Lista de Poemas

ironia do destino

Ayds emagrece com segurança 4,5 kg por mês.
Já emagreceu milhares de americanos.
(...) logo, logo, Ayds estará em todo o Brasil.
anúncio publicitário em revista Cláudia, c. 1972
no anúncio antigo de produto dietético
o humor tétrico adivinho da palavra:
poder intemporal, primitivo, insone
a se trair só por um ipsilone?

900

a visão do poeta na tv

(angústia)

ao vê-lo na tela,
joão cabral de melo:

sem visão central
sem uma esperança
sem o olho do alvo
sem ponto de fuga
sem foco de apoio

seu "compreende?" soa
dito a cada frase
como a tentativa
de reter o ausente
que visto convence

como se o falado
só só se atingisse
quando dirigido
à meta do olhar
além do pensar

como se o pensado
só de fato o fosse
se olhado no centro
cravado no branco
como osso do verso

a cegueira faz
fazê-lo estranhar
as palavras ditas
escritas no ar:
a face invisível

do monstro vencido
em seus tempos vívidos

852

essência falsa

as lojas de essências da rua tabatingüera
e da rua silveira martins
na sé em são paulo (e afins)
são um modelo mítico da nossa era:

o totem da verdade caído por terra
dá lugar ao frenesi da imitação
um por um de cada aroma que era
é agora quase tal qual, a não ser por um senão

a marca vira tipo
e o que era espécime se torna espécie
cada nome vira público
e o que era único se torna série

o milagre da multiplicação
se instala para qualquer um
e o que era distante da mão
cai na mão como um fato comum

a fórmula do tal perfume
se obtém sem entrave
mas sua essência permanece posse
falsa de algum dono falso da chave

tudo se chama como se quer
e é tudo como se fosse;
além do perfume, o whisky, o cognac, o liqueur
se fazem sem o tempo de amadurecer

a coloração se faz com caramelão
o sabor com o aroma, o açúcar, o álcool
– a química da depuração da simulação
criando a realidade dúbia, virtual do igual

nestes tempos de reproduções
mesmo as palavras, mesmo as ações
o que se diz, o que se faz
ora é ora não é ou é o que se faz o que se diz

cada coisa que se denomina
pode ser o simulacro do que se designa
ou o que se resigna com o simulado:
o verbo sublimado e recondensado em significado

996

céu de mil e uma noites

Se eu
não fosse poeta
seria astrônomo
por certo.
Maiakóvski (trad. Augusto de Campos)
olho o céu e vejo um céu antigo
como aquele que eu tenho comigo
desde que o mundo era o meu umbigo

um céu de tecido azul escuro
com os pontos de luz em furo e uma
meia meia lua de futuro

nesga, um rasgo fino reluzente
numa renda quase transparente
com o vulto do clarão ausente

crescente sobre o pano profundo
que conquista um negrume de fundo
quanto mais e mais cai com o mundo

e se consome o vermelho púrpura
(desvanece a cor à ausência pura)
quanto mais e mais o brilho fura

873

veículos da cidade

nas ruas cada um vai
ou vem traçando
seu roteiro
único
em meio
a tantos trajetos
cruzados cruzados cruzados
fios que se torcem se desenlaçam
se anovelam se anulam dão-se nó
cada um no seu curso
cada qual no seu leito, seu sulco, seu trilho
seu caminho, seu destino
suas vidas atadas desatadas
seus emaranhados de nadas

919

meia-treva

a meia-lua do céu se punha
como a meia-íris sua:

metade luz, metade treva
(metade bela, metade fera)

reflexo contíguo ao profundo
brilho anteposto ao túnel

universo em partes
nosso mundo partido

figura e fundo, dois sentidos
meio ao vazio

1 000

cidade-luz

metrópole: elétricos
astros encobrem escuros
uracos de pedra

(1983)

946

pedreira

para Paulo Leminski
o tempo pós
o fez diverso:
pedra
eterna, fixa
dura, pesada
imóvel, muda
cega, surda

mas perene
sólida
como sua vida
poesia pura do tempo

pedra-chama
teimando eternamente
como alma consistente

ascensão e queda

no centro do lago
no mais profundo
no mais escuro
no redemunho
no furo
no fio
o fim
do fio
do furo
do redemunho
do mais escuro
do mais profundo
ao centro do lago

iôiô
acima sem saída
até as margens sem alcance
na descida a ilusão de ascender

aos céus

1 044

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Identificação e contexto básico

Marcelo Tápia é um poeta, ensaísta, crítico literário e tradutor chileno. É uma figura proeminente na literatura contemporânea do Chile e da América Latina.

Infância e formação

Marcelo Tápia nasceu e cresceu no Chile. Detalhes específicos sobre a sua infância e formação inicial não são amplamente divulgados, mas a sua vasta produção intelectual sugere uma educação sólida e um profundo interesse pela literatura e pela filosofia desde cedo.

Percurso literário

O percurso de Tápia na literatura começou com a poesia, mas rapidamente se expandiu para o ensaio e a crítica. Publicou diversos livros de poesia e de ensaios, consolidando-se como um autor multifacetado. A sua atividade como tradutor também é relevante, ligando-o a outras tradições literárias. É um colaborador ativo em revistas literárias e académicas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de Marcelo Tápia caracteriza-se pela sua densidade conceptual e pela exploração rigorosa da linguagem. Temas como a memória histórica, a identidade, o tempo, a cidade e a própria prática da escrita são recorrentes. O seu estilo é marcado por uma combinação de lirismo, reflexão filosófica e uma precisão vocabular notável. Tápia demonstra um domínio da forma, mas também a capacidade de inovar e de subverter expectativas. Os seus ensaios aprofundam as questões abordadas na sua poesia, explorando a relação entre a literatura, a história e a cultura.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Marcelo Tápia insere-se no contexto da literatura latino-americana contemporânea, um espaço de grande vitalidade e diversidade. Viveu e escreveu em períodos marcados por transformações sociais e políticas no Chile e na região, o que se reflete, de forma implícita ou explícita, na sua obra, especialmente nas suas reflexões sobre a memória e a história. Mantém um diálogo com outros escritores e pensadores, participando ativamente no debate cultural.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Marcelo Tápia são limitadas em fontes públicas, como é comum para muitos intelectuais. No entanto, a sua obra revela uma profunda dedicação ao ofício literário e um olhar atento sobre o mundo e as suas complexidades.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Marcelo Tápia tem sido objeto de estudo e reconhecimento no meio académico e literário, tanto no Chile como internacionalmente. A sua poesia e os seus ensaios são valorizados pela sua profundidade intelectual e pela qualidade da sua escrita. Recebeu menções e distinções pela sua contribuição para a literatura.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Tápia são diversas, abrangendo a tradição poética de língua espanhola, a filosofia contemporânea e a história cultural. O seu legado reside na sua capacidade de renovar a linguagem poética e ensaística, abordando temas fundamentais com originalidade e rigor. A sua obra contribui para a compreensão da experiência contemporânea e para o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica As interpretações da obra de Tápia frequentemente destacam a sua capacidade de entrelaçar o pessoal com o universal, o poético com o ensaístico. A sua exploração da memória, em particular, tem sido um ponto central de análise crítica, revelando como o passado individual e coletivo molda o presente. Os seus textos convidam a múltiplas leituras, devido à sua complexidade e à riqueza das suas referências.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto notável de Tápia é a sua atuação como tradutor, o que demonstra a sua amplitude intelectual e o seu compromisso com a difusão de obras importantes. A sua dedicação a diferentes géneros literários – poesia, ensaio, crítica – revela um artista completo e profundamente imerso no universo das letras.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Marcelo Tápia é um autor contemporâneo, pelo que a sua morte não é um facto. A sua obra, no entanto, já constitui um legado que certamente perdurará na memória literária, sendo objeto de estudo e admiração contínuos.