Martim Soares

Martim Soares

Martim Soares foi um trovador medieval galego-português, ativo no século XIII. A sua obra, inserida na tradição da lírica galego-portuguesa, reflete os costumes e a mentalidade da nobreza da época. As suas cantigas, embora escassas em número, são representativas do cancioneiro trovadoresco, abordando temas como o amor cortês e a sátira social com a mestria característica dos poetas da sua corte.

n. , Portugal · m. , Portugal

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Pero Rodrigues, da vossa mulher

Esta outra cantiga fez a Pero Rodrigues Grongelete de sua mulher que havia prez que lhe fazia torto

Pero Rodrigues, da vossa mulher,
não acrediteis no mal que vos digam.
Tenho eu a certeza que muito vos quer.
Quem tal não disser quer fazer intriga.
Sabei que outro dia quando eu a fodia,
enquanto gozava, pelo que dizia,
muito me mostrava que era vossa amiga.

Se vos deu o céu mulher tão leal,
que vos não agaste qualquer picardia,
pois mente quem dela vos for dizer mal.
Sabei que lhe ouvi jurar outro dia
que vos estimava mais do que a ninguém;
e para mostrar quanto vos quer bem,
fodendo comigo assim me dizia.

Português antigo

Pero Rodriguiz, da vossa molher
nom creades mal que vos home diga,
ca entend'eu dela que bem vos quer,
e quem end'al disser, dirá nemiga;
e direi-vos em que lho entendi:
em outro dia, quando a fodi,
mostrou-xi-mi muito por voss'amiga.

Pois vos Deus deu bõa molher leal,
nom tenhades per nulha jograria
de vos nulh'home dela dizer mal,
ca lh'oí eu jurar em outro dia
ca vos queria melhor doutra rem;
e, por veerdes ca vos quer gram bem,
nom sacou ende mi, que a fodia.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Martim Soares foi um trovador galego-português do século XIII. A sua atividade poética insere-se no contexto da lírica medieval galego-portuguesa, sendo um dos representantes da produção literária que floresceu nas cortes da Península Ibérica. A sua obra, embora limitada em número de cantigas atribuídas, é valiosa para o estudo do cancioneiro trovadoresco da época.

Infância e formação

A informação sobre a infância e formação de Martim Soares é escassa, como é comum para a maioria dos trovadores medievais. Sabe-se que pertencia, provavelmente, ao círculo da nobreza, um requisito para a atividade trovadoresca, que envolvia uma educação que incluía o conhecimento das artes e das convenções sociais da corte.

Percurso literário

O percurso literário de Martim Soares está marcado pela autoria de algumas cantigas de amor e de escárnio e maldizer. Estas cantigas foram recolhidas em cancioneiros medievais, sendo as mais conhecidas aquelas que foram incluídas no "Cancioneiro da Vaticana" e no "Cancioneiro Colocci-Brancuti". A sua atividade poética parece ter ocorrido durante a segunda metade do século XIII.

Obra, estilo e características literárias

As cantigas de Martim Soares refletem os temas e as formas da poesia trovadoresca da época. Nas suas cantigas de amor, explora os motivos do amor cortês, com a exaltação da dama e a submissão do trovador. Nas cantigas de escárnio e maldizer, evidencia uma veia satírica, criticando costumes sociais e comportamentos de figuras da corte, utilizando uma linguagem mais direta e, por vezes, mordaz. A métrica utilizada é a típica das cantigas de amigo, redondilha maior (sete sílabas métricas), com estrofes de cinco versos, com refrão.

Contexto cultural e histórico

Martim Soares viveu num período de intensa atividade cultural nas cortes da Península Ibérica, onde a poesia trovadoresca era uma forma de entretenimento e expressão social importante. A sua obra insere-se na tradição da lírica galego-portuguesa, que era a língua vernácula utilizada por trovadores de toda a região.

Vida pessoal

Os detalhes sobre a vida pessoal de Martim Soares são praticamente inexistentes. Como a maioria dos trovadores, a sua biografia é reconstruída a partir da sua obra e dos registos que a mencionam.

Reconhecimento e receção

O reconhecimento de Martim Soares advém da sua inclusão nos principais cancioneiros da lírica galego-portuguesa, o que garante a sua posteridade e o seu estudo por parte dos investigadores.

Influências e legado

Como trovador medieval, Martim Soares insere-se numa vasta tradição poética que influenciou a literatura peninsular. A sua obra, embora limitada, contribui para o património da poesia galego-portuguesa.

Interpretação e análise crítica

A análise crítica das cantigas de Martim Soares foca-se na sua adequação aos modelos genéricos (amor, escárnio, maldizer) e na sua capacidade de retratar os costumes e a mentalidade da sociedade da época.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

É possível que Martim Soares tenha tido uma ligação a alguma corte específica, mas os dados são imprecisos.

Morte e memória

Não há informação específica sobre a morte de Martim Soares. A sua memória perdura através das cantigas que lhe são atribuídas nos cancioneiros medievais.

Poemas

41

Por Deus, Senhor, Nom Me Desamparedes

Por Deus, senhor, nom me desamparedes
a voss'amor, que m'assi quer matar;
e valha-mi bom sem que vós havedes
e Deus, por que vo-l'eu venho rogar;
e valha-mi, fremosa mia senhor,
coita que levo por vós e pavor;
e valha-mi quam muito vós valedes.

E valha[m]-mi porque [bem] saberedes
que vos eu nunca mereci pesar
de que me vos com dereito queixedes,
ergo se vos pesa de vos amar;
e nom tenh'eu que é torto nem mal
d'amar home sa senhor natural,
ant'é dereito e vós vo-l'entendedes.

E, mia senhor, por Deus, nom me leixedes,
se vos prouguer, a voss'amor forçar;
ca nom posso'eu com el, mais poder-m'-edes
vós, se quiserdes, de força guardar,
de tal guisa como vos eu disser:
senhor fremosa, se vos aprouguer,
pois m'el por vós força, que o forcedes.

E pois nós ambos em poder teedes,
nom me leixedes del forçad'andar:
ca somos ambos vossos e devedes
a creer quem vos melhor conselhar;
e, mia senhor, cuido que eu serei,
ca sempre vos por conselho darei
que o voss'home de morte guardedes.

E fiqu'Amor como dev'a ficar,
quando vos nom quiser avergonhar
de vos matar um home que havedes.
611

Quantos Entendem, Mia Senhor

Quantos entendem, mia senhor,
a coita que me por vós vem
e quam pouco dades por en,
todos maravilhados som
de nom poder meu coraçom
per algũa guisa quitar,
por tod'esto, de vos amar.

Maravilham-se, mia senhor,
e eu deles, por nẽum bem
desejarem de nulha rem
eno mundo, se de vós nom,
se lhes Deus algũa sazom
aguisou de vo-lhes mostrar,
ou d'oírem de vós falar.

Ca se vos virom, mia senhor,
ou vos souberom conhocer,
Deus! com'ar poderom viver
eno mundo jamais des i
senom coitados, come mim,
de tal coita qual hoj'eu hei
por vós, qual nunca perderei?

Nen'a perderá, mia senhor,
quem vir vosso bom parecer,
mais converrá-lh'ena sofrer,
com'eu fiz, des quando vos vi;
e o que nom fezer assi,
se disser ca vos viu, bem sei
de mim ca lho nom creerei.

Mais creer-lh'-ei a quem leixar
tod'outro bem, por desejar
vós, que sempre desejarei.
695

Pois Nom Hei de Dona Elvira

Pois nom hei de Dona Elvira
seu amor e hei sa ira,
esto farei, sem mentira:
pois me vou de Santa Vaia,
       morarei cabo da Maia,
       em Doiro, antr'o Porto e Gaia.

Se crevess'eu Martim Sira,
nunca m'eu dali partira
d'u m'el disse que a vira:
em Sam [J]oan'e em saia.
       Morarei cabo da Maia,
       em Doiro, antr'o Porto e Gaia.
407

Já, Mia Senhor, Nem Um Prazer

Já, mia senhor, nem um prazer
nom mi fará mui gram prazer
sem vosso bem;
ca outro bem
nom mi fará coita perder
mentr'eu viver;
e quem viver
haver-mi-á pois est'a creer.

E que mal conselho filhei
aquel dia em que filhei
vós por senhor!
Ca, mia senhor,
sempr'eu mia morte desejei;
meu mal cuidei
porque cuidei
d'amar-vos; já mais que farei?

Que farei eu com tanto mal,
- pois vosso bem tod'é meu mal?
Pois est assi,
morrer assi,
com'hom'a que, senhor, nom val
a coita tal,
que nunca tal
houv'outr'home, d'amor nem d'al.

Como que me faz desejar
Deus vosso bem, por desejar
a mia mort'eu;
pero sei eu,
pois que me Deus nom quer quitar
d'em vós cuidar,
ca, a meu cuidar,
nom m'haverá mort'a filhar.
706

Pero Pérez Se Remeteu

Pero Pérez se remeteu
por dar ũa punhada;
e non'a deu, mais recebeu
ũa grand'orelhada,
ca errou essa que quis dar;
mais non'o quis o outr'errar
de cima da queixada.

Houvera el gram coraçom
de seer [i] vingado,
e do seu punho, d'um peom
que o há desonrado;
e nom lhi deu, ca o errou;
[e] Pero Pérez i ficou
com seu rostro britado.
544

Maravilho-M'eu, Mia Senhor

Maravilho-m'eu, mia senhor,
de mim, como posso sofrer
quanta coita me faz haver,
des que vos vi, o voss'amor;
e maravilho-me log'i
de vós, por leixardes assi
voss'hom'em tal coita viver.

Aquesto dig'eu, mia senhor,
por quanto vos quero dizer:
porque vos fez Deus entender
de todo bem sempr'o melhor;
e a quem Deus tanto bem deu
devia-s'a nembrar do seu
homem coitado e a doer

de tam coitado, mia senhor,
com'hoj'eu vivo, que poder
nom hei de gram coita perder
per al já, se per vós nom for;
e se quiserdes, perderei
coita per vós ou morrerei;
ca todo é em vosso prazer.

E a mia coita, mia senhor,
nom vo-la houvera a dizer,
ante me leixara morrer,
senom por vós, que hei pavor
de que têm, senhor, por mal
de quem a seu homem nom val,
pois poder há de lhi valer.

E pois vos outro bem nom fal,
por Deus, nom façades atal
torto qual oídes dizer.
743

Quand'albardam Fogia D'aalém

Quand'Albardam fogia d'aalém,
Orrac'Airas o ascondeu mui bem;
e el na arca fez-lhi atal rem
       per que nunca i outr'asconderá.
       Per quant'i fez Albardam, nunca já
       Orrac'Airas i outr'asconderá,

polo guarir – "Muito fostes de mal
sem". E chamou sempre: "Nom moir'Abal-
dam". E el demais lhi fez [n]a arca tal,
       per que nunca i outr'asconderá.
       Per quant'i fez Albardam, nunca já
       Orrac'Airas i outr'asconderá.
466

Meu Coraçom Senhor Atal

Meu coraçom senhor atal
me faz amar de que eu hei
todo quant'eu haver cuidei
des aquel dia em que a vi:
ca sempr'eu dela atendi
desej'e coita, ca nom al.
[...]
346

Nostro Senhor, Com'eu Ando Coitado

Nostro Senhor, com'eu ando coitado
com estas manhas que mi quisestes dar:
som mui gram putanheir[o] aficado
e pago-me muito d'os dados jogar;
des i ar hei mui gram sabor de morar
per estas ruas, vivend'apartado.

Podera-m'eu bem, se foss'avegoso,
caer em bom prez e honrado seer;
mais pago-m'eu deste foder astroso
e destas tavernas e deste bever;
e, pois eu já mais nom posso valer,
quero-m'andar per u seja viçoso.

E pois eu entendo que rem nom valho,
nem hei por outra bondad[e] a catar,
nom quer'eu perder este fodestalho,
nem estas putas nem est[e] entençar,
nem quer'ir per outras fronteiras andar,
perdend'o viç'e dando-mi trabalho.

Ainda eu outras manhas havia,
per que eu nom posso já muito valer:
nunca vos entro na tafularia
que lhi nom haja algum preit'a volver;
porque hei pois em gram coita [a] seer,
é fugir [e] guarir na putaria.

E pois, quando me vej[o] em meu lezer,
merendo logo; e pois vou mia via;
e leix[o] i putas de mi bem dizer,
e de mias manhas e de mia folia.
587

Muitos Me Vêm Preguntar

Muitos me vêm preguntar,
mia senhor, a quem quero bem;
e nom lhes quer'end'eu falar,
com medo de vos pesar en,
nem quer'a verdade dizer,
mais jur'e faço-lhes creer
mentira, por vo-lhes negar.

E por que me vêm coitar
do que lhes nom direi per rem
- ca m'atrev'eu em vos amar?
E mentr'eu nom perder o sem,
nom vos en devedes temer,
ca o nom pod'home saber
per mim, se nom adevinhar.

Nem será tam preguntador
nulh'home que sábia de mim
rem, per que seja sabedor
[d]o bem que vos quis, pois vos vi.
E pois vos praz, negá-lo-ei
mentr'o sem nom perder; mais sei
que mi o tolherá voss'amor.

E se per ventura assi for,
que m'ar preguntem des aqui
se sodes vós a mia senhor
que amei sempre e servi,
vedes como lhes mentirei:
doutra senhor me lhes farei,
ond'haja mais pouco pavor.
734

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