Lista de Poemas

Vestígios de ti

Os meus discos no chão
Os copos vazios
Vestígios da noite
As palavras perdidas
O calor e o frio

O meu corpo no chão
Um livro que eu li
O silêncio e a pele
As palavras sentidas
Os vestígios de ti

E o mundo e a rua
Despidos no vento
À espera de sentir o mar
Numa vaga de espuma
Em sentidos guardados
No fundo do olhar

As revistas no chão
Os copos vazios
Vestígios do tempo
As palavras trocadas
O calor e o frio

Cada gesto que abraça
E um filme que eu vi
O que fica marcado
E já nunca se afasta
Os vestígios de ti

E o mundo e a rua
Despidos no vento
À espera de sentir o mar
Numa vaga de espuma
Em sentidos guardados
No fundo do olhar
1 243

Soslaio

húmido canto da boca
húmido olhar de soslaio
fresco de verde molhado
gotas de verde luar
riso no canto da boca
tão descarado no olhar
da cor bonita de Maio
húmido olhar de soslaio
sol que amormece na pele
gato a dormir na janela
o meu amor enroscado
em linho, meiguice e mel
sonhos no rubro dos lábios
fresco de verde molhado
da côr intensa de Maio
húmido olhar de soslaio

faz-me comichão na alma
o azul do olhar roçando
o riso que põe bricando
no canto da minha boca
riso de luar molhado
seus olhos do azul de Maio
húmido canto da boca
húmido olhar de soslaio
1 371

Nazaré

Ainda hoje dormi na praia
Na acalmia da maré
E a lua inundou-me os olhos
E o mar despido afundou-me a fé
E hoje de que serve a jura
Se ele à praia não vai voltar
Esperei na noite mais escura
Até ver na água o azul clarear
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
E o sal no brilho dos olhos
Sabe a tristeza sem fim
Que hoje o mar abraça e leva
O que Deus quis e arrancou de mim
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
Ainda hoje acordei na praia
Nada ao longe se avistou
Só mais uma noite escura
Sob o azul e sob a lua
Esconde o que o mar me roubou
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
2 497

Cidade

À noite
No silêncio da rua
Passavam ciganos cantando
E a cidade chamava
Nas luzes perdidas do rio
No teu carro
Andámos por aí
Bebemos cerveja e falámos
Entre sombras de prédios calados
E sonhos de homens cansados
E algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Há escuro
Na inquietação do vento
Nas luzes esquecidas do rio
E tentam roubar-nos os dias
Tentam calar-nos as forças
Mas algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Quero que por fim nos traga o sol
Andando pelo rio, perdidos na claridade
Hoje só quero deixar viver este momento
Hoje só quero caminhar pela cidade
No teu carro
Cruzámos as fronteiras
Bebemos cervejas e sonhámos
De tudo o que há sem regresso
Quem guardará o passado?
Entrego-me
Em passos sem destino
Até onde a fúria se acalma
vou procurando a gente
Que à noite na rua cantava
E algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Quero que por fim nos traga o sol
Andando pelo rio perdidos na claridade
Hoje só quero deixar viver este momento
Hoje só quero caminhar pela cidade
1 141

Lenda de Uma Cigana

A lenda de uma cigana
Adormecida ao relento
Que perdeu a caravana
Por seguir o pensamento
Tem dias que anda pairando
Nos rumos do mundo
Tem dias que anda rolando
Nas presas do tempo
Diz a lenda que a cigana
Pelo caminho onde viera
O xaile tinha perdido
E um vagabundo o trouxera
Sacudindo o pó e as mágoas
Como se a cor acordasse
Num abraço dançou com ela
Antes que o vento a roubasse
Só o vento nos roda a saia
Só o vento nos faz dançar
Nos confunde os passos na areia
Muda o rumo às águas do mar
No silêncio mal se ouviam
Dançar descalços na areia
Numa noite quase fria
Estava a lua quase cheia
E pra rasgarem o escuro
Ou fugir à solidão
Ataram corpos cansados
Na sombra vaga do chão
Quando o sol entorna o dia
Ficara o xaile esquecido
E os passos da cigana
Já o vento tinha escondido
Ficou só o vagabundo
Resgatando uma ilusão
Com a alma amordaçada
Na palma da mão
Só o vento nos roda a saia
Só o vento nos faz dançar
Nos confunde os passos na areia
Muda o rumo às águas do mar
1 239

Fonte dos Deuses

A lua dança na mata
Até despontar o dia
Andam ninfas na cascata
E os deuses em romaria
E os bravos guerreiro mouros
Cravam lanças ao luar
Pra afugentar maus agouros
Como a fonte a transbordar
Rio aberto, quase mar
Acaba todo o sossego
Inundada a pradaria
Se os deuses contam segredos
E água vem que não devi
E os bravos guerreiros
Cravam lanças ao luar
Pra afugentar maus agouros
Como a fonte a transbordar
Rio aberto, quase mar
E estava a princesa moura
A beber água na fonte
Onde a vida é uma espora
Cravada no horizonte
Todo o dia a toda a hora
Sempre vem o trovador
Cantar à princesa moura
E a toda a moirama em flor
Ai toda a moura é uma flor
Cantaria à luz do fogo
Se me fosse perdoado
Pelos deuses todo o sonho
Toda a falta de cuidado
Mas nem sempre acorda a chama
Onde a noite é demorada
Enquanto os deuses recolhem
Água em fonte transbordada
Luz em noite enluarada
E estava a princesa moura
A beber água na fonte
Onde a vida é uma espora
Cravada no horizonte
Todo o dia a toda a hora
Sempre vem o trovador
Cantar à princesa moura
E a toda a moirama em flor
Ai toda a moura é uma flor
Toco na lira dos deuses
Pela margem da ribeira
É esse o riso dos deuses
E das caraças da feira
Dias de amor nunca esquecem
Tirando algum que esqueceu
Quando os deuses enlouquecem
E arrancam estrelas do céu
E deixam noites de breu
E estava a princesa moura
A beber água na fonte
Onde a vida é uma espora
Cravada no horizonte
Todo o dia a toda a hora
Sempre vem o trovador
Cantar à princesa moura
E a toda a moirama em flor
Ai toda a moura é uma flor
1 142

Pedras e Flores

Hoje a vida passa como um barco
Ilha de náufragos esquecida no mar
E o tempo é nada haver sentido tudo
O que por nada ser nos faz mudar
Hoje o mundo é o revés de um sonho
Que um sono mais profundo fez esquecer
Para quê querer das coisas a razão
Se quase nada tem razão de ser
O luar traz silêncios e disparos
E carícias fugazes e horrores
E morre-se num canto de um poema
Por isso e outras coisa dão-se flores
Bebe-se vinho e dorme-se ao relento
E liberta-se o grito que vier
Pra se ouvir longe e perto, e dentro
Conserva-se o silêncio, o que se puder
E alguma vez ainda se acredita
Na força da montanha céu adentro
E na canção do mar por ser bonita
E nas asas que inventa, cores ao vento
Mas hoje voam pássaros sem asas
Na terra desabrocham cores de guerra
E hoje as flores rolam pelo chão
Como se fossem pedras
1 360

Por Te Rever

Quisera roubar-te essas palavras e morrer
Trazer-te assim até ao fim do que eu puder
E começar um dia mais eternamente
Por te rever, só
Pudesse eu guardar-te nos sentidos e na voz
E descobrir o que será de nós
E demorar um dia mais eternamente
Por te rever, só
Quisera a ternura, calmaria azul do mar
O riso o amor o gosto a sal o sol do olhar
E um lugar pra me espraiar eternamente
Por te rever, só
Pudesse eu ser tempo a respirar no teu abraço
Adormecer e abandonar-me de cansaço
Quisera assim perder-me em mim eternamente
Por te rever, só
1 245

O Nome do Sal

Traz-me de novo a memória de outros dias
Ter raiz nas romarias
Nas danças, nas cantorias
Na forma de se espraiar de um sonho errante
Em terra vasta e distante
Procurando o sal
Sinto voltar a saudade na cumprida
De palavras e vontades
De gestos e ansiedades
Das coisas que ainda não há mas que já estão
Na forma da nossa mão
Procurando o sal
Ah que os mares abertos fossem ventos
Fossem caravelas
Novos sonhos conquistando
Ah que o céu descubra rumos nossos
Nossas estrelas
Navegando
Molha-se a alma no suor da descoberta
Na pulsação da terra
De sonho e de pão repleta
A raiz outra vez a rebentar
Nova terra, novo mar
Procurando o sal
Seja de novo o impulso de viver
Para além de ir aguentando
E às cegas ir caminhando
Porque o dia tem cor do que é preciso
E pulsa no chão que eu piso
O sangue de Portugal
Ah que os mares abertos fossem ventos
Fossem caravelas
Novos sonhos conquistando
Ah que o céu descubra rumos nossos
Nossas estrelas
Navegando
1 019

Ilha

Dancei no fio
de uma espada
num poço aberto
em sol vermelho
há tanto tempo
não sei de ti
toquei na chama
mas era um espelho

Soltei a dor
como um segredo
que se guardou
e não se deu
lambi a ferida
de te esperar
mas este sangue
sabia a mar

Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta

Andei num fio
de navalha
fui acrobata
e enlouqueci
abri uma fenda
e foi-se o mar
mas este mar
não chega a ti

Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta

És uma ilha
dentro do deserto
és um caminho
numa vaga
És espaço pra correr
sob o sol
és um barco vazio
que me arrasta

és um barco vazio
que me arrasta
1 424

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Maria do Carmo
Maria do Carmo

Gosto muito de Mafalda Veiga! Tem uma voz suave, meiga e sabe bem ouvir! Para ela, os Parabéns!

Identificação e contexto básico

Mafalda Veiga é uma cantora e compositora portuguesa, nascida em Lisboa. Ganhou proeminência na música portuguesa a partir da década de 1990. A sua obra é essencialmente cantada em língua portuguesa.

Infância e formação

Os detalhes sobre a infância e formação de Mafalda Veiga não são amplamente divulgados na esfera pública. No entanto, é evidente na sua obra uma sensibilidade apurada e uma capacidade de observação que sugerem um percurso de desenvolvimento artístico e pessoal.

Percurso literário

O "percurso literário" de Mafalda Veiga manifesta-se primariamente através das suas letras de canções. O seu início na música deu-se nos anos 90, com a edição do seu primeiro álbum, "Lado a Lado", em 1992. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, explorando diferentes sonoridades e temáticas, mas mantendo uma identidade lírica consistente. Colaborou com diversos músicos e produtores, expandindo o seu universo musical.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras mais notáveis incluem álbuns como "Lado a Lado" (1992), "Anjos e Demónios" (1995), "Vitaminas" (1998) e "Ray-o-Man" (2003). Os temas dominantes nas suas canções são o amor, as relações interpessoais, a solidão, a busca por sentido, a efemeridade da vida e a introspeção. O estilo musical transita entre o pop e o rock, com influências acústicas e por vezes eletrónicas, mas a força motriz reside nas suas letras poéticas. A sua voz, com um timbre característico, confere uma interpretação íntima e expressiva às suas composições. A linguagem é direta, por vezes coloquial, mas sempre carregada de significado e emotividade. O tom é frequentemente melancólico, reflexivo e confessional.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Mafalda Veiga emergiu numa época em que a música portuguesa se diversificava, com a consolidação de artistas que traziam novas propostas sonoras e líricas. A sua obra dialoga com as inquietações da sua geração e reflete as dinâmicas sociais e culturais do final do século XX e início do século XXI em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Mafalda Veiga são mantidas com discrição. No entanto, a intimidade expressa nas suas letras sugere uma forte ligação entre as suas experiências pessoais, as suas reflexões e a sua criação artística.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Mafalda Veiga alcançou um reconhecimento significativo no panorama musical português. As suas canções tornaram-se populares e a sua obra é apreciada por um público alargado e pela crítica. Embora não seja uma artista de grande projeção internacional, consolidou o seu espaço como uma das vozes femininas mais relevantes da música portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Mafalda Veiga na música portuguesa são notórias, especialmente no que diz respeito à forma como as letras de canções podem assumir uma dimensão poética e reflexiva. Influenciou artistas que procuram aliar a música pop a uma escrita mais profunda e pessoal.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica As canções de Mafalda Veiga são frequentemente analisadas pela sua capacidade de tocar em temas universais de forma acessível e emotiva. A crítica destaca a sua habilidade em captar nuances do quotidiano e transformá-las em reflexões sobre a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Mafalda Veiga é conhecida pela sua natureza reservada, o que contribui para a aura de mistério em torno da sua figura. A sua abordagem à escrita das letras, muitas vezes inspirada por observações do dia-a-dia e por momentos de introspeção, é um aspeto característico do seu processo criativo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não aplicável, pois Mafalda Veiga está viva e em atividade.