3 - III- (Mensagem)
palavra,
eu te conheci em palavras,
eu te aprendi em palavras
eu te beijei em palavras
eu te amei por fim em palavras
num dia em que as palavras
substituem gestos e palavras.
5 - V (Cais sombrio)
eu te reparo nos olhos:
possuem um brilho intensamente mágico
e trágico
eu amo tua pele, cada traço,
cab:elos do mais fino fio
que desfio impulsivamente
tragicomicamente
em toda a extensão do teu ser
porque és maior do que a imaginação.
6 - VI (Clariluz)
ontem à noite
eu vi teu espírito sobrevoar a cidade
e apagar silenciosamente
todas as luzes.
Livrório-Opuszero
(livro de poesia de Mário Hélio, publicado pela Prefeitura do Recife, em 1985, em virtude de haver conquistado o primeiro lugar no Concurso Literário Cidade do Recife. A presente versão não inclui todos os textos desse livro. Embora mantenha a maioria absoluta dos textos, alguns deles sofreram cortes, tiveram estrofes reduzidas e estrutura simplificada, mantendo-se, no entanto, praticamente intacto o conteúdo e sentido dos poemas, que foram escritos em maioria de 1979 a 1982, portanto, entre os 14 e os 17 anos de vida do autor. Originalmente compunha-se o livro de cem poemas, e estava subdividido em seis gritos, assim distribuídos: 1. Heróide; 2. Longitude Morta; 3. Sol Incompleto; 4. Limitações; 5.Logomaquia; 6. Nós, os pútridos. O opuszero não é gratuito, pois nada é mais é que a primeira parte de um livro composto de várias, com o título geral de Livrório. Além de ser todo escrito em verso livre, esse Livrório define-se pela unidade, a começar pela dedicatória: cada um dos livros de que se compõe o Livrório tem uma, no mesmo espírito dos demais)
Dedicatória:
para hefaistos,
com devoção,
seis pobres gritos,
pobre paixão.
11-I(Formas)
vou deixar de fazer poema
para as estrelas.
hei de cantar as formas duras e abscônditas,
as formas brutas,
a fome e o desespero tão irmãos,
as pequeninas mortes, o imodelável,
as normas brancas.
o poema deve falar à alma e aos sentidos.
nós somos deuses:
deuses não destroem.
o mistério da imensidade não me ofusca,
talvez o mundo nem saiba,
e é isto o que me espanta e me exulta --
a fonte que há dentro de mim.
nós somos deuses, mas ainda não
fizemos a descoberta.
diferente de todos semelhante a todos
sou mais poderoso
todas as coisas me servem eu sou as coisas
a dor não me espanta eu sou a dor.
o homem só é grande quando constrói.
não fiz mais poema para as estéreis estrelas.
desde a última vez que te vi em vaivém com a vida
não sabias da essência forte
que habitava o teu corpo nessas noites
naquelas noites em que te fiz tão minha
que era difícil conjugar quem eu era quem tu eras
já não éramos.
teu sorriso já não encherá as salas.
a palavra resiste a alturas ainda maiores.
mas que eram os ais mulher por quem te calas,
tu sabes que eram sinfonias de amores.
ah sagrada mulher, dorme em meu peito,
talvez o mundo te desperte amanhã.
o que é a vida sem o aroma do teu leito,
sem os hinos de afagos que me entoas no afã?
cantarei simplesmente o momento esgotado
como tributo.
neste mundo jamais conceberemos as formas puras.
são as impurezas que fazem as formas belas,
e as formas são sempre figuras
real ilusão
talvez não haja a negação da negação.
não é a dignidade moral que nos faz deuses,
é o ato de criar, nos lambusar nas formas.
o mundo é maravilhoso, a vida, a criação,
tudo é uma grande massa de modelar
na aparente harmonia que rege cada coisa.
a areia da praia é a parede celular,
o zumbidoecatombe é um sussurrotrovão
e todos são irmãos
nas divisas entrevalux intervalus.
fico pensando na alma das formigas,
nas mais diversas formas do criador.
deus é um grande artista plástico,
poeta músico seresteiro de noites não pensadas.
não farei mais versos às estrelas.
elas têm o seu vate.
cantarei as nossas formas
e mais a mais
existem gritos grifando a multidão,
é preciso perseguir as coisas e alcansá-las
mudá-las moldá-las mandálas acabálas.
nenhum halo se acendera em tua cabeça.
repito que a aparente sensação de vislumbre
é só visão.
através do atrazo destes anos atrozes
são como cem deuses sem ritos sem infinitos
sem eleuses
abaixo todos os mitos.
Nota biográfica:
Mário Hélio nasceu em Sapé (PB) no dia 16 de abril de 1965. Publicou: Livrório/Opuszero, separata da Revista Arrecifes, do Conselho Municipal de Cultura da Prefeitura do Recife. Em 1984, ganhou o primeiro lugar no Concurso Nacional de Poesia Carlos Pena Filho, promovido pelo Bar Savoy, com "As Oito Fauces do Poema", e, em 1990, venceu o concurso de moonografia "O Recife na Poesia de João Cabral". É jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Desde 1984 escreve no Jornal do Commercio, do Recife. Em 1993, é Mestre em História pela Universidade Federal de Pernambuco, com dissertação sobre a obra de Gilberto Freyre. É atualmente editor de literatura do Jornal do Commercio, editor do Suplemento Cultural do Diário Oficial de Pernambuco e professor de História Antiga na Universidade Federal de Pernambuco.
13-III(Quid Novi)
a velhice das plantas
acostumadas a serem o que são
sem perguntarem o que são?
quid novi?
o ovni que sobrevvvvou rapidamente a mente
da cidade sumiu depois com o vazio?
quid novi?
o velho sempre argumentar-se que há de novo?
a velha olhada no espelho
depois estilhaçado e volvido ao que era antes
de ser?
quid novi? a morte aditiva? a vida minutiva?
quid novi? a velocidade? a passivilidade? as idades
todas?
e depois de tantotempo perdido em procurar ven-
cer o tempo constatar que não há tempo nunca houve
quid novi?
a morte?
morremos todo dia e não percebemos
eu não sei porque nos preocupamos
tu não existes insistes
ecoas coas asas ásperas do nada
entretanto sentimorste presente
irreconhecível irrepreensível.
não falas com ninguém, te ouvimos.
quem dera fôssemos eli-
eli-
minando tudo
e não restasse morte
pra manchar ávida a vida.
quid novi?
nada há,
e passa a existir
ao se negar.
10- X- (Orfeurídice)
o corpo ardente.
tuas curvas tuas mãos
se perderam na vertigem
dos que quiseram dizer sim
ao amor que já não pulsa
à canção que já não vibra.
teu hálito perdeu-se
entre flores, calores e perfumes.
nós nos perdemos no caminho onde não há volta
porque não se pode olhar atrás.
atrás ficaram todos os carinhos.
atrás ficou a sede desmedida,
atrás ficaram todos os caminhos.
1-I-(Cabeçalho)
ergo este tributo às nossas almas
por tudo o que nós fomos no que somos,
na simples humildade do que expomos
- a débil e frágil luz, a lira calma -
à larga vastidão do que é finito,
num grito maior do que a própria voz,
o grifo triunfal, o grito:
nós!
4 - IV (Marte e Vênus)
doce amiga, apenas sou o aedo
que ignorando que as coisas eram incertas
e que a própria incerteza é mãe da vida,
te procurou como procura um asceta
sua verdade boiando além das mãos pendidas.
te possuí como se tem a um segredo
e depois de o sabermos sabemos não sabê-lo.