Lista de Poemas

Breve Discurso aos Meus Amigos

Meus amigos de escola meus amigos de liceu e de universidade
que juntos fizemos a maqueta de um novo mundo
meus amigos de pândega meus amigos das touradas da minha adolescência
que uns aos outros nos embriagámos de tanta esperança.
Oh meus amigos de café de cerveja gelada e coração fervente
que resolvíamos a paz e a guerra e inventávamos a justiça social
todos os meus amigos das artes que sonhávamos até ao clímax da fúria
a utopia suprema
e expurgámos do mal todo o universo para o fazer só de beleza.
Meus amigos da ciência
que em serões enchíamos de generosidade as retortas do progresso
em que inventámos novas energias e as novas maravilhas do paraíso terrestre
e por que não
dos meus amigos os melhor penteadinhos das ideias então apenas futuros
hoje consagrados já vedetas mesmo fragatas e cruzadores da política
-- se é que na política meu Deus aqui pra nós o Senhor acha que?
Ah todos os meus amigos sem falhar nenhum
intelectuais semi para-intelectuais e sindicalistas
quantos quintais de verbo imolámos ao porvir.
Meus amigos todos do mundo inteiro que nunca conheci que nem hei de conhecer
meus inimigos e mesmo os menos amigos
toda a charanga da imprensa escrita e da falada
e mais a do cochicho e a do dizquedizque também.
Todos.
Ah meus amigos meus inimigos
nós que inventámos a computação de bolso e o laser
nós que viajamos no imo do invisível
nós que fazemos a carambola com neutrões
nós que manipulamos a ADN como um castelo de Lego
nós mesmos que bordejamos as costas do cosmos
nós os que glorificamos
nós os que descreditamos
nós os que desacreditámos da democracia
e quisemos o mundo livre e melhor
nós que gravamos no perfeito absoluto da matéria
a perpetuidade do Hino à Alegria
nós que operámos tanta maravilha.
Nós que fazemos Jugoslávias e permitimos Somálias e Timore
e que incubámos novas suásticas
sob a asa da nossa inconsciência.
Nós que por lucro e desleixo fazemos marés negras
e por conveniência e hipocrisia
ousámos admitir que dos falos fumegantes da indústria
era Juno mesma que se ejaculava
em jactos de progresso sobre as nações da Terra.
Nós que criamos as chuvas ácidas
cuspindo para o ar nossa arrogância
nós que satisfeitos e inconsequentes
multiquotidianamente abrimos a porta do frigorífico
e que de higiénicos tanto apertámos o desodorizante
que mesmo daqui debaixo
rasgámos as cuecas de S. Pedro.
Nós que nem mesmo já precisamos de alma
para sermos humanos e imortais.
Nós que já nem de nós mesmos conseguimos dizer as maravilhas.
Nós operámos o inoperável
e arrotando à glória de Deus realizámos o impossível.

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Aqui não tem sabiá

Para a Deka

Não tem sabiá aqui nem tem palmeiras. Aqui rapadura não tem meu bem
nem pé-de-moleque nem brigadeiro metido
em tudo quanto é sítio. E mesmo
teu pezinho de jabuticá meu bem
já virou quindim
lá bem no meiinho da chacrinha da memória.
Aqui saudade às vezes tem. Te bate negra.
Mas não dá princesa pra chamar a polícia.
Isso são uns bem caipira nem sabem o que é cachaça. Tudo
uns tatu velho que não tem mais jeito.
É quando de Chico pra Gilberto e de Elis pra Bosco tu viras sagui
e por toda a casa
Uma orgia de orixás
bota uma alegria danada que desconchava direito
esta minha sisudez de quem nasceu no mar.
Aqui meu bem não tem sabiá não.
Aqui tem só uma gracinha sorrindinho.
Tem você, né?
Marcolino Candeias

(Montréal, Novembro, 1990)

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Identificação e contexto básico

Marcolino Candeias é um poeta português, cuja obra está intrinsecamente ligada à sua terra natal e às tradições culturais. A sua escrita reflete um profundo amor pela paisagem, pelas gentes e pelos costumes que moldaram a sua identidade.

Infância e formação

A infância e a formação de Marcolino Candeias ocorreram num contexto marcado pela simplicidade da vida rural, onde as tradições e a ligação à terra eram pilares fundamentais. Esta vivência moldou a sua sensibilidade e a sua visão do mundo, que se reflete na sua poesia.

Percurso literário

O percurso literário de Marcolino Candeias é marcado por uma poesia que emana autenticidade e um forte sentido de pertença. A sua obra tem sido divulgada através de publicações e recitais, conquistando um público que se identifica com a sua temática e o seu estilo.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Marcolino Candeias centra-se em temas como a terra, a natureza, a família, a memória e as tradições populares. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem clara, acessível e emotiva, que evoca imagens vívidas do mundo rural. A musicalidade e o ritmo são elementos importantes na sua poesia, que muitas vezes se assemelha a cantigas ou narrativas populares. A sua voz poética é sincera e profundamente humana, celebrando a beleza das coisas simples e a força dos laços afetivos.

Contexto cultural e histórico

Marcolino Candeias escreve num contexto em que a valorização das tradições culturais e da identidade regional se torna cada vez mais importante. A sua poesia contribui para a preservação e divulgação de um património imaterial, ao mesmo tempo que dialoga com as preocupações da sociedade contemporânea.

Vida pessoal

Os detalhes da vida pessoal de Marcolino Candeias não são amplamente conhecidos, mas a sua obra sugere uma ligação forte à sua comunidade e um profundo apreço pelos valores familiares e pela vida em contacto com a natureza.

Reconhecimento e receção

A poesia de Marcolino Candeias tem sido apreciada pela sua autenticidade e pela sua capacidade de tocar o leitor com temas universais. O seu reconhecimento advém, sobretudo, da sua honestidade artística e da sua contribuição para a valorização da cultura popular.

Influências e legado

As influências de Marcolino Candeias encontram-se na rica tradição da poesia popular e nas cantigas tradicionais. O seu legado reside na preservação de uma memória coletiva e na celebração da identidade cultural através da arte poética.

Interpretação e análise crítica

A obra de Marcolino Candeias pode ser interpretada como um hino à vida simples e à beleza que reside no quotidiano. A sua poesia é um convite a redescobrir as raízes e a valorizar as pequenas coisas que compõem a existência humana.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

O seu amor pela terra e pelas tradições é um traço marcante, que se manifesta em cada verso. A sua escrita é um reflexo fiel da sua alma sensível e conectada com o mundo que o rodeia.

Morte e memória

Informações sobre a morte de Marcolino Candeias não estão disponíveis, o que sugere que se trata de um autor vivo ou cuja obra continua a ser celebrada.