouco oferece
A outra tem brilho certo
e virou meu livro aberto
A última tem senso de humor
e diz que ainda me tem amor
Gosto das três, desigualmente
Ímpares, singulares e lindas,
elas não são estrelas,
são sóis
Procuro
Procuro
Da janela eu procuro um ponto
Procuro sua direção e não vejo
Meus olhos atravessam os postes,
os muros, as ruas,
vazam as fibras, os vidros, os prédios
Mas minha vista não te alcança
Para que lado fica a minha vida?
As luzes de longe são pequeninas
e através delas nada de ti eu avisto
Elas não me apontam os campos
E os campos alheios que me habitam
são sempre os mais belos
O Passar das Horas
O Passar das Horas
São 23h55 de um sábado 28 de dezembro de um ano qualquer
O meu amor por ti nasceu num ano bissexto
Há horas você foi embora
e para me distrair fui à livraria comprar poemas
Os últimos de Drummond
Há horas você foi embora
e não tem poema que me console
Tenho andado frágil,
sensível,
chorando à toa,
mostrando o coração
A minha versão atual não é moderna
Visto a roupagem do desgaste
e, sem fazer questão do meu resgate, vou ainda mais longe:
me ofereço como quem oferece rosas num mercado ambulante,
sem promover contra você rebelião ou levante
Espelho
Espelho
Chegará o tempo
em que irão olhar e enxergar em mim o seu rosto
Chegará o tempo
em que eu não vou precisar dizer o meu nome:
o seu estará escrito em minha vida,
claro, exposto, legível
Príncipe
Príncipe
Eu sou uma mulher moderna, mas que ainda acredita em príncipes
Não sou nenhuma princesa, mas tenho um príncipe
O meu gosta de bebidas amargas,
não tem cavalo branco, tem mais de meio século
e os meus olhos o enxergam na flor da idade
Ele gosta de vinho. Eu gosto do príncipe
e tudo nele vale o meu carinho
Meu príncipe é o homem menos moderno que eu conheço
Sua pressão é alta, sua alegria é contida,
mas ao lado dele eu me sinto solta
como quando soltos ficam os laços de fita
Ele não tem alma de artista
Veste a cara do Poder mais sizudo da República
mas é meigo como todo príncipe deve ser
e tem voz doce como todos devem ter
Vejo meu príncipe, assim, com os olhos da paixão
Dele sou tão dependente e carente
que, ao meu coração, até o seu silêncio é eloqüente
Dor
Dor
Se o grito aliviasse a minha dor,
o meu soaria inconsolável