Muro
No povo
vejo o mundo
Vejo o mundo
como um muro,
que separa o homem
do próprio homem.
O operário faz greve
a vida breve
o sonho pausa leve,
no viver.
Vejo o mundo
como um muro
de oprimidos
Mãos
As mãos não falam
por si,
mas pelos gestos;
mãos que trabalham,
tecem sonhos,
acariciam,
se perdem na volúpia
de construir caminhos.
As mãos não falam
por si
e Porfírio assim o sabe;
suas mãos falam da seca
que enrustece a vida,
aridez de sentimentos
a povoar o mundo
Suas mãos desenham gestos,
perdidas na aridez do mundo.
Das Dores
Anastácia
é simples como a noite
e ama João das Dores
filho de Dolores.
João lhe leva flores,
à noite
e chora suas dores.
A vida tá difícil
o amor tão escasso.
Trabalha no mercado
e em meio a tanta mercadoria,
sobre lhe apenas
a dura realidade
Alguns quilos de fadiga
muitos gramas de verdade.
João ama Anastácia,
é filho de Dolores
e em breve dividirá suas dores.
Longa noite curta
O apito de um guarda noturno
O barulho de um cão que ladra à[distância
Um bêbado dizendo asneiras
O grilo entoa seu canto
A coruja desfaz seu encanto
O motor de um carro passando
O vagalume clareia o espaço
A borboleta pousa na flor
Os homens fazem amor
Nessa longa noite curta
Meu pensamento é você
Raimundo
(Perfil de um cidadão comum)
Raimundo
imundo perfil do mundo
(aos olhos de quem se faz surdo)
e não ouve do profundo os gritos
soturnos de fé.
Raimundo
imundo perfil do mundo
mundo que se fez muro
e dividiu vários mundos.
Mundo, todo mundo
te busca; no dia a dia
dos vagabundos
nos palhaços do olhos
escuros
cujo brilho já muito se perdeu.
Somos todos palhaços do mundo
e Raimundo é apenas o perfil imundo
aos olhos de quem é surdo.
Olhos
Pra que tentar com
palavras
dizer o que os olhos
vêem?
A menina passa
e joga graça na praça.
É virgem
(a manhã)
e a menina cresceu
fruta madura
no quintal do prazer.
Os olhos avançam
acompanham a silhueta
da virgem manhã,
a desnudar a menina.
É virgem ainda
a manhã.
Urbano
A cidade dorme,
mas não dormem os
homens,
que espreitam a cidade,
com seus olhos de fome.
São iguais os homens,
mas desuniforme a fome.
De dia a cidade não
dorme,
e seus homens passeiam
nas ruas
alguns cabisbaixos, outros
resolutos
São iguais os homens
mas distintos os caminhos
A cidade os acolhe
A cidade os exibe
A cidade os discrimina
São iguais os homens
num contexto relativo.
Genética II
"ALERTA"
OS JORNAIS AVISAM
"cientista renomado
conseguiu incrível feito
unindo genes preciosos
à evolução física do homem"
NOTIFICAÇÃO
Está aberto o caminho
para quem quiser aperfeiçoar
a mentalidade e a vida.
brasil
Seu nome era Raimundo
mas como é de praxe
apelidaram-no de mundo
Mas acharam tão
vasto, que resolveram
chamá-lo de
brasil
Ele tinha uma infância comum
num contexto relativo
Vivia às expensas dos outros
vez ou outra se nutria,
mas almejava um promissor
futuro.
Queria ser grande logo,
para desenvolver suas idéias,
já que possuía um potencial
significativo.
Corria atrás de bola
e sonhava conquistar o mundo
sendo um grande jogador
de futebol.
Enfim, teve brasil
uma infância comum,
num contexto relativo.
Perdi-os nos caminhos da vida
mas espero ainda revê-lo grande,
no futuro.
Dos caminhos
Dos caminhos nada sei
a não ser os passos incertos que dei
vez ou outra sem saber os achei
e me perdi ao encontrar você
Dos caminhos nada sei
a não ser o brilho dos olhos
a construir o trajeto e as
mãos vazias a tatear um verso
Os caminhos me são estranhos
assim como o são esses seres
que nada dizem, apenas me vêem
como um entre tantos
Os caminhos me fogem às mãos
e persigo-os de fato
itinerário incerto
pés descalços . . .