Ritmo cinzento
Não foi da solidão que me escapou a voz;
se canto a desventura, é porque sou incauta
e o verso fugitivo é aquele que não falta,
pois cumpre o seu papel e faz menos atroz
o eterno isolamento e o branco desta pauta.
A voz surgiu do além, bem antes, não após
a vida revelar que há multidão em nós
e a vida, quando quer, assusta e nos assalta.
E assim vem deste som a cor e a fantasia,
a força natural e o ritmo cinzento
da ave que se eleva e voa à revelia;
entrega o seu cantar ao vasto firmamento,
que pelo espaço irrompe e súbito irradia,
mas cala ao refletir a pausa em que me adentro.
Nilza Azzi
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