Marcelo Tápia

Marcelo Tápia

n. 1954 BR BR

Poeta, ensaísta, tradutor e professor, graduou-se em Letras (Português e Grego) e doutorou-se em Teoria Literária e Literatura Comparada na FFLCH-USP, onde realizou também pós-doutorado em Letras Clássicas. É autor de oito livros de poemas; os cinco primeiros foram reunidos em "Refusões – poesia 2017-1982" (Perspectiva, 2017). Seu livro mais recente é "Ascensões e descensos – poesia 2021-2024" (Madamu, 2025).

n. 1954, Tietê, São Paulo

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veículos da cidade

nas ruas cada um vai
ou vem traçando
seu roteiro
único
em meio
a tantos trajetos
cruzados cruzados cruzados
fios que se torcem se desenlaçam
se anovelam se anulam dão-se nó
cada um no seu curso
cada qual no seu leito, seu sulco, seu trilho
seu caminho, seu destino
suas vidas atadas desatadas
seus emaranhados de nadas

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Biografia

Marcelo Tápia nasceu em Tietê, São Paulo, em 1954. Poeta, ensaísta, tradutor e professor, graduou-se em Letras (Português e Grego) e doutorou-se em Teoria Literária e Literatura Comparada na FFLCH-USP, onde realizou também pós-doutorado em Letras Clássicas. É autor de oito livros de poemas; os cinco primeiros foram reunidos em "Refusões – poesia 2017-1982" (Perspectiva, 2017). Publicou, em 2021, o volume "Nékuia – um diálogo com os mortos" (Perspectiva), contendo recriação sua do Canto XI da Odisseia de Homero e ensaios sobre tradução poética. Seu livro mais recente é "Ascensões e descensos – poesia 2021-2024" (Madamu, 2025).

Poemas

8

veículos da cidade

nas ruas cada um vai
ou vem traçando
seu roteiro
único
em meio
a tantos trajetos
cruzados cruzados cruzados
fios que se torcem se desenlaçam
se anovelam se anulam dão-se nó
cada um no seu curso
cada qual no seu leito, seu sulco, seu trilho
seu caminho, seu destino
suas vidas atadas desatadas
seus emaranhados de nadas

938

pedreira

para Paulo Leminski
o tempo pós
o fez diverso:
pedra
eterna, fixa
dura, pesada
imóvel, muda
cega, surda

mas perene
sólida
como sua vida
poesia pura do tempo

pedra-chama
teimando eternamente
como alma consistente

ascensão e queda

no centro do lago
no mais profundo
no mais escuro
no redemunho
no furo
no fio
o fim
do fio
do furo
do redemunho
do mais escuro
do mais profundo
ao centro do lago

iôiô
acima sem saída
até as margens sem alcance
na descida a ilusão de ascender

aos céus

1 068

a visão do poeta na tv

(angústia)

ao vê-lo na tela,
joão cabral de melo:

sem visão central
sem uma esperança
sem o olho do alvo
sem ponto de fuga
sem foco de apoio

seu "compreende?" soa
dito a cada frase
como a tentativa
de reter o ausente
que visto convence

como se o falado
só só se atingisse
quando dirigido
à meta do olhar
além do pensar

como se o pensado
só de fato o fosse
se olhado no centro
cravado no branco
como osso do verso

a cegueira faz
fazê-lo estranhar
as palavras ditas
escritas no ar:
a face invisível

do monstro vencido
em seus tempos vívidos

873

essência falsa

as lojas de essências da rua tabatingüera
e da rua silveira martins
na sé em são paulo (e afins)
são um modelo mítico da nossa era:

o totem da verdade caído por terra
dá lugar ao frenesi da imitação
um por um de cada aroma que era
é agora quase tal qual, a não ser por um senão

a marca vira tipo
e o que era espécime se torna espécie
cada nome vira público
e o que era único se torna série

o milagre da multiplicação
se instala para qualquer um
e o que era distante da mão
cai na mão como um fato comum

a fórmula do tal perfume
se obtém sem entrave
mas sua essência permanece posse
falsa de algum dono falso da chave

tudo se chama como se quer
e é tudo como se fosse;
além do perfume, o whisky, o cognac, o liqueur
se fazem sem o tempo de amadurecer

a coloração se faz com caramelão
o sabor com o aroma, o açúcar, o álcool
– a química da depuração da simulação
criando a realidade dúbia, virtual do igual

nestes tempos de reproduções
mesmo as palavras, mesmo as ações
o que se diz, o que se faz
ora é ora não é ou é o que se faz o que se diz

cada coisa que se denomina
pode ser o simulacro do que se designa
ou o que se resigna com o simulado:
o verbo sublimado e recondensado em significado

1 015

meia-treva

a meia-lua do céu se punha
como a meia-íris sua:

metade luz, metade treva
(metade bela, metade fera)

reflexo contíguo ao profundo
brilho anteposto ao túnel

universo em partes
nosso mundo partido

figura e fundo, dois sentidos
meio ao vazio

1 016

céu de mil e uma noites

Se eu
não fosse poeta
seria astrônomo
por certo.
Maiakóvski (trad. Augusto de Campos)
olho o céu e vejo um céu antigo
como aquele que eu tenho comigo
desde que o mundo era o meu umbigo

um céu de tecido azul escuro
com os pontos de luz em furo e uma
meia meia lua de futuro

nesga, um rasgo fino reluzente
numa renda quase transparente
com o vulto do clarão ausente

crescente sobre o pano profundo
que conquista um negrume de fundo
quanto mais e mais cai com o mundo

e se consome o vermelho púrpura
(desvanece a cor à ausência pura)
quanto mais e mais o brilho fura

896

cidade-luz

metrópole: elétricos
astros encobrem escuros
uracos de pedra

(1983)

966

ironia do destino

Ayds emagrece com segurança 4,5 kg por mês.
Já emagreceu milhares de americanos.
(...) logo, logo, Ayds estará em todo o Brasil.
anúncio publicitário em revista Cláudia, c. 1972
no anúncio antigo de produto dietético
o humor tétrico adivinho da palavra:
poder intemporal, primitivo, insone
a se trair só por um ipsilone?

923

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